Intervalo de tempo igual a zero

Meu tio comentava outro dia: saudade do tempo em que as calculadoras eram manuais, para adicionar e subtrair era preciso ficar girando uma manivela pra cima ou pra baixo sem parar, dava tempo de conversar no telefone, tomar um café, lixar as unhas, enquanto isso o cálculo continuava lá, firme. Agora você digita os números que quer, aperta o enter e acabou, já pode ir pra próxima conta, pode ser daquelas cabeludas, cheias de números e pontos e vírgulas, nada é páreo para o processador. Tem calculadora no computador, no celular, na régua, no chaveiro do carro, antigamente elas tinham lugar privilegiado em cima da mesa do escritório e não era pra qualquer um mexer não.

Hoje somos escravos do intervalo de tempo igual a zero. Quanto tempo você aguenta esperar até que apareça a área de trabalho no seu computador? Em quantos segundos aquele programa precisa carregar antes que você esbraveje que seu PC está parecendo uma carroça? Antes a gente ligava o computador e pra rodar o programa que estava numa fita cassete era uma eternidade. Dava pra tomar um bom banho, lavar a louça e passar um café. E você esperava, né? Pacientemente, dez, quinze minutos. Nos tempos da internet discada, eu tinha até calafrios quando via que alguém tinha me enviado um arquivo de fotos com uns 3 mega. Como assim? Tá achando que eu tenho o dia todo pra baixar tudo isso? Hoje as empresas anunciam conexão que permite o download de filmes inteiros em minutos. Mas eu ia baixando as fotos, enquanto isso lia outros e-mails, organizava as pastas, apontava o lápis.

Ah, filmes. A gente terminava de assistir no videocassete e tinha que rebobinar, caso contrário era multa na locadora. Enquanto isso, dava tempo de colocar as almofadas do sofá de volta no lugar, levar os copos pra cozinha, passar uma vassoura pra tirar os restos de pipoca no tapete. Só tinha que tomar cuidado pra não esquecer o aparelho ligado e o vídeo lá dentro e devolver só a caixa.

Carro, lembra? Minha mãe colocava o carro pra esquentar de manhã, enquanto a gente terminava de se arrumar pra ir pra escola. Nem passava pela cabeça sair com o carro frio, chacoalhando pela rua. Era legal, dava pra bater um papo enquanto calçava o tênis, escolher a música, brigar pra ver quem ia no banco da frente, tudo isso dava pra fazer enquanto o motor ia pegando o jeito.

Agora, se tudo não for em tempo real, nada feito. Alguém já apertou o botão do elevador mas você aperta de novo e até uma terceira vez, pra ver se anda mais rápido, talvez? Tem só um carrinho de supermercado na sua frente e você já faz cara de impaciência, por que não abrem mais caixas? Não podemos perder nem um minuto, mas o curioso é que antes também dava tempo de fazer tudo, não dava? A gente só se programava e pronto. E daí ia preenchendo o tempo com outras coisas, fácil, fácil.

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20 respostas em “Intervalo de tempo igual a zero

  1. E o orelhão com ficha? No condomínio onde eu morava no Rio, havia um e sempre uma fila enorme com ele. E todos pacientemente esperavam a sua vez. Ninguém fazia cara feia, ninguém beijava santo… Lembro-me que as pessoas sentavam-se na calçada, no meio fio, para esperar. Sem problemas. Telefone era coisa de rico. E hoje com essa de celular tudo é mais prático, mais histérico e mais nervoso!

    • Nossa, acredita que outro dia encontrei uma ficha de telefone numa gaveta lá em casa? Acho que nem sei mais usar orelhão! 🙂 E a gente esperava, né, o da frente com aquele monte de fichas na mão…
      bjk

  2. Eu tenho pensado em coisas desse tipo também, Mônica. Um exemplo é o tal do celular. Antes ele não existia, e os recados eram dados, as amizades existiam, tudo acontecia como tinha que acontecer. Hoje fica todo mundo louco com esse troço na mão o dia todo; ninguém mais consegue almoçar sem o celular em cima da mesa, já reparou? Outro dia eu e o Sr. Consorte fomos jantar num restaurante pequeno, romântico, luz de velas… e telefones tocando loucamente. Olha, se eu não posso ter 1 hora de paz para jantar com tranquilidade, essa vida não me pertence não.

