Nossas Carolinas

Uma das músicas do Chico Buarque que eu mais gosto – desde sempre – é Carolina. Quando era pequena eu morria de pena da moça toda vez que ouvia, uma moça tão tristinha, coitada, tão alheia a tudo, nostálgica, o moço lá, mesmo com voz triste tentando de todo jeito animá-la, olha a festa, o samba, a rosa, a estrela, e ela nada. Muitos e muitos anos depois li um trabalho de análise das letras do Chico, e quem escreveu encontrou um monte de outras referências que jamais tinham passado pela minha cabeça, o amor consumado, sexo, apatia política, nem sei se o Chico estava pensando nessas coisas todas quando compôs, mas vá lá.

Mas eu sei porque eu gosto tanto dessa música até hoje, e sempre gosto um tiquinho mais. É que eu acho que todos nós temos uma Carolina guardadinha dentro da gente. Às vezes ela está lá no cantinho, lá no fundo mesmo, e uma hora assim, sem mais nem menos, os olhos fundos e a tanta dor, a dor de todo esse mundo de repente vêm à tona, pode ter sido por causa daquela coisinha à toa, talvez o que era pra ser dito e não foi, o que não era pra ser feito mas foi, ou a constatação de que o tempo já passou e a gente não viu, não viu a rosa, nem a estrela, perdeu a festa porque tinha os olhos tristes e, olha só, era hora de aproveitar mas agora o barco partiu e babau – ou pelo menos é assim que a gente se sente. Como quem partiu ou morreu, emendaria o Chico na Roda Viva. A Carolina pode ficar assim, não vendo as coisas todas por um tempão, ou só por um tempinho, às vezes vem alguém de fora pra tentar nos animar, outras vezes aparece o moço que mora dentro da gente pra nos mostrar ‘ói’ que lindo, que nem ele tentou fazer com a Carolina, é hora de aproveitar, olha a rosa, a estrela, a festa, e aí a Carolina volta lá pro seu cantinho, mas nunca vai embora de vez.  Passado o furacão, o coração enfim se aquieta e a gente pode de novo chegar na janela. Pra ver a banda passar cantando coisas de amor.

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17 respostas em “Nossas Carolinas

  1. Eta texto bão sô! Pra mim, na minha modesta interpretação, Carolina sempre teve esse gosto de alguém que não viu o amor passar, ou porque tomou como certo ou porque não soube retribuir, e quando deu conta, o barco tinha partido. Acontece. O tempo passa na janela (aliás, voa) e às vezes não é só a Carolina que não vê que está deixando passar uma oportunidade única.
    Tá vendo, isso explica o complexo do ‘coelho da Alice’! Acorda Carolina!
    Bjs,
    Ana

    • É um tanto de coisas que a gente deixa passar batido, né Ana… Quando acorda, vê que a vida foi mais ou menos como aquele menino malandro, nada de aprender, só mesmo passando de ano… 🙂
      Mas viver como o coelho branco também deve ser barra!
      bjk

      • Ei Moniquete!

        Não resisti…

        Meu nome veio desta música mas porque a turma (meus pais) acharam o nome bonito – Graças a Deus que foi por isso pois acho tão nostálgico (apesar de cosiderá-lo bonito)!!!

        Por isso mesmo faço questão de evitar o “e se…” na minha vida e me arrepender de não ter vivido alguma coisa…

        A questão é que sempre se faz coisa demais sem terminar, do tipo: aquele regime, aquela ginástica… mas tudo é uma questão de prioridades, não é mesmo?

        Saudades de falar com você (êta prima bacana e divertida!)

        Bjocas

        Carol

      • Ah, é barra mesmo! Mas ‘coelho’ ou ‘carolina’, acredito que já vem escrito no código genético, não tem escolha não. Daí que ‘coelho’ não pode ver ‘carolina’, dá uma irritação… salvarguarda pra música, tristinha mas bonitinha.
        Bjs,
        Ana

  2. eu estou de birra hoje do Chico, por conta da irmã dela e do blog da Bethania.
    Quanto será que o MinC me paga para um blog só com fotos fofas da Erica, hein?!

