O casarão

foto: Angel Pri

A primeira vez em que li num jornal que a igreja tal tinha sido tombada, fiquei horrorizada com a notícia: é que na minha cabeça (e acho que na cabeça de muita gente também), ‘tombar’ soava muito mais como derrubar do que preservar. Mas as línguas às vezes não parecem fazer muito sentido mesmo, então aos poucos a gente se acostuma com a palavra e pronto, pára de questionar e passa a usá-la como se nunca tivesse tido qualquer dúvida. Há muitos anos, a casa dos meus bisavós foi tombada e, dessa vez, já sabendo o que isso significava, fiquei muito feliz. Não são muitas as construções que conseguem sobreviver à especulação imobiliária e à mentalidade daqueles que acham que tem mais é que sair derrubando tudo em nome de avenidas mais largas e edifícios mais modernos (convenhamos, às vezes não dá mesmo pra competir com os atropelos da modernidade e o que é antigo vira apenas uma foto de recordação). Mas o casarão está lá, elegante como era na época de meus bisavós, carregando consigo um pedaço de história que é minha também.

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12 respostas em “O casarão

  1. Oi, Monica!

    Este seu espanto aconteceu, também, comigo. E a notícia era de que a casa do poeta Guilherme de Almeida havia sido tombada.
    Eu que gosto dos poetas acreditava – e até hoje acredito e defendo! – que as casas dos poetas deveriam sempre estar disposta aos futuros (possíveis) leitores.
    Bom que foi apenas mais um destes episódios referentes às idiossincrasias da língua.
    Onde fica a casa de seus bisavós?
    Um abraço.
    Leda

    • Ei Leda,
      pois é, eu era criança e achava um absurdo esse negócio de sair derrubando casas antigas e igrejas! 🙂 Só depois é que fiquei sabendo o que significava de verdade. A casa dos meus bisavós fica em Araçuaí (MG). Hoje é a sede da Secretaria Municipal de Educação.
      abraço!

  2. Ei Mônica,
    a palavra tombamento refere-se à Torre do Tombo que fica em Portugal e é onde eram guardados os documentos referentes aos bens protegidos. Atualmente sedia um dos arquivos do país. O desconhecimento não é só sobre a origem da palavra, mas também sobre o instrumento jurídico, visto apenas como prejudicial ao proprietáio. Que bom saber que a sua família entende a importância de ter um bem tombado, ele guarda a história não só de uma família, mas às vezes de uma cidade, estado, país ou de toda a humanidade.
    Beijo,
    Cléo

    • Oi Cléo,
      que bacana, não sabia da origem da palavra, obrigada! É, eu sei de alguns casos em que o tombamento acabou complicando bastante a vida dos proprietários. Às vezes eu vejo construções sem qualquer valor sendo protegidas e, enquanto isso, outras realmente importantes são detonadas sem qualquer critério (a não ser o dos tostões, naturalmente!). Realmente, algumas dessas casas guardam uma história que vai bem além da nossa própria, e isso é muito legal.
      bjk

  3. Mônica, boa tarde.
    Infelizmente, o patrimônio histórico de muitas cidades vem sucumbindo à fúria da especulação imobiliária.
    Venho assistindo a isso em várias cidades onde morei.
    Um exemplo é o de Araraquara, SP, que tinha um dos teatros mais bonitos do interior do estado. Nele, na década de 60, foi realizada uma paletra de Jean Paul Sartre (sim, ele mesmo).
    Foi demolido, para que fosse construída a nova prefeitura da cidade, um prédio de nove andares, parecido com duas caixas de fósforo, uma em cima da outra.
    Sobraram apenas fotos, além das lembranças do pessoal mais antigo da cidade.
    Muito triste para mim, e para muitos outros que, como eu, apreciamos coisinhas básicas como a cultura, tão maltratada na Banânia.

    • GeGe, um dos casos mais horrorosos aqui em BH foi o do cine Metrópole, no centro da cidade, uma beleza de edifício art déco, pé-direito altíssimo, enorme, uma beleza. Virou o quê? O prédio do Bradesco. Isso foi na virada dos anos 70 pros 80, maior dó. A gente sabe que não dá pra preservar tudo, mas trocar por caixas de fósforo, né, é o fim da dinastia. Bom gosto e bom senso não costumam mesmo vir de fábrica, é acessório caríssimo em alguns ceresumanos…

  4. Monica
    Ótima crônica, abordagem completa – Nem me fale! quando observo arquivos de fotos belíssimas, nelas pessoas com trajes magníficos (desconfortáveis, mas que imprimiram o garbo da época), e meios de transportes interessantes, alguns até curiosos; igrejas e pórticos, semelhantes aos da Europa, claro! foram construídos por franceses, holandeses em sua maioria, depois os portugueses. Os desenhos de Rugendas, Debret, de épocas colonizadoras, imperiais!
    Levavam, mas deixavam muito também!
    Na história mais recente do nosso país, especificamente em Recife, dói de sangrar o coração, de perceber o que foi perdidido e nada se recuperará!!! em nome da especulação imobiliária também… pois aqui tínhamos (e eram muitos) belos casarões com imeeensos jardins! arquitetura de pujança! Belos chalés, ‘ainda vi com estes olhos, que a terra há de comer’, quando criança, tudo me encantava. Não descarto a simplicidade de beleza e conforto, mas me dá nos nervos esta descivilização, falta de critérios e respeito!!! Bom, tirando os ‘numirrita’. Vamos ao melhor.

    Fico contente por você, pelo seu legado, boas marcas ficam desse zelo e reconhecimento. “A gente leva da vida”. Graças a Deus que ainda existem administrações com ‘gentes’ lúcidas!
    Parabéns e grande abraço!!!

    • A gente sabe que não dá pra preservar tudo, né, os tempos mudam, algumas construções nem são mais adequadas em termos de segurança, algumas nem têm todo esse valor histórico. Chato é que o critério é o da grana – banco pode derrubar teatro, seu Zé das Couves não pode mexer na casinha dele porque é ‘tombada’. Eu te confesso que nem sei como foi o processo do tombamento do casarão, quem foram os responsáveis na família, etc., mas fiquei feliz com o resultado! 🙂
      abraço

  5. Ai que inveja de vc!!! Um casarão, sempre quis ter um só pra mim. Mas, pra preservar mesmo. Já vi tantos “tombarem”, que meu coração ficava em pedacinhos.
    Pelo menos, esse está a salvo.
    Bjs!

    • Está sim, Eve, grazadeus. Porque a gente sabe que qualquer meio século o pessoal já fica achando que tá na hora de jogar no chão e construir por cima…
      bjk

  6. GeGe,
    lamento pelo Teatro que carregou consigo a atmosfera de importantes eventos, ficam as lembranças, mas a barbárie não cala!
    E vc Monica,
    lamento pelo Cine Metrópole. Aqui também tem dessas, viu? mas à duras penas está se mantendo o Cine São Luiz, com mezanino, é a sensação de esplendor e não aquela arquitetura repetida! se bem que entro neste padrão, mas arte é inigualável, como não tenho permissão para foto segue um endereço com um detalhe interior:
    http://www.overmundo.com.br/overblog/cine-sao-luiz-sera-reaberto
    Ele está no centro da cidade, o que atualmente não é bom, à noite o centro fica com pouco movimento e as pessoas procuram polos culturais, mais “na moda” sabe?

    Tá bem, caminhemos na torcida pela conservação de nosso patrimônio!!!

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