O que incomoda

Osama bin Laden não morreu, ele foi capturado por soldados americanos e levado para um local desconhecido. Osama bin Laden morreu após uma intensa troca de tiros com soldados da elite da marinha norte americana. Não, ele foi morto por um guarda-costas, que não queria que ele fosse pego. Não houve tiroteio, ele foi executado no primeiro andar. No terceiro andar. Ele estava armado. Desarmado. Seu corpo foi ‘enterrado no mar’, como disseram alguns jornalistas (e eu fiquei imaginando os coitados dos mergulhadores tirando a areia do fundo do mar com uma pá pra abrir a sepultura). Seu corpo foi levado para Washington. Não. Ele morreu há dez anos e os Estados Unidos esconderam o fato do mundo inteiro para que um dia pudessem usar esse trunfo como quisessem (e quem andava aparecendo nos vídeos devia ser o sêo Zé da Silva bin Laden, clone genérico do terrorista saudita).

Enfim. Nos últimos dias as versões para o que realmente aconteceu naquela casa no Paquistão foram as mais variadas e desencontradas; depois de uma certa hora eu até parei de prestar atenção, a história estava parecendo a boataria que antecede o último capítulo de novela das oito. A morte de bin Laden não me incomoda nem um pouquinho e faço votos que a essa hora Alá esteja dando boas gargalhadas enquanto comenta “mas que história de virgens é essa, tem nada disso não, Ôsa!”. Ela é, como bem colocou o jornalista inglês Robert Fisk, irrelevante nessa altura do campeonato. Osama é um símbolo, claro, mas eliminá-lo hoje é tão eficaz para o fim do terrorismo quanto imaginar que o tal ‘imperialismo americano’ implodiria com a queda das Torres Gêmeas. Muito mais relevante são os movimentos que vêm acontecendo em países como a Tunísia, Egito, Líbia e Síria, isso sim, pode mudar alguma coisa daqui pra frente.

Não me incomoda – pelo menos a princípio – o climão de ‘nóis é nóis, o resto é resto’ da fala de Barack Obama e Hilary Clinton. É meio canseira, ok, mas Alá sabe como o presidente americano estava carecendo de uma bola dentro como essa para dar um upgrade no quesito aprovação popular. Claro que o clima de ‘uhhuuu’ daqui a pouquinho vai passar e aí virá a ressaca, mas enquanto der pra faturar em cima, o governo não vai perder a chance. Até porque eles sabem que matar o sujeito não é garantia de nada, o Dábliubush fez o maior auê com a prisão e morte do Saddam Hussein e depois os republicanos perderam as eleições do mesmo jeito.

Me incomodou um pouco mais ver as imagens da excessiva comemoração e o clima de final de Copa do Mundo nas ruas, principalmente no ‘ground zero’, um lugar do qual eu imaginei que as pessoas fossem se aproximar com uma dose maior de introspecção e respeito. Até que dá pra entender a catarse inicial, aquela sensação de ‘matamos a bruxa malvada do Oeste’, mas Nova York não é Oz e a história ainda parece longe do final feliz dos contos de fadas, então eu achei que o entusiasmo passou da conta.

Agora, o que me incomodou mesmo foi constatar que realmente não precisamos mais gastar tempo, dinheiro e energia mantendo uma corte internacional para julgar crimes contra a humanidade, porque tendência mesmo para esta primavera-verão é entrar no país sem pedir licença, atirar, matar e sumir com o corpo de quem quer que seja (pouco se me dá que seja Madre Teresa ou bin Laden) e sair de lá achando que fez bonito e está tudo bem, porque só assim os cidadãos de bem de Gotham City vão finalmente conseguir dormir em paz, amém. Tudo se justifica com o velho ‘olho por olho’, tudo é perdoado com um ‘mas foi ele quem começou!’, dane-se que existam leis para todos, que existam direitos (sim, meus amiguinhos, mesmo para ceresumanos que passaram para o lado negro da Força), que não estejamos mais na Idade Média. E se você acha que esse foi um caso especial, que foi uma exceção, convém lembrar que exceções não demoram nadinha pra virarem regra, e que assim caberá apenas ao invasor decidir que aquela é uma situação que requer medidas drásticas e pronto, olha ele aí no seu quintal. Um pensamento que eu acho, no mínimo, perturbador.

