Reencontrando a felicidade

– ‘Essa dor um dia vai passar?’, pergunta Becca.
– ‘Não’, responde a mãe, ‘mas em algum momento ela se torna suportável. Um dia ela vira algo como um tijolo que você carrega no casaco. Às vezes você até se esquece que ele está lá, mas aí põe a mão no bolso e lembra – ah, você está aí…’

Em Reencontrando a Felicidade, Becca (Nicole Kidman) e seu marido Howie (Aaron Eckhart) estão tentando lidar com a morte do filho Danny, de apenas 4 anos. Eles chegaram naquele ponto em que não importa quanto amor exista na relação, tudo que dizem e fazem machuca terrivelmente o outro. Estão procurando uma saída mas, passados oito meses do acidente, tudo ainda é muito difícil para ambos. Não é fácil lidar com perdas. Sobretudo quando é a definitiva. E quando é a morte de uma criança. E quando essa criança é o seu filho. Não existe manual ou fórmula infalível, e as histórias contadas por pessoas que passaram pela mesma situação não ajudam quase nada. Alguns, como Becca, tentam seguir em frente – vender a casa, doar as roupinhas do filho, guardar os desenhos que estavam na porta da geladeira – sabendo que desfazer-se de tudo isso não apaga as lembranças que traz consigo. Outros, como Howie, precisam dessas memórias físicas: o vídeo com o filho brincando, gravado no celular; o cachorro de Danny, o quarto ainda arrumado do menino. Tem gente que busca conforto na religião, como Nat (Dianne Wiest), mãe de Becca, que também perdeu um filho; outras procuram grupos de apoio para poderem compartilhar sua dor. E existem aqueles que não conseguem lidar com nada disso e precisam largar tudo para trás e simplesmente ir embora. Seja como for, cada um deve encontrar seu próprio caminho para sair da ‘toca do coelho’ (a expressão ‘rabbit hole’, que dá título ao filme em inglês, significa uma situação caótica, confusa) e encaixar essa dor em algum lugar, para poder voltar a viver sem destruir tudo e todos no caminho.

Falando assim, dá até pra pensar que o filme é daqueles melodramalhões que fazem a gente chorar baldes. Nada disso. O diretor John Cameron Mitchell deixa que os atores explorem livremente suas emoções e construam (sobretudo Nicole Kidman) personagens aparentemente simples, mas com muitas nuances. O texto original da peça de David Lindsay-Abaire, adaptado pelo próprio autor, é emotivo sem ser piegas e traz uma muito bem vinda dose de humor sutil, importante para de vez em quando dar uma pausa na carga dramática. É um filme simples, com uma história simples e sensível, mas que trata de um tema super difícil de se abordar sem o risco de resvalar em clichês. Você se emociona (vi gente realmente chorando baldes), ri e torce pelo final feliz. Que, nesse caso, como na vida real, pode ser apenas conseguir viver um dia de cada vez, com um cadinho de felicidade em gotas.

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10 respostas em “Reencontrando a felicidade

  1. Eu AMO seus posts. São como presentes no dia de Natal, aquele doce delicioso que temos vontade de comer e chega exatamente naquele momento. Obrigada por compartilhar suas pérolas!

  2. Monique, suas sugestões são sempre ótimas. Vou ver se faço esse Download porque se eu esperar chegar no cinema desse fim de mundo aqui no interiorrr arrisca a Nicole Kidman já ter bisnetos.Gostaria de sua opinião sobre o filme da linda atriz e diretora Dinamarquesa Rie Rasmussen: “Human Zoo”. Eu fiquei impressionado.Abraços…GILSON EDDY VIEIRA

    • Gilson,
      até por aqui o filme está em cartaz em poucos cinemas, o negócio é mesmo apelar para a ‘pirataria para fins pacíficos’, como a gente diz aqui em casa. É um filme muito bacana.
      Nunca vi ‘Human Zoo’… Vai entrar na lista então! Gosto bastante do cinema dinamarquês, depois te conto.

  3. Monica, isto me fez lembrar de um filme que trata do mesmo tema, em parte, por que trata de outras coisas também, como a complicada relação de mãe e filha. É Sonata de Outono, do Bergman, outro grande cineasta, e a interpretação impecável de Liv Ulman, no papel da mãe que perdeu o filho. É um livro belissimo, e não deixa de ser uma estória de amor linda, porque, enquanto a mãe ficou meio anestesiada e incapaz de verdeiramente amar, o marido, demonstra um amor incomensurável por ela, no seu jeito arredio e observador. Vou querer ver este também!

    • É mesmo, Rosana, Sonata de Outono é um ótimo filme, nunca li o livro. A interpretação da Liv Ullman realmente impressiona! Veja Rabbit Hole sim, me impressionou a delicadeza para tratar um assunto tão difícil…
      bjk

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