Corrida contra o relógio

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Eu me considero uma pessoa otimista. Pelo menos razoavelmente otimista. Gosto de achar que as coisas vão dar certo e que as pessoas vão dar conta do recado ao invés de enfiar os pés pelas mãos e pagar um mico de proporções hecatômbicas. Mas a turma encarregada de organizar a Copa do Mundo de 2014 não está me ajudando nem um pouquinho a manter vivo esse meu lado Pollyanna.

Em agosto de 2008 a gente estava em Londres. Ainda faltavam quatro anos para os Jogos Olímpicos de 2012, portanto. E a cidade estava um caos. As ruas da região da City, centro financeiro da capital, estavam esburacadas, enormes crateras mesmo, cortesia do departamento de gás e energia, que trocava toda a tubulação por outra mais moderna. Várias estações de metrô estavam em reforma, então a gente tinha que consultar o site para saber quando e a que horas elas estariam fechadas ou liberadas. Trilhos e trens novinhos, novas escadas rolantes e sistemas de informação, reforma no visual. Nas ruas, vários prédios estavam cobertos com tela porque estavam sendo restaurados e nos jornais o pessoal já chiava feio, reclamando do preço da construção de novos estádios e arenas (que já estava acontecendo, diga-se de passagem). E isso foi o que deu pra gente ficar sabendo em quatro dias por lá.

Ok, alguém vai dizer, mas isso é pra um evento em um único lugar, o mundo inteiro vai desembarcar em Londres no ano que vem, não é como a Copa, aqui cada capital vai receber um naco do número total de visitantes. Sim, mas essa também é uma cidade que já possui amplo sistema de transporte urbano, cinco aeroportos, boa infraestrutura turística, num país menor do que o estado do Paraná. Quer dizer, se não tiverem um quarto pra mim no centro da cidade, dá pra me hospedar até em Oxford e pegar um trem, que eu chego ao evento em uma hora. E nem por isso o pessoal estava fazendo corpo mole nas obras.

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E aqui? Aqui o nosso Ministro dos Esportes diz que está tudo sob controle, mas está ficando cada vez mais difícil acreditar. Acho que ele ainda não parou pra fazer as contas na ponta do lápis, sabe, faltam 2 anos, gente, não 3. Três é para a Copa de 2014, mas tudo tem que estar pronto pra ser testado um ano antes, na Copa das Confederações. Levo a maior fé na engenharia nacional, mas levantar um estádio em dois anos (alô São Paulo! alô Natal!), olha, tenho cá minhas dúvidas se eu vou querer me arriscar a entrar num lugar desses pra assistir até a torneio de futebol de botão.

E tem a infra, gente, esse horror que a gente conhece tão bem. Os aeroportos estão entupidos, daqui a pouco não vai mais ter como pousar avião; vai ver estão pensando em investir em paraquedas e mandar os passageiros pularem quando chegarem na cidade que eles querem. A alternativa não existe, né, ou as estradas vão de repente ficar milagrosamente boas e seguras? Transporte urbano, pelo visto, também não vai dar nem pro começo: dona Dilma esteve aqui na segunda-feira e a sua rápida passagem pelo centro da cidade causou um congestionamento monstro. Quer mais? Olha, a lista é longa: acomodação, serviços, restaurantes, transporte público, segurança, energia (alô blecautes!), apoio ao turista, sinalização, é coisa pra dedéu. Cada cidade tem um pouquinho de cada coisa, mas está tudo engatinhando ainda.

É claro que tem aquela velha questão, o que é feito com antecedência perde a chance de ser superfaturado ou aprovado sem licitação, e a gente sabe como tem gente por aí apegada aos dez, quinze por cento por fora, não perde o mau hábito de jeito nenhum. Quer dizer, vai ficar pronto a tempo? Vai sim, pois não foi a mesma coisa no Pan no Rio? Na base do improviso, na base dos gastos astronômicos, mas vai, e os organizadores ainda vão posar de bacanas e dona Globo ainda vai dizer que isso sim é que é espetáculo. É, mas o que eu quero saber mesmo é ‘who’s going to pay the duck’ – quem é que vai pagar o pato.

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18 respostas em “Corrida contra o relógio

  1. Sério. Eu quero é saber o que vai servir como “herança” da copa depois que ela acabar. Pq, pelo que eu sei, a vila do Pan foi interditada, né? E Copa serve pra impulsionar a infraestrutura do país…

    Exemplo básico: metrô de Salvador está sendo “construído” há mais de 10 anos. Sabe qtos km de trilhos? SEIS! Pra ligar nada a lugar nenhum. E já foi gasto o equivalente para construir 40 km.
    Salvador não tem leito suficiente nem para o carnaval, imagina pra Copa. Vai todo mundo acampar na prai e acordar sem a barraca, claro.

