Lixo Extraordinário, filme idem.

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Hoje em dia pouca gente se lembra ou já ouviu falar de Phil Ochs, compositor americano que nos anos 60 escreveu algumas das mais belas canções pelos direitos civis e contra a guerra do Vietnã. Uma das minhas favoritas é There But for Fortune, depois gravada por artistas do quilate de Joan Baez, Peter Paul & Mary e Marianne Faithful. É uma música bastante simples, mas a mensagem é poderosa: muitas vezes, o que nos separa do destino de um prisioneiro, de um sem-teto ou um bêbado é simplesmente pura sorte.

E essa música ficou na minha cabeça depois de assistir a Lixo Extraordinário, a produção anglo-brasileira que concorre ao Oscar de melhor documentário neste domingo, dia 27. Sim, é um filme que fala sobre o projeto do fotógrafo brasileiro radicado em Nova York, Vik Muniz, que transforma lixo em arte que mais tarde é vendida por muitos dinheiros em galerias e leilões bacanas. Também mostra a dinâmica do trabalho de catadores de materiais recicláveis de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, o maior aterro sanitário do mundo. O absurdo daquele lixo todo, recolhido dos condomínios de luxo da Barra da Tijuca e dos casebres das favelas da Baixada, caminhões e caminhões que ficam entrando e saindo dia e noite, os urubus misturados às pessoas, a carne sendo refogada num pequeno fogareiro ali mesmo, milhares de catadores subindo e descendo montanhas de lixo e entulho à procura de papel, plástico e latas, uma Serra Pelada urbana.

Mas, muito mais do que isso, é também um documentário de histórias. Pessoas como cada um de nós, ou como poucos ou nenhum de nós (quantos dos seus amigos já leram Maquiavel e Nietzsche?), moças que enfiam as mãos na sujeira com os dedos pintados com esmaltes de cores vivas, sobrancelhas bem feitas, brincos nas orelhas, como se fizessem questão de ressaltar sua beleza naquele lugar feio, mulheres fortes que sofrem abusos e criam filhos sozinhas, homens que trabalham duro e resistiram ao apelo imediato do tráfico. O valor abstrato do dinheiro e do trabalho, 40 reais por um dia catando lixo no aterro, 100 mil por uma foto vendida no leilão do outro lado do Atlântico. As dúvidas da equipe de produção (estamos mexendo com a cabeça dessas pessoas? podemos? devemos?) e um fotógrafo que, reconhecendo uma certa arrogância ao querer transformar a vida de alguns, acabou, no final da história, vendo que mudado mesmo estava ele.

Não sou de fazer torcida pra filme só porque ele é brasileiro – na verdade, acho esse ‘carnaval da vitória’ muito chato. Mas, desta vez, estou torcendo muito por Lixo Extraordinário, por conseguir transmitir tanta coisa num tempo de projeção tão curto. Tem muita gente neste mundo precisando assitir a um filme desses. Porque, como Muniz comenta ainda no começo, não existe nada pior do que as pessoas que acreditam que são mais do que as outras porque possuem mais, quando realmente o que separa umas das outras pode ser apenas pura sorte.

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4 respostas em “Lixo Extraordinário, filme idem.

  1. É isso aí, Mônica, você disse tudo: se tem uma coisa de que o mundo realmente não precisa – e no entanto, nos deparamos com doses cavalares dela todo santo dia – é arrogância. Pensando bem, ela é a culpada por, literalmente, todos os problemas da humanidade. Espero que todos assistam a esse documentário e reflitam sobre o assunto. E se ganhar o Oscar, espero que o prêmio ajude a reforçar (e não esvaziar) a mensagem central.

  2. Olá Monica eu novamente te enchendo, o seu texto disse tudo, e a visão do Muniz, onde ele diz que não há nada pior doque pessoas que acham que são mais por ter mais, mas a verdade é que somos não pelo que possuímos, mas por quem temos ao nosso lado, e principalmente nas horas difíceis, onde quase todos somem, ainda não vi o filme, mas pela descrição também torço por ele, abraço.

    • E hoje em dia então, né Fernando, essa história de ‘eu sou porque eu tenho’ é dureza. Se você tiver a chance de assistir aí, tenho certeza de que vai gostar muito.
      Abraço!

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