Já passou meu carnaval

Eu até gosto de Carnaval. Quer dizer, em tese. Na minha infância querida que graças a Deus os anos não trazem mais, tinha toda aquela rotina de arrumar fantasia de baiana, odalisca ou havaiana e ir pra matinê da Sociedade Mineira dos Engenheiros. Eram até bonitinhas as roupas, compradas na promoção das Lojas Americanas ou improvisadas em casa mesmo porque, né, no final do dia elas já estavam acabadas, e dinheiro não dava em árvore com três crianças em casa, certo? A gente comprava aqueles colares de plástico e os martelinhos que faziam um barulhinho irritante, confetes e serpentinas que grudavam no chão da sala, tadinha da minha mãe, a gente não tinha paciência de esperar chegar no salão do clube pra fazer a bagunça.

Aí, na adolescência foi um ou outro baile com as amigas do colégio, umas noites viradas assistindo aos desfiles da Sapucaí, um Carnaval no interior. Uma vez fui atrás do trio elétrico em Salvador (era julho, mas é que julho ainda é carnaval na Bahia, né?), quase morri com aquela pulação toda. Aí deu, acabou, c’est fini, game over. Quando eu falo pros gringos lá fora que eu não faço muita questão de carnaval e prefiro passar meus dias de folia em Lençóis (os da cama, não os Maranhenses), olhos saltam pra fora das órbitas, queixos despencam, mãos se agitam freneticamente para o alto: ‘como assim, não faz questão de carnaval?’

É, faço não. Acho divertida a animação do pessoal, o clima de festa, as baterias das escolas de samba, nem sei como estão os bailes, mas desconfio que devem tocar axé e funk boa parte do tempo, será que ainda se lembram das antigas marchinhas do Braguinha e do Lamartine? Não tenho lá muita disposição para encarar estradas cheias, praias lotadas, aquela urgência louca de beber até se acabar, virar a noite pulando e acordar em casa com uma ressaca gigante e os dedinhos dos pés am frangalhos com o tanto de pisões. A amiga foliona decreta a minha velhice antecipada, pode ser, pode ser, mas eu sinto muito mais prazer em ficar quietinha no meu canto, a calmaria e o silêncio (os mais renitentes – e por que não dizer, otimistas? – insistem que existe carnaval nesta cidade mas se tem, ninguém sabe, ninguém viu), as ruas com trânsito fácil, os restaurantes e cinemas sem filas, talvez uma caminhada pelas montanhas, se São Pedro nos brindar com sua benevolência e colaborar com o tempo.

Do Carnaval propriamente dito, ficam as lembranças da infância, e da versão de sílabas trocadas que meu pai fazia de Chiquita Bacana: “Chicana Baquita lá da Marticana, se nica com uma veste de banica na casca”. E assim meu ziriguidum fica de ótimo tamanho.
***

reparem na minha esfuziante e incontida animação com o martelinho nas mãos...

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22 respostas em “Já passou meu carnaval

  1. Monica, somos dois, até quando ainda pequeno, minha animação era idêntica a essa sua da foto, detesto barulho e aglomeração, dias atras fui doar sangue e a enfermeira da Cruz vermelha, ao ver minha nacionalidade já tascou a pergunta, lá no Brasil vai ser carnaval, você dança samba e joga futebol? Não teve como não decepcionar ela com a resposta, disse educadamente que são meus pontos fracos, e ainda fiz piada com minha cara, dizendo que eu era brasileiro falsificado, acabamos rindo, mas mania de gringo achar que todos são iguais, e que ai é so samba, futebol, e pros homens mulatas, muito chato, e todos são assim, vou começar a ser chato também e generalizar, pode né? Quem começou não fui eu, abraço e bom carnaval hahaha.

    • Pois é, Fernando, essas generalizações são engraçadas – e, claro, brasileiros também fazem isso com pessoas de outros países… Sempre me perguntam se gosto de carnaval, sei sambar, tenho time de futebol, essas coisas. Bom, não sou mulata globeleza, mas sei dar meus passinhos, mas futebol e carnaval não são pra mim não. Salva-se a caipirinha, que eu não dispenso! Daquelas com cachaça boa… 🙂
      Bom Carnaval pra você também!

  2. Sim, sim, eu ia, há muto tempo atrás, nos bailes dos clubes com a família. Quando comecei a trabalhar em navio, tudo mudou. É raro o carnaval que passo em terra firme. Mas é isso mesmo, passou a fase, sei lá. Eu virava noite vendo os desfiles das escolas de samba na TV, hoje não tenho mais pique para isso…

    • Também não tenho mais não, Marcus, embora ainda ache o espetáculo em si muito bonito. Depois de uma certa hora, fica meio mais do mesmo, mas me impressiona a qualidade do trabalho de tantos milhares de pessoas. É realmente incrível. Acho que o bom é a gente aproveitar as coisas na hora certa, né? Pelo menos na hora certa pra gente – hoje eu curto muito mais ficar no meu canto.

