O bullying do Requião

É mais ou menos como virose, né? Pediatra, quando não sabe o que a criança tem, diz que ‘não é nada não, é só uma virose.’ Depois que a gente cresce, o médico olha os exames, diz que tá tudo bem e que o que você está sentindo não é nada não, você está é estressado. Quer dizer, coitado do vírus e do estresse, foram rebaixados na escala de importância, jogados pra escanteio, esnobados e desprezados com um mero ‘não é nada não’, desses que fazem a gente suspirar aliviado e deixar pra lá, uma hora melhora.

Pois estou começando a achar que bullying vai pelo mesmo caminho. Bullying agora explica tudo – mau comportamento, briga de vizinhos, nota baixa na escola, grosseria, falta de noção. Não demora nada e as pessoas vão achar que, no fundo, isso é mais ou menos como ‘bulir’ com o outro, aquela bobagem inconsequente que no passado rendia no máximo uns bons tabefes entre os envolvidos ou uma semana de castigo ao chegar em casa.

Pois se depender do senador Roberto Requião, já-já o bullying vai bombar no Congresso. Periga virar figurinha fácil nas CPIs (“Sim, Senhor Relator, eu desviei os 5 bilhões de dólares, mas é que eu sofri bullying quando estava no jardim de infância”), incrementar bate-bocas no plenário (“Sua Excelência só está dizendo isso porque sabe que eu fui vítima de bullying na adolescência!”) e engrossar a lista de ‘feitos’ durante as campanhas eleitorais (‘ex-vereador, ex-motorista, ex-vítima de bullying no campinho de futebol da rua’). Espera só pra você ver.

O senador argumentou que arrancou o gravador das mãos do jornalista porque estava sendo vítima de bullying naquele momento. Quer dizer, um jornalista apertar nas perguntas agora é agressão, tá? (já requisitar uma aposentadoria de 24 mil, além do salário básico de quase 27 mil como parlamentar, porque tá pendurado na padaria e no açougue, tá valendo; realmente, senador, não tá fácil pra ninguém…) Então agora você já sabe: da próxima vez que a patroa te encostar no canto com o tradicional “onde é que você estava até essa hora e que cheiro de perfume é esse?”, quando o professor ameaçar te dar zero na prova porque você estava colando, quando o chefe vier te perguntar quem é o idiota responsável por aquele relatório, siga o exemplo do Requião e contra-ataque: é bullying! Depois é só fazer cara feia, prender a respiração e sair da sala pisando duro. Vai que cola…

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13 respostas em “O bullying do Requião

  1. Ao ver na TV a empáfia deste filho sem pai, arrogante, rufião, turrão, boquirroto e petulante, pensei que era delírio meu.

    Não.

    Este delírio tem nome: Brasil!

    Vai que cola, né Mônica…

    Beijim

  2. O REQUIÃO DEU FOI SORTE DO MUNDO TER MUDADO. SE ELE TOMASSE O GRAVADOR DO EX-DEPUTADO CACIQUE JURUNA ( 1 KILO E MEIO, LEMBRA…) O JURUNA DAVA COM O TACAPE NELE. AÍ SIM…O REQUIÃO IA FICAR BULYNIZADO PELO RESTO DA VIDA.

  3. O pior não é a desculpa estapafúrdia (adoro essa palavra XD) do Senador. É que com isso, o bullying acaba não sendo levado a sério.
    Se todo mundo sofre bullying, ele não pode ser uma coisa tão ruim assim né? A maioria das pessoas nem lembra direito na semana seguinte…

    • Concordo com você 100%. Vira lugar-comum, né? Se é explicação pra tudo, então não explica nada. E uma coisa tão séria como bullying acaba virando brincadeira, ou pior, algo a ser desprezado. Além do mais, né, acreditar que o Requião sofreu algum tipo de bullying é forçar a amizade até o último grau!

  4. Mônica,

    É isso aí! Bullying agora explica o mundo! Ou não, né?
    Como em outras épocas era a TPM que justificava todo tipo de arbitrariedades que algumas donas de casa costumavam fazer com marido e filhos…. Não é que a TPM não exista, existe e muito chata, posso dizer que cadeira!
    Se esse fato tivesse ocorrido com uma mulher, a Senadora Kátia Abreu, por exemplo, ela poderia dar essa desculpa – estava em crise de TPM!!!
    Mas o Senador Requião não podia lançar mão desse argumento, né??? Iria pegar muito mal… 🙂
    O mundo hoje precisa de urbanidade – palavra que conheci ao estudar Direito Administrativo. Precisa de polidez, ou no mínimo de muita paciência…

    É isso!

    See you! Kisses,
    Vanessa.

    • Issaí, baby! Bullying is the new TPM!!! 😀
      Uma vez perguntaram pra Fernanda Montenegro numa entrevista o que ela achava que estava faltando no mundo. A resposta dela foi perfeita: delicadeza.
      Besitos!

  5. Nossa! A resposta é ótima mesmo! Mas precisamos “comer muito feijão” para chegarmos lá. Falta primeiro a educação, a tolerância, a paciência, ihhhh… é muito chão até chegarmos no “tempo da Delicadeza” – como diria o Chico!

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