Memória convenientemente seletiva


A memória do cerumano é mesmo uma coisa prodigiosa, meus amiguinhos. Para nossa imensa sorte, passados os anos, nossa tendência é nos lembrarmos dos ‘bons velhos tempos’ assim como eram, bons e velhos. A bagunça que a gente fazia com os colegas na hora do recreio, mas não aquelas provas apavorantes e a recuperação em matemática. O primeiro porre homérico com a galera, mas não a ressaca no dia seguinte enquanto sua mãe te fazia limpar o banheiro – vaso sanitário, paredes e sim! até mesmo teto incluído. Aquela garota /gatinho que te deu mole na festa, mas não os incontáveis foras que levou na frente de todo mundo. Ir pra casa das amigas pra se arrumar pra sair, mas não aqueles cabelos horrendos e as roupas com ombreiras. E, no entanto, estava tudo lá, a gente é que não faz muita questão de lembrar, a não ser nas sessões ‘jovem também tem saudade’ com os amigos, quando o cool e a dor suprema ficaram pra trás e só resta mesmo o bom e velho senso do ridículo em estado puro.

Então eu acho no mínimo muito engraçado quando o pessoal que já teve a sua chance de ser ridículo e sem-noção na própria juventude resolve encher o saco e criticar a moçada de hoje justamente por ser ridícula e sem-noção. Sim, essa história de dizer que ‘bom mesmo era no meu tempo, viu!’ deve ser da época do Jardim do Éden (bom mesmo era no Paraíso, todo mundo peladão e a Eva não torrava o cartão de crédito do Adão com uma folha de parreira nova a cada estação). Mas faz aí uma faxina na sua memória, vai, abre aquelas gavetas do fundo, aquelas caixinhas que estão acumulando poeira, e você vai ver que por mais que as coisas sejam diferentes, elas ainda são como sempre foram.

Sim, Rebecca Black, a nova sensação da música internacional (quase 30 milhões de acessos no YouTube), zilhões de downloads no iTunes, tem uma vozinha realmente de doer. A música Friday (‘yesterday was Thursday, today is Friday, tomorrow is Saturday and Sunday comes afterwards’) pode até me ajudar a ensinar os dias da semana pros alunos mas, convenhamos, como letra é um horror. Mas quer outra letra sofrível, aliada a uma voz ruinzinha de doer e um modelito de chorar? Que tal Madonna em Lucky Star? Claro que Madonna virou superstar, mas sua atitude fez sucesso bem antes de suas habilidades como cantora e dançarina. Rebecca tem 13 anos. Canta para meninas e meninos de 13 anos ou menos. E o que você ouvia quando tinha 13 anos? Eu ouvia muito Cat Stevens. Simon & Garfunkel. Rick Wakeman. Led Zeppelin. Mozart. Clube da Esquina. Jazz. E… ahamm… bem… também ouvia isto. E isto. Observe os vídeos. Prestenção nas letras. A complexidade musical, a sofisticação dos arranjos, a qualidade visual. Onde é que estavam? Agora me diga que Rebecca Black é pior do que isso (e, sim, essas músicas foram grandes hits de 1976). Olha, de jeito nenhum. Ela é o que o mercado musical quer que seja sucesso nas próximas duas semanas, junto com Restart, Fiuk e Jonas Brothers. Provavelmente meus pais rolavam no chão do quarto de tanto rir com a nossa bobeira na década de 70/80 mas, né, eles me deixaram acreditar por um tempo que tudo aquilo era o suprassumo da quintessência.

Concordo, muito do que está aí é de qualidade duvidosa e provavelmente não vai muito adiante não, se bem que o cerumano tá sempre me surpreendendo – para o bem e para o mal. É cultura com mais sabor de nada do que um Big Mac. Ainda prefiro ouvir a menina do que aguentar o berreiro de um funk, mas isso já é gosto meu. O andar dos anos me faz olhar pra boa parte disso tudo com uma certa peninha (é o fim da dinastia ver essas bandas se arrebentando de ganhar dinheiro enquanto gente como Sharon Jones teve que passar anos trabalhando como carcereira numa prisão porque não conseguia sobreviver como cantora – os donos de gravadoras podem ser muito ruins de serviço com uma frequência assustadora). É, tem muita gente de talento que não consegue uma boquinha como a da Rebecca Black. Mas, peraê, isso não é culpa de uma garota que está lá, fazendo jus a seus 13 bem vividos aninhos, preocupada com as provas, as amigas, o cabelo e as festinhas na sexta-feira. Ela ainda tem muito tempo.