  3. Mônica,
    intervenção a la Paulo Guimarães:

    Num carnaval de sonho,
    ver canarinhos,
    no Varandão do totonho!

    Eu e Macacaurélho estamos indo pra Formiga…
    Que carnaval, cara, inclusive com o Gilson Red! Discutir Marx (Groucho and his brothers…) a fundo!

    Dá pra imaginar?

    Bons lençois pra você,

    Stélio

  4. Lembro de fazer uns passeios à noite pela Avenida Afonso Pena e de assistir a uns quantos desfiles (mesmo na bancada), pobres desfiles… e lembro também de algumas matinês no Country Club. De resto, carnaval pra mim sempre foi um tédio, sobretudo porque na televisão não dava mais nada a não ser os desfiles de carnaval de Rio e São Paulo e aqueles concursos de fantasia do Clube Sírio-Libanês… Não deixaram saudade.
    Bjs,
    Ana

    • Nunca nem passei perto de desfiles daqui, Ana. Sempre achei tudo muito sem-graça. Um motorista no trabalho do meu pai era de uma escola de samba e de vez em quando eles faziam umas rodas sensacionais lá em casa, então pra mim já estava ótimo! 🙂
      Em clube, só fui mesmo quando era pequena. Muvuca nunca foi o meu forte. Hoje eu tou que nem o Tim Maia: o que eu quero é sossego! 😉
      bjk

  5. Tivemos uma educação um tanto rígida e eu nunca fui a um baile de carnaval, então entendo o que você quer dizer com passar esses dias descansando nos seus lençóis! Eu, provavelmente ano que vem, porque agora ainda estaremos aqui, farei o mesmo que você!
    Beijo e bom descanso!
    Adri

    • Então bom descanso pra você aí! Eu acho ótima a calma que esta cidade fica. Levo dez minutinhos pra chegar em qualquer lugar, tudo tranquilo, e as pessoas que eu quero encontrar também estão por aqui, então não tem como ser chato, né?
      bjk e ótimo descanso pra ti também.

  6. Faz anos que eu não pulo (nem sambo, nem saracoteio, nem mesmo marcho com os dedos pra cima) carnaval. Mas ainda tenho vontade de ir conhecer o carnaval de Olinda, que talvez seja o único que ainda guarde um pouquinho do encanto do carnaval tradicional, que não volta mais.

    A propósito, a versão de sílabas trocadas de Chiquita Bacana do seu pai não seria: “Chicana Baquita lá da Marticana, se nana (em vez de se nica) com uma veste de banica na casca”.? Ou aquele “nica” viria da Martinica em vez do “nana” da banana???

    • O carnaval de Olinda e Recife devem ser ótimos, mas só de pensar euzinha naqueles becos com aquele mundaréu de gente… Tenho claustrofobia televisiva só de ver o povo saindo no Galo da Madrugada, e se uma lente de contato cair no chão, cumé que eu faço? 😀

      O ‘nica’ vem da Martinica, aparentemente. Nunca parei pra fazer as contas de onde foi parar qual sílaba, só aprendi a letra direto, kkkk… Acho que essa era uma versão do pessoal da ‘rádia’ PRK30, que fazia umas coisas hilárias em priscas eras.

  7. Na infância, eu morava numa minúscula cidade do interior do Espírito Santo.
    Lembro de uma única vez mamãe ter nos levado a um matinê, e também que a gente ia para a rua, à noite, ver os blocos e o desfile das duas “escolas de samba” que se exibiam no sábado.
    Tinha também uma tradicional e curiosíssima partida de futebol disputada por dois times de gays montados (era uma coisa realmente hilária, eu tinha primos que jogavam). A cidade ficava bem cheia, e era uma alegria, mas isso tudo foi até 93.
    Depois disso, já adolescente, as pessoas passaram a trocar os blocos e o Futgay pela praia (a 50km dali, bem pertinho) e a gente, que não tinha grana, ficava em casa vendo a Mangueira entrar (rs).
    Para este feriado, já estou escolhendo os filmes e abastecendo o armário para o combo pizza & vinho, que durará pelo menos até terça-feira.

    • Esse combo pizza/vinho é das grandes opções momescas, provavelmente vou entrar nesse bloco também! E ver a Mangueira entrar é sempre um bom programa… 😛

      No interior ainda existe, acho, um carnaval divertido, se bem que atualmente o pessoal tem abusado e boa parte da graça está se perdendo. Meu irmão uma vez saiu num bloco com os amigos no interior de MG e, porque era durante a Guerra do Golfo em 1991, e o bloco era um monte de homens feios vestidos de mulher (acho que nunca vou entender essa fixação masculina por se travestir de mulher, mas vá lá…), o nome era OS CANHÕES DE SADDAM. Eu achei a ideia o máximo… 😀

  8. Então, minhas experiências momescas se resumem a dois anos pulando carnaval no interior e em consequência duas gastroenterites. Porque criança não para de pular para tomar liquido, certo? Antes dos 10 anos de idade meu espírito carnavalesco já estava falecido. E vou dizer uma coisa, não fez falta nenhuma, mas que de vez em quando fico como o Murilo, dá vontade de ver um carnaval em Olinda. Frevo parece que “ferve” a gente por dentro, é uma delícia, dá vontade de sair pulando. Bom mesmo seria saber dançar, mas aí já é pedir muito.