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12 respostas em “O que incomoda

  1. Não é a primeira vez que os USA desconsideram princípios que eles próprios idealizam.
    De qualquer forma, não quero fazer nenhum maniqueísmo em torno dessa questão; ainda mais aquele do tipo “Americanos malvados, resto do mundo vítima”.
    Confesso que fiquei contente com a morte do Bin Laden, mas teria ficado mais satisfeito se a mesma tivesse ocorrido (e teria, se fosse o caso) após um julgamento.

    Ótimo texto.

    • Concordo, Fernando. Também acho muito perigoso brincar de ‘bandido e mocinho’, quem tá de branco é bonzinho, quem tá de preto é malvado, e aí onde foi parar o cinza, né? E convenhamos, qualquer solução de prisão de um sujeito desses seria um problamão – onde colocar um prisioneiro desse calibre? Que riscos? O que poderia dar errado? Certamente o governo americano não poderia errar esse tiro, era uma bala só. Pra gente ver como o problema todo é cheio de nós. Mas o discurso de democracia e respeito dos EUA continua dúbio como sempre. E se a moda pega, imagina se outros países começarem a achar que também só precisam decidir e entrar assim, sem nem tocar campainha? Sei não… sei não…
      Abraço

  2. Tudo certíssimo Mónica! O que falta aqui é a gente saber que tudo isso aconteceu porque a comunidade internacional deixou. Os países do Ocidente, todos sem excepção, deixaram isso acontecer e chegar ao ponto onde chegou. A infelicidade dessa gente não é ser árabe ou muçulmuna, é ter um país rico em petróleo.
    Com relação ao artigo de Robert Fisk, faz-me lembrar há 20 anos atrás quando cheguei na França, cheia de árabes (os magrebins do norte de áfrica), cheia de descriminação, todos aferroados defensores de que tudo na sua cultura é que estava certo. Os marroquinos tinham estudantes marroquinos a espiarem-se uns aos outros, portanto não podiam falar livremente. Acredito que hoje o que se vive nesses países é uma geração que quer dar um basta a isso, a essa ditadura onde discutir ideias, qualquer que seja, possa ser perigoso. Grazadeus, né?
    Bjs,
    Ana

    • Ana, eu sempre penso nos meus amigos nesses países quando essas coisas acontecem. É bom ver as populações locais mandando um recado tão direto pros seus governantes, mostrando que não estão mais dispostos a esse jogos de interesses, ainda mais quando são as pessoas quem, em última instância, sofrem as consequências das decisões estapafúrdias nas altas esferas. É bom ver que esse discurso extremista encontra cada vez menos ressonância nos países árabes, o pessoal também já deve estar de saco cheio e doido pra viver em paz…
      bjk

  3. só um porém: eu estou chocado com a completa incompetência dos Democratas no quesito “relações públicas”. Essa confusão de informações (ou desinformações” sobre a morte do Bicho Papão, ao invés de trazer benefícios, vai ser mais uma dor de cabeça para o Obama.
    Eles têm tanto que aprender com o Governo Lula, né não? Aqui nos EUA, todo mundo sabe que a economia do Brasil é a melhor do mundo, que há emprego sobrando, que praticamente todos os brasileiros que haviam imigrado para outras partes do mundo já voltaram para aí, que a quantidade de petróleo achada no pré-sal é umas 20 vezes superior a todo o óleo que existe no mundo árabe, que a população está super bem atendida em termos de saúde, educação e segurança e que o carnaval agora dura o ano inteiro e que o Brasil só não foi promovido de vez a “país desenvolvido” por preconceitos políticos da ONU, do Papa e/ou das organizações Disney*.
    Enfim, PR de verdade…

    *eu juro que escutei cada uma dessas frases vindas de diferentes americanos, me questionando por que é que eu não volto para aí…

    • A propaganda é a alma do negócio, Max… E acho que os democratas pisaram na bola sim, esses desencontros e interrogações só servem pra levantar mais suspeitas e, baixada a poeira, vai ter muita gente começando a exigir respostas um pouco mais precisas. Com o Dabliubush isso até demorou (mas bem que o Walter Cronkite avisou numa entrevista muito legal no David Letterman, ‘gente, façam perguntas, do contrário ninguém vai ter dar respostas’), mas uma hora a coias estoura. E como o Barack não anda exatamente na lista VIP do americano médio…