    • Uai, só porque ele é irmão? 🙂
      Birra da Ana de Hollanda eu já tou faz tempo, desde que ela mandou tirar a licença Creative Commons do blog do MinC.
      Alguém precisa avisar pro pessoal do ministério que os blogs do Blogger e do WordPress são ‘de gratis’… Agora imagina, 1,3M pra fazer um blog! Enquanto isso, os bobalhões do BBB11 saem no tapa e pagam o maior mico por causa de míseros 200 mil a mais.

  3. Monica
    Uffa!… “grazadeus’ outro assunto.
    Olha menina… (todos lemos), leio bastante, especialmente crônicas, mas esta… foi exceleeente! Nada para prosseguir, SÓ… SENTIR!!!
    Obrigada, muito mesmo!
    (Já tive uma dessa da foto, sem pintura, mas presenteeei.)
    Kiss, bye!

  4. Mô,

    Espantei de vez a minha “Carolina” quando fui para Brasília, começar uma nova vida. Não dava mais para ver a vida passar, eu já quase a tinha perdido no começo dos anos 90…

    Lindo texto!

    Beijos,
    Vanessa.

    • É mesmo, Adriana, mas ela me soa como uma inocência com uma pontinha de melancolia e umas pinceladas de nostalgia… Talvez essa esperança de mudança venha do reconhecimento da situação, do se perguntar ‘mas vai ficar nisso, esperando as coisas acontecerem sozinhas?’
      Que bom que lá se foi o medinho inicial. Tudo que é novo, mesmo quando nem é tão novo assim, nos dá aquela sensação meio esquisita, mas ao mesmo tempo instigante, de sair da zona de conforto, né? E isso pode ser muito bom! Com certeza o melhor ainda está por vir!
      bjk

  5. Acho graça a essa mania que a gente tem de descobrir ou inventar grandes significados escondidos em obras de arte. Nada de mal, cada obra vale pelo significado que cada um vê nela, e não tem que único. Mas pode ser também uma obra simples, sem outros significado senão o explícito, sem outra intenção que não a que encerra sua simplicidade.
    Carolina é simplesmente um tema genial, notavelmente belo do Chico, como belo é seu post. Parabéns por ele, Mônica.

    • Uma vez perguntaram pra Laurie Anderson o que ela queria dizer com a música ‘O Superman’, tinha gente fazendo altas análises psicanalíticas e semióticas, daquelas bem obscuras mesmo. Ela respondeu: ‘Ah, a música? É sobre um personagem de história em quadrinhos…’ 🙂
      Algumas análises são bem interessantes, mas tem hora que o pessoal exagera e começa a confundir Pires de Oliveira com pratinho de azeitona.
      Simplicidade às vezes é mais complicado de achar…
      Obrigada, Pedro!
      bjk

  6. Ótimo texto, Monica. Chico é uma fonte inesgotável. Agora, a mocinha na janela da foto não está nos dias Carolina, não, está mais pra Januária na janela.
    bj

    • Minino, sabe que foi exatamente na Januária que eu pensei, toda sonhadora? (minha mãe sempre cantava essa música) É que não achei uma com cara de Carolina pra ilustrar, hehehe…
      Chico realmente é tudo de bom. Quando a gente acha que o texto é aquela coisinha simples, olha lá o detalhe importante que muda tudo!
      ‘brigada!
      bjk

  7. Ei Carol!
    Carolina é um nome muito bonito, eu adoro! É também o nome da minha primeira boneca – ela veio com o nome bordado no vestido… Tenho ela até hoje!
    Pois é, não dá pra ficar esperando muito as coisas acontecerem, né? Você tem razão, a gente tem o péssimo hábito de deixar as coisas pela metade. Algumas até que merecem, mas muitas são por negligência nossa mesmo!
    Uai, sumiço é uma coisa, hein, dos dois lados! Apareça pra um cafezinho, já que a gente não tem mais os encontros semanais…
    bjk

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