    Neste ano, se Deus quiser, não vou ver os desfiles. Como tenho feito nas últimas décadas. Tradição tem que ser mantida. Acho lindíssimo o trabalho dos carnavalescos, mas dá para ler na Caras na próxima vez que for cortar cabelo. Sem ter que encarar aquela multidão ensandecida, todos se multiprocessando em público. Dá não.

    • Olha, eu também amo frevo, mas pra encarar um eu iria precisar de um par de joelhos novos, porque se eu abaixar com ou sem sombrinha, eu empaco lá embaixo e tenho que ser içada por guindaste… tô carecendo de umas aulinhas de pilates! 🙂

      O problema dos carnavalescos é que é tudo lindo e igual, a gente nunca sabe qual alegoria é de qual escola, nem se é do desfile deste ano ou do ano passado. De multidão eu também tou correndo, imagina então você, que me diz que tem algumas boas restrições ao cerumano…
      bjk

  9. Lendo seu post me recordei de quão diferente era o carnaval de minha infância. Entrudo, melhor dizendo. Lembro particularmente do Entrudo no Cadraço, uma aldeia bem pequena, em plena Serra do Caramulo, em que a tradição mandava que os moços em idade casadoira se vestissem de forma a não serem reconhecidos e saissem pela rua assustando e brincando com todo o mundo. Assustavam, claro está, as moças em idade igualmente casadoira. Depois bebia-se vinho com açúcar (!) e todo o mundo saía na rua sujando os outros com cinza preta das lareiras e fogões…
    Tudo isso se perdeu, e é deprimente ver como o carnaval em Portugal se tornou uma cópia barata do Carioca…

    • Pedro,
      os carnavais no interior de Minas também tinham muitas brincadeiras, muitos blocos, tudo era divertidamente inocente… Acho essas tentativas toscas de cópia o fim da dinastia. Primeiro porque, né, não tem como copiar um carnaval como o do Rio. Segundo porque não tem a menor graça. O que eu gosto no pernambucano é que ele faz a festa dele do jeito que ele quer, quem quiser que vá atrás!
      Como dizia o meu tio, ‘eu até vou. Mas com os que ficam’!!! 🙂
      bjk

  10. A nossa trajetória carnavalesca é muito parecida, Mônica. E hoje em dia, tenho feito a mesma opção que você. Fico em casa de molho, leio, pinto, durmo e vou ao cinema. Adoro BH no carnaval! Fica como eu gostaria que ficasse mais vezes no ano: silenciosa, sem filas, sem barulho de trânsito, sem atropelos. Como não gosto mais de carnaval, também não curto as músicas carnavalescas, os trios elétricos que invadem as cidades do interior de Minas e as cidades praianas. Sendo assim, me retiro pro aconchego de MY OWN HOME! Nada melhor. Recarrego as baterias pra enfrentar o ano de trabalho a sério que realmente, só começa depois do carnaval. Quem sabe a gente se encontra para um cineminha? Bj

    • Ei Rosana,
      realmente esse é o programa, né? O que eu mais gosto é não ter hora marcada pra fazer as coisas. Você lembra bem como é a doidolândia de professor, o dia da gente é dividido em horas/aula, não pode atrasar, tem que dar tempo de fazer X coisas em sala… Quando chega o feriado, a gente quer fazer tudo a seu tempo. BH fica com um trânsito dos deuses, é possível ir a um bar sem precisar usar o serviço de manobrista, nada de barulho! Vira uma cidade do interior, enquanto o interior fica aquele caos. Pois é, quem sabe a gente não se esbarra por aí?
      bjk

  11. Oi Monica
    Moro numa cidadezinha do interior alagoano e realmente odeio o caos que isso aqui fica no carnaval. É gente de todo canto do estado vindo beber até entrar em coma e pra dançar o rebolation… Deusa! E minha casa ainda é no centro, com a festa toda nos fundos! É música de qualidade bem duvidosa que começa na quinta de noite e só para na outra quinta…
    E os doces carnavais da infância e a atual mesmice das escolas de samba da tv são coisas insuperáveis.

  12. Nossa, Pryscilla, deve ser irritante, hein? Morar num lugar tranquilo e de repente essa bagunça toda, ninguém merece… Não é que não seja legal ter carnaval, alegria, gente feliz e tudo o mais, né, é que isso tudo invade o sossego da gente na maior falta de cerimônia, você é obrigada a participar por tabela… Pelo menos aqui em BH o sossego é total, ou quase: acho que a prefeitura daqui devia assumir que a cidade é uma negação pra essa festa e montar uma programação especial e alternativa pra quem ODEIA a confusão de carnaval e quer ficar longe do agito. Deve ter muita gente por esse brasilsão doida pra fugir do caos e que viria pra estes lados de bom grado…

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