  4. pe esse: acho que os militares tinham mesmo que matar o Osama depois de encontrar o cabra. Seria uma enorme dor de cabeça capturar o cabra e levá-lo a julgamento (quem é que se arrisca a ver a verdade sobre o financiamento da CIA ao grupo dele na guerra AfeganistãoxURSS, ou quem foram os verdadeiros arquitetos do 11 de setembro, ou por que é que levaram 10 anos para achá-lo).
    Mas me causou um profundo desconforto ver o povo comemorando daquele jeito.
    Definitivamente, a humanidade é um projeto beta que não deu certo…

    • Ó, pois foi isso mesmo que eu disse pro Fernando ali em cima, e você ainda tocou numa coisa fundamental: ninguém por aí tá muito disposto a ouvir que Osama recebeu uma mãozinha dos EUA pra preparar a galera pra lutar contra os terríveis inimigos soviéticos. Essa história de ‘criei um monstro’ fica bem melhor no dr. Frankenstein…
      É, a gente é uma versão beta mesmo. A hora que o Programador resolver deletar tudo, nós tamo fu.

  5. Não consigo ter opinião formada sobre o assunto. Já li muitas coisas e excluindo os extremos anti-qualquercoisa, há razões em todos os cantos da discussão.
    Então vou viajar um pouco e lembrar de outra notícia recente, a de que a Apple tem o registro geográfico de todos os movimentos dos donos de iphone, o mesmo valendo para os fabricantes dos iphone-genéricos, ou seja eles sabem onde todos estão ou estiveram em todos os instantes. O que me espantou mais não foi a notícia mas o não-espanto que a notícia causou. Ninguém deu a mínima.
    De algum modo, que não é claro pra mim, as duas coisas (iphone-osama) estão ligadas e apontam para uma mudança na forma como as pessoas atualmente vêem questões como privacidade, ética, etc. Socorro!!!!!!

    Bj,
    Wagner

    • Vixe, Wagner, isso aí dá pano pra manga que é uma beleza! Estamos mesmo em tempos muito estranhos… Não concordei com a forma como os EUA agiram, mas confesso que não consigo pensar em alternativas viáveis que não pudessem dar uma bela %$#*&. No fundo, a gente já sabia que um sujeito desses não seria submetido ao mesmo tipo de julgamento de qualquer outro criminoso, mesmo terrorista.
      Esse caso do iPhone eu achei incrível, e mais interessante ver como a vida da gente é hoje toda monitorada e tudo bem. Acho que a gente se segura na ideia de que, se estão vigiando 6 bilhões, então não estão vigiando ninguém, né?
      Melhor ir pro mato mesmo! Bom descanso!
      bjk

  6. Monka, gostei do “foi ele quem começou”, o tom imperante acaba ficando mesmo por aí. Estou curioso para ver os próximos lances desse super jogo, coisa para especialistas na era da hiperinformação X subcompreensão. Outra coisa: que lindeza está o seu blog, com todas as funcionalidades. Morro de inveja, sinto-me (e sou) um troglodita incompetente.

    • Ô Paulinho, que coisa boa te ver por aqui, já que a gente não se esbarra pela cidade (e olha que são muitas montanhas, mas nem tantas assim pra esse sumiço todo…)!
      Eu sou encasquetada com esse ‘foi ele quem começou’ desde os tempos do Dabliubush, ele com aquela cara de chorão que estava a um passinho de correr pro colo do Bushpai. Agora fiquei com a pulga atrás da orelha com o Barack também, vamos ver se o moço toma tento. Por enquanto estou naquele ‘mixed feelings’, querendo mas não querendo ver o que vai dar essa confusão toda.
      ‘Brigada pela visita, bem que eu queria ter mais tempo pra ‘brincar’ aqui mas, sacumé, o tronco fica à espera da Isaura, tem jeito não! Você tá ali na minha lista, né? Estou sempre lá no seu blog, à procura dos textos deliciosos que você escreve.
      bjk

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