127 horas – mas quem está contando?

Quando Aron Ralston ficou preso no Blue John Canyon, em Utah, ele estava longe de ser um montanhista inexperiente. Já havia escalado o Mount McKinley, no Alasca, o pico mais alto da América do Norte; já tinha feito incursões pela Cordilheira dos Andes e também subido mais de cem montanhas do Colorado, onde morava, inclusive todas aquelas com mais de 4 mil metros. Sabia usar os equipamentos para escaladas com neve e gelo, fazia rapel, era voluntário em grupos de resgate em parques. Talvez tenha sido esse excesso de confiança em sua capacidade que o tenha feito acreditar que nada poderia dar errado em uma simples caminhada de umas poucas horas. Um erro de cálculo que quase lhe custou a vida.

O Ralston de James Franco no filme 127 Horas é um sujeito boa-praça e alto astral, mas me pareceu um pouco garotão demais. Possivelmente, essa foi uma opção consciente do ator e do diretor Danny Boyle (o mesmo de Quem Quer Ser um Milionário?) para acentuar as mudanças em Aron nos cinco dias e pouco em que esteve entalado no fundo de uma fenda numa parte remota do parque. O trabalho de Franco não foi fácil e sua interpretação merecidamente valeu sua indicação ao Oscar de melhor ator (e, se dessem um prêmio para locações, certamente a região próxima a Moab mereceria uma estatueta). Boa parte do filme é apenas Ralston e a fenda, a pedra e a câmera de vídeo que usou para gravar uma espécie de diário e mensagens para a família, achando que daquela ele não escaparia vivo. Viveu pra contar a história sim, mas para isso teve que tomar medidas drásticas (e como nos Estados Unidos tudo vira dinheiros, ele hoje passa boa parte do tempo dando entrevistas sobre seu drama e palestras motivacionais).

Boyle não se aprofunda muito na hora de explorar o estado mental de Aron, embora estejam lá os altos e baixos de quem conseguia pequenas vitórias seguidas da constatação cruel de que elas não serviriam pra muita coisa, as alucinações pela falta de comida e água e pelo choque térmico (temperaturas elevadas durante o dia, menos de dez graus à noite), o pesadelo de ser pego num flashflood – enchentes-relâmpago comuns em lugares assim, um pavor constante dos montanhistas. O mérito maior é mesmo de James Franco, não deve ter sido nada fácil trabalhar praticamente num monólogo o tempo todo – pelo menos o personagem de Tom Hanks em O Náufrago tinha a bola Wilson pra conversar…

O mais impressionante, claro, é que a história é real e recente (a entrevista que Ralston deu três meses depois do acidente no programa do David Letterman foi das poucas que eu já vi em que o apresentador, sempre metido a engraçadinho, não conseguiu fazer piadas bobas ou falar mais do que o entrevistado). O filme nos permite dar uma olhada no que acontece com uma pessoa numa situação em que ninguém em sã consciência gostaria de se meter. E mostra que, no final das contas, experiência e autoconfiança não devem te livrar de tomar algumas medidas providenciais antes de sair de casa.

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2 respostas em “127 horas – mas quem está contando?

  1. ATENÇÃO: NÃO LEIA SE AINDA NÃO VIU O FILME.
    Bom comentário, Mônica. O que mais me impressionou no filme (evidentemente e a todos os espectadores também) foi o cara fazer a auto-amputação sem esboçar dor qualquer. Na certa, estava anestesiado pelo excesso de adrenalina acumulada antes e durante aquele crucial momento.
    Mas, ainda bem que não sabia o desfecho da situação antes de assistir ao filme, o que aumentou ainda mais o meu suspense.
    Por sinal, acho que esse detalhe crucial (o de saber que o cara sobreviveu) já fez alguns perderem a graça…
    Enfim, uma história incrível, bem dirigida, bem interpretada e bem fotografada.
    Não obstante os momentos de tensão que duraram uma eternidade (mesmo o filme sendo relativamente curto: 1:30) e o adocicado gosto de hemácias debaixo da língua enquanto assitia à cena do açougueiro!

    • Ah, mas e aquele berreiro todo??? 🙂
      Não sei se no YouTube tem a entrevista dele no Letterman, mas vale a pena procurar. Eu sempre passo pros meus alunos quando a gente discute ‘O que você faria se…’. É uma entrevista de uns 20 minutos, muito boa.

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