Quer dar uma mãozinha, já que a indústria fonográfica parece acreditar que nosso ouvido é penico? Mostre pra meninada que existe Rebecca, Justin Bieber e Hannah Montana, mas também chorinho, música clássica, caipira, jazz, rock, mpb, soul, samba e sim, axé, sertaneja, pagode. E, bem, funk. Gente, eu sou uma sobrevivente de Tina Charles e Andrea True Connection. Rebecca Black é fichinha perto disso.

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23 respostas em “Memória convenientemente seletiva

  1. Monica, respeito sua opinião, mas não lembro de ter ouvido coisinha mais nojenta nos últimos anos que essa Rebecca. Acho até que vou procurar uma clínica pra desentoxicar meu cérebro. Ou quem sabe a PNL meu ajude…

    • Teles, ela é muito ruinzinha sim, demais da conta, não é à toa que a voz dela está toda remixada pra fazer desaparecer as prováveis muitas imperfeições. Só acho que ela é tão ruinzinha quanto as muitas outras coisas ruinzinhas que tenho visto ao longo de algumas décadas, e que agora os críticos convenientemente esquecem, pra achar que Rebecca é que é o problema. E muita porcaria que já foi gravada e exibida nesse mundão de modêus veio de gente com bem mais do que 13 anos.
      Seria muito legal se as pessoas com real talento fossem a regra no sucesso, e isso não acontecer é uma pena.
      O que eu tento fazer é mostrar pras meninas que existe gente fazendo trabalhos incríveis e de excelente qualidade (e até isso vai um pouco do gosto de cada um, claro) por aí. Mas eu ouvi muita porcaria, li muita porcaria, assisti a muita porcaria na minha adolescência. O que me ajudou foi o fato de não ter sido SÓ porcaria, né… 🙂

  2. A internet é um bênção, no sentido de permitir que as pessoas conheçam coisas novas e não vivam refém apenas do que a mídia (rádio/TV) oferece. Se houvesse mais consumo de música boa, mais músicos bons seriam valorizados. Mas muitos poucos se dão a esse trabalho, o que é uma pena.

    • Concordo demais, Teles, muita coisa muuuuito boa aparece na internet todos os dias, um pessoal que nem saberíamos que existe, se não fosse pelo meio virtual. Tem muito lixo também, claro, mas é bacana ver como as coisas geniais chegam rapidinho pra gente. Se fosse em outros tempos, nunca teríamos nem sombra de notícia…

  3. Mônica, boa tarde.
    Este nosso querido e maltratado terceiro planeta dá muitas voltas, mas passa sempre no mesmo lugar. Assim, as coisas são, sim, como sempre foram, apenas com uma nova camadinha de verniz.
    Neste texto, você expressou muito bem aquilo que sempre pensei. Tendemos a manter vivas as boas lembranças, e passar rapidamente a borracha nas experiências ruins.
    Sou, assim como você, um legítimo sobrevivente da era “disco”. Eu sonhava em ir a NY para conhecer o Studio 54. Cresci também ouvindo rock, pois alguns amigos tinham grandes coleções de vinis, e sempre me emprestavam suas “raridades” para que eu pudese gravar nas fitas cassete.
    Nossa memória é seletiva, mas felizmente nossos ouvidos também podem, e devem, ser seletivos.
    Beijão, e boa semana! Até de repente!

    • Ei GeGe!
      Pois é, como podemos criticar os Justin Biebers da vida, quando tivemos Village People? 🙂 E olha que eles até hoje enchem qualquer pista de dança… Minha sobrinha quase morreu de rir quando mostramos pra ela o verdaderio ABBA, e não aquela versão de Mamma Mia do cinema! Quer dizer, eram ótimos, eram bons musicalmente, mas a parte do ridículo a gente nem sonhava na época!
      E, claro, a gente ouvia muito rock bom, mas tinha muita porcaria também. Grazadeus a gente deletou e agora pode dizer ‘música boa era a da minha época!’. Provavelmente o que Salieri disse ao ouvir aquele moço chamado Amadeus: ‘Too many notes’… 🙂
      bjk

  4. É verdade, nossos ouvidos, assim como nossa memória, têm que ser cada vez mais seletivos, porque à medida que o tempo passa, a razão porcaria/música boa só tende a aumentar.
    Nos anos 80, eu já tinha que fazer um certo esforço para ignorar tudo o que a MTV dizia que era boa música e ir beber nas fontes de décadas passadas. Mas, pelo menos, ainda conseguia fazer a “Lucky Star” da Madonna conviver pacificamente com Beatles e disco music na minha coleção de vinil.
    Agora, com o atual nível de bombardeamento de porcaria (sim, a internet tem seu lado nefasto) fica cada vez mais difícil separar o joio do trigo, a ponto do trigo sumir em meio ao joio. No fundo, sinto pena dos jovens e adolescentes dos dias de hoje, que são vítimas ignorantes de mediocridade 24 horas/dia.

    • É deveras, o excesso de oferta e a rapidez com que o ‘next big name’ aparece e desaparece é quase assustador. Mas cabe um pouco a nós mesmos sair mostrando pra meninada o que de legal havia ‘no nosso tempo’, né? As meninas curtem bons rocks, pops, mpbs, ainda engatinham no clássico, mas tem tempo, tem tempo… E eu vou ouvindo o que elas ouvem e filtrando o que gosto e o que não gosto, sem automaticamente considerar tudo lixo. Tem espaço pra todo mundo. Pois não é que Ivete é ótima na hora da faxina do banheiro e Justin Bieber dá o maior ritmo à caminhada? 😀

  5. na última vez que fui ao Brasil, levei um iPod para minha sobrinha de 13 anos. Adorou, encantada, mas… não tinha nenhuma música nele! Ela iria ter que esperar uma eternidade (quase 3 dias!!!) até voltar para a casa dela e poder sincronizar com o próprio computador, baixar os CDs que tinha, essas coisas.
    A saída foi baixar o que havia no meu laptop, mesmo, música de velho.
    E, de repente, uma menina encantada com Premê, Blitz, a fase inicial dos Paralamas e, benzodeus, Nina Simone, Joss Stone e Ray Charles.
    Acho que isso conta na hora que São Pedro estiver revendo minha ficha para entrar no céu, não?!

  6. Concorto total com você, Monica. Sou adepto da teoria dos 10%, que diz que de tudo que se faz (qualquer coisa produzida por cerumano) só presta no máximo 10%. E daí que o tempo passa e a gente só lembra dos 10%. Mas um pequeno esforço e encontramos todo o lixo que a memória felizmente despejou pra fora do cérebro.
    Já dizia alguém (Millor?) que o problema das novas gerações é que não pertencemos a ela.
    bj

    • 10%? Tudo isso? 😀
      Adorei a frase – do Millôr ou de quem quer que tenha sido. É isso mesmo, e tem gente que não só não pertence a ela, mas ainda fica colocando defeito…
      E ainda bem que a gente só consegue lembrar de uns pedacinhos melhores, já imaginou se a cabeça guardasse absolutamente tudo? Deus me livre!
      bjk

  7. Ah, tá, cumcerteza! Nos setentas eu já ouvia os progressivos, Wakeman, Pink Floyd, ELP, Triumvirat, mas ouvia mpb (Chico e Raul, principalmente), e cometia alguns pecados com Alice Cooper, Black Sabath e etc. Ansim, tinha também o Beethoven… o Wagner veio mais tarde, demorei a conhecer o Anel, mas quando conheci fui a fundo, virei as 4 óperas de cabeça para baixo, li tudo que tinha sobre elas, e tenho quase tudo do bruxo alemão em dvd…

    Mas, tenho que confessar uma coisa… gosto disso aqui (http://www.youtube.com/watch?v=qrO4YZeyl0I) também. (Quantas ave-marias e pais-nossos?)

    ieu.

    • Ah, quem nunca curtiu uma Lady Gaga que atire a primeira pedra!!! 🙂
      É isso, a gente tenta equilibrar, né? Até Alice Cooper e Black Sabbath tiveram seus momentos, tem é que saber garimpar no meio da discografia toda. Nossa, eu tenho várias coisas do Triumvirat, já cheguei a arriscar (mal e porcamente, admito) um trecho do solo de piano de ‘A day in a life’, do Old Loves Die Hard…

      Wagner eu custei a esmiuçar, gosto muito mais hoje, mas ainda acho meio pesadão. Dito isso, o Coro dos Peregrinos, de Tannhäuser, é das coisas mais lindas já compostas EVER.

