O delicado da vida

É dessas coisas à toa que a gente inventa, uma bobagem de nada, mas que depois te fazem perguntar ‘e por que a gente não faz isso mais vezes?’. Pois então, taí uma boa pergunta, por que, né? A princípio, o destino final é apenas uma pizzaria, um lugar com ótima comida e boa música, assim quase no meio do mato (pra aproveitar esse friozinho gostoso que finalmente parece ter sentado praça por aqui), mas de repente a vontade mesmo não é de comer pizza, é comer lasanha, e não qualquer uma, mas A lasanha, só que pra isso é preciso desviar do caminho original e rumar pra Ouro Preto, lua cheia começando a minguar, grande e amarelona iluminando bem pouquinho o contorno das montanhas, só mesmo pra gente ver que elas continuam lá, onde sempre estiveram. Ouro Preto é linda a qualquer hora do dia e em qualquer época do ano, mas pra mim a cidade é especialmente encantadora no frio das noites de outono e inverno, quando uma névoa fina cobre as ruas, as casas e as igrejas, embaçando tudo. E por mais tarde que termine o jantar, porque ainda por cima tem que colocar a conversa em dia (só que para os tudistas o assunto não acaba nunca), depois tem sempre uma volta pela cidade, e se você conseguir passar ao largo das inevitáveis festas nas repúblicas de estudantes e do alto da rua do Ouvidor, onde os bares são poucos e pequenos pra tanta gente, vai até acreditar que está de volta a algum momento do século XVIII, vai ouvir o barulho dos cascos dos cavalos no calçamento de pedras antigas, e no canto do olho pode até mesmo surgir uma assombração passando nos fundos das igrejas. Sobe ladeira, desce ladeira, sobe ladeira, desce ladeira (notinha mental: botas de salto fino podem ser um grande risco, sobretudo depois do vinho, mas é que a gente só ia ali pertinho de casa pra comer uma pizza, lembra?), e o frio vai apertando porque, afinal de contas, já passa das duas da manhã. Estrada de volta, a lua nem está mais por ali, e aí eu fico pensando que os maiores prazeres estão mesmo nas pequenas coisinhas, e que às vezes a gente fica procurando demais, esperando demais, adiando demais e acaba, de bobeira, deixando passar despercebido o delicado da vida.

(as fotos são daqui)

12 respostas em “O delicado da vida

  1. ‘cê foi com o Jota?
    Cau’z’diquê quando eu morava aí, a gente fazia muito isso: um olhava para a cara do outro dentro do escritório, 7 da noite, juntava a turma e pegava a estrada.
    E eu sempre com pena dele, dirigindo na volta enquanto o resto do povo dormia no carro…

    • Max,
      the one and only. Quem mais tem pique pra um programa que envolve Ouro Preto, estrada, faróis e jantar? 🙂
      Mas eu volto dormindo não, eu adoro aquela estrada. A gente volta batendo papo e ouvindo música, chega rapidinho.

      Jay, ainda não precisei voltar cantando alto – isso só em situações drásticas – mas depois desse seu comentário ‘quem disse