    Ai, ai…

    • Em Salvador ainda dá pra acampar na praia, e aqui? Já existem vários projetos de hotéis, o grande problema é o que vai acontecer com eles depois, vão ficar ociosos? BH não tem a tradição turística de Salvador ou Rio e, embora exista demanda, não existem espaços suficientes para feiras e congressos.
      E nem me fale do metrô, que do lado de cá TODOS CHORA! 😛
      bjk

  2. Amo o nosso país e o defendo até a morte. Quero voltar ao Brasil assim que defender a tese doutoral!
    Mas, confesso e assumo, que sinto uma vergonha tremenda da má vontade dos nossos governantes, do jeitinho brasileiro, do interesse pessoal, dos 15% de propina, do superfaturamento, dos hospitais, da educação pública básica… Me dá tanta vergonha…

    • O mais incrível é que a gente continua amando e defendendo, né? Meu pai dizia que “todo país tem o político que merece, mas o ……. (insira o da sua preferência!) já é exagero!”
      Mas acho que a gente também tem que dar uma melhorada na hora de escolher quem a gente coloca no poder, né…
      bjk

  3. Eu estou descrente quanto à realização da Copa e das Olimpíadas. Além disso, as obras do Pan viraram sucata e não dá pra aproveitar quase nada pras Olimpiadas. Eu realmente acho que o nosso país não é sério.

    • A gente já viu o filme, né Adrina? Até tentamos ser otimistas e pensar ‘ah, dessa vez vai ser diferente’, mas realmente as chances não são lá muito boas. Fizeram o auê todo no Pan, dizendo que foi tudo um sucesso, anos depois está tudo jogado às traças. Credo.

  4. o que me assusta na copa do mundo não é a infraestrutura precária (essa já é uma realidade diária pra nós, só vai ser novidade para os turistas alemães, franceses, etc).

    pra mim o pior vai ser aturar o clima que vai ser criado durante o evento, com a multiplicação de galvões buenos em todos os rádios e tvs, os torcedores imbecis de sempre infernizando a cidade, quem sabe dando uns tirinhos ou porretadas em algum argentino desavisado, as cidades todas pintadas de verde amarelo concorrendo a prêmios de melhor decoração, pagodes carnavalescos em cada esquina, enfim, o cenário que prevejo é um pouquinho melhor que o japão de hoje, talvez da líbia.

    daí porque acho que a (falta de) infraestrutura dá pra tirar de letra.

    • Ai, Wagner, eu também tenho horror a esse clima de ‘bem, amigos da Rede Globo’. Acho um saco, o fim da dinastia essa torcida besta só porque tem que torcer e ponto final. Eu até entro razoavelmente no clima, a meninada se entusiasma, é legal reunir a turma, mas a falta de noção que costuma imperar nesses momentos é assustadora.
      É issaí, vai ter gente pegando ônibus (mais) lotado e esperando duas horas pra comer um almoço frio, achando que tá tudo lindo e mágico.

  5. Monica
    Concordo com os questionamentos acima!
    Ainda ontem, disse aqui:
    “Êta Brasilsão maravilhoso! (olhando deste lado…)”, e é, mas acrescento hoje… o lado da arte em geral, como ex.: música, dança, teatro, etc. Porque depende da cabeça pensante de quem sabe no coração e na alma o significado de “viver”, de quem tem sensibilidade e deixa transbordar para que o outro também usufrua deste trabalho que é dividir sentimentos. Esbanjar a vida é coisa que nem todos entendem!!! Para muitos significa esbanjar dinheiro, melhor ainda… desperdiçar!
    Aí a gente vê um outro Brasil: o dos cálculos – o quanto vai sobrar prá mim? – cuidado na divisão aí, mô irmão!
    Como diz você, e corroboro, mas na hora da urna as pessoas esquecem.
    Lembrar que o período de “eleição”, deve-se ler: “carnaval”. Adrina vc tem razão com seu pensamento ‘a la Charles Degaulle’. Resumindo: a essência do nosso país, tudo que ele tem de bom, depende do que ‘algumas pessoas’ produzem. Porque do ponto de vista corporativo e político, melhor nem comentar! O corporativo só se engaja se houver isenção no fisco, por consciência… sei não!
    Abraços.

  6. Monica
    E bota promissor nisto! Só depende dos neuroniozinhos (aqueles que vc deu uns nomes engraçados!?), não custam nenhum incentivo financeiro! que beleza! e fazem tantas coisas boas!!!
    Mas não sou contra a diversidade de assuntos, não!!!
    Eles devem ser uma constante! temos mais é que debater…
    Bj

  7. Eu acredito mais na capacidade japonesa de fazer as coisas se arrumarem do que o brasil se preparar para um evento desses. Pra você ter uma idéia, em 3 semanas todas as rodovias já foram arrumadas. O único problema, o maior de todos, é com o sistema nuclear. Ele envolve custos e benefícios muito maiores. E eles estão , no limite da segurança tentando fazer a coisa funcionar direito. Não vão conseguir e terão que fechar a usina, mas outro povo não lutaria nem metade. Por muito menos os russos mataram 15 mil operários sem tentarem nada. E no brasil, o caixa 2 empaca a coisa toda. O risco é que a pecepção lá fora faça com que os turistas mudem de rumo e deixem o chiqueiro de lado. Aí nós iremos pagar duas vezees. Coisas normal ….

    • Pois é, uma amiga que mora em Tóquio contou que uma rodovia importante para a conexão entre cidades foi consertada durante o fim de semana. Na segunda os carros já circulavam por ela normalmente.
      Já pensou se os turistas derem pra trás? Aí é que nós estamos perdidos mesmo, com os gastos e sem entrar nem sombra de dindin… E com essas histórias de caixa 2 (e 3… 4…), realmente a coisa fica feia pro nosso lado.

    • Que horror, né? E uma cidade bonita e porta de entrada para outras atrações. Quem passa por uma dessas não quer repetir a dose de jeito nenhum. Melhor mesmo esperar até tudo ficar arrumado. Espero que dê tempo até 2014…
      bjk

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