      E Premê e Língua de Trapo são das melhores coisas já feitas na música brasileira. Humor inteligente é outra história!
      bjk

  8. Oi, Monica
    Bela análise! Me fez lembrar de que eu, aos oito, nove anos, ouvia coisas como http://www.youtube.com/watch?v=y9ClcCmK82k&feature=fvst
    A patroa aqui em casa tava reclamando outro dia do Restart que minha filha mais velha ouve, ouve, ouve, ouve, ouve, ouve… e não para de ouvir. Aí mostrei pra filhota um vídeo dos Menudos, que a patroa amava antes de me conhecer… E foi a vez da filhota tirar sarro da mãe. (Pois entre um e outro, acho que o Restart pelo menos toca alguma coisa.)
    Como dizem os Stones, “I sit and watch the children play… doing things I used to do, they think are new.”

    • Daniel, tou miacabando de rir aqui com esse clipe, olha que exemplo perfeito! Vai me dizer que isso não faz parte dos 90% que o Wagner mencionou ali nos comentários, né? Pois é, sobrevivemos a tudo isso, com um outro arranhão no ego mas, de resto, sem maiores traumas.
      Uai, pois a banda não chama Restart? Então tem que ficar ouvindo e ouvindo e reouvindo, né… E é isso mesmo, os Menudos também eram de lascar, mas arrancavam suspiros e gritinhos generalizados.
      Meu tio dizia que adorava o John Travolta nos Embalos de Sábado à Noite, porque gostava de ver bobo ao natural…
      O problema, como eu disse pro Teles lá em cima, não é a meninada ouvir Restart, mas é ouvir SÓ Restart. De resto, aprendi com a sobrinha a dançar o Hoedown Throwdown da Hannah Montana (acha que é fácil? Sprimenta procevê…)

      e acho o Justin Bieber super fofo cantando “Baby… baby… baby…” 😉

  9. Se eu disser que sabia dançar as musiquinhas do Menudo e que chorava com Bon Jovi, alguém aqui vai minternar?
    Eu adoooooro relembrar essas coisas e rio muito da minha adolescência. Hoje, toda essa baboseira e imposição midiática é a versão moderna do que vivi. E adoro relembrá-lo e me lembro com todo o carinho do mundo, sem vergonha alguma de assumir meu lado brega, ridículo e miqueiro!!! E sabe o que eu acho? Curto muito essa onda de Hannah Montana, Restart, Justin Bieber… porque acredito que faça parte de todo cerumano viver essa experiência que é DELICIOSA!!!

    • Karine, é isso aí! Vergonha nenhuma dos micos passados! Aliás, nem dos do presente também, uai… 🙂
      Eu não sou da geração dos Menudos, já estava meio grandinha pra eles, mas achava o máximo o entusiasmo da meninada. E cantavam bonitinho! A gente precisa dessas coisas todas na bagagem da memória, né? Lembrar disso depois é uma delícia!
      bjk

  10. Mônica, realmente bem parecido o conteúdo do seu post com o meu!
    Mas em todo caso, acho que o problema principal, principalmente das músicas, é que elas são feitas com o intuito de vender, hoje em dia, e antes era mais uma das maneiras mais significantes de se expressar, e pra mim, ai consiste o problema.
    A necessidade de compra e venda corroi os valores que as pessoas costumavam ter.

    • Realmente, essas imposições de mercado também me irritam bastante. Talvez o problema não esteja tanto na produção em si – tem muuuuita gente boa fazendo coisas excelentes hoje também – mas no fato de que parece haver agora bem mais joio do que trigo e ficou bem mais difícil garimpar o que realmente vale a pena.
      Mas um pouco dessa ideia de vender sempre existiu, e algumas obras hoje consideradas ‘de arte’ começaram na base do ‘me dá um dinheiro aí’: Dickens publicava seus livros em forma de capítulos no jornal, Van Gogh passou o maior aperto porque não conseguiu vender seus quadros em vida, Shakespeare escrevia peças para as massas (na virada do séc. 17 ele era popular, depois é que descobriram a genialidade dele…), Mozart compunha sob encomenda, e por aí vai… 🙂

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