    • O celular facilita a vida, né Adrina, mas realmente o pessoal virou escravo. Eu não atendo se estiver num almoço fora (a não ser que já esteja esperando uma ligação de emergência), não atendo quando estou dirigindo, no cinema, na igreja, no teatro, sei lá, qualquer lugar assim. Tem gente que quase me bate, ‘por que é que você não atendeeeeeu?’, ninguém tem paciência de esperar, já começa a pensar milhares de bobagens. Num restaurante assim, então, é mesmo o fim da dinastia.
      bjk

  3. Monica
    Muito bom e pertinente o tema, para todos!
    Outro dia conversando com um amigo, comentei que o tempo que antes era NOSSO ALIADO (pois tudo fazíamos com prazer e perfeição), além de podermos dar atenção aos que nos cercam; hoje o tempo é NOSSO INIMIGO!
    Ou…… será o contrário? Adrina bem falou: a sensação é de que “essa vida não me pertence não”.
    Que coisa esta! da Síndrome do Coelho?
    Quem lê a obra deste ‘maraaavilhoso mineiro’ que é Rubem Alves, entenderá o que é viver na verdadeira acepção da palavra, uma pedagogia da educação do olhar e do sentir,
    se não soubermos e usarmos o verbo FRUIR, que danado estamos fazendo aqui? Claro temos nossas agendas, nossas rotinas, mas não deixemos que a tecnologia que seria obviamente, para que nosso tempo sobrasse, para um”jantar romântico”, “uma leitura”, “curtir música”,” fazer uma visita”, “uma pq viagem” – o quêeee!? – “meu nome é trabalho!!!”
    Monica, peço-lhe permissão para colocar aqui um vídeo educativo e relaxante, uma lição de vida, oferecida por Rubem Alves

    Exerçamos este hábito do “apreciar”, do “degustar”. Se o mundo continuar assim, não está valendo esta evolução “mecânica”, ela, sem a evolução do “ser”, não tem utilidade alguma! Beijos.

    • E o curioso é que as pessoas gostam de dizer que estão atarefadíssimas, que respondem a 4 telefonemas ao mesmo tempo, como se isso fosse uma vantagem enorme! 🙂
      Eu sou fãzona da tecnologia e ‘me apego’ a todas essas modernidades, mas grazadeus ainda me considero senhora do meu tempo e não me escravizo. Desligo, vou pro mato, esqueço de carregar a bateria, deixo em casa, sento pra ler, pra conversar, pra tomar um vinho e ver o mundo passar na minha frente. A gente pode até viver na doidolândia, mas não pode é deixar a doidolândia viver na gente…
      Vou assistir ao vídeo mais tarde, tem que ser lá no YouTube, não abre aqui no blog, snif snif…
      abraço!

  4. Li o post agora e vi que depois vou ler os comentários, parece que tem muita coisa interessante. Eu nem lembrava mais disso de rebobinar o filme…

    Quando mais inovacões aparecem que poderiam nos proporcionar mais tempo, parece que menos tempo temos.

    Beijo

    • Não é uma loucura? A gente economiza tempo, mas aí arruma mais coisa pra fazer com ele. E passa a encarar qualquer espera, por menor que seja, um martírio…
      bjk

  5. Monica
    Verdade, precisamos nos dar conta disto
    “encarar qualquer espera, por menor que seja, um martírio…”
    “ainda me considero senhora do meu tempo e não me escravizo.”
    Meu caminho é por aí, lógico que a tecnologia é boa, mas o mais da vida também!
    Bj.

  6. Monica isso faz lembrar o Coelho de Alice no país das maravilhas, sempre apressado, parece histeria coletiva, é contagioso, mesmo não estando com pressa acabamos fazendo tudo rápido e querendo as coisas pra ontem isso por ver todos fazendo, acabamos por imitar, tento me controlar mas tem horas que me vejo apressado, correndo contra o relógio e pra que?na verdade sem motivo, simplesmente por costume, aí freio e começo a fazer as coisas com calma pra que pressa, vou viver muito tempo vou ter de sobra, assim espero, abraço e bom fim de semana.

    • Eu às vezes vejo isso na hora do almoço no fim de semana. De segunda a sexta a gente costuma comer mais rápido, já pensando no monte de coisas pra fazer depois, chega o sábado e a gente vai no mesmo embalo, ao invés de pegar leve e desacelerar…
      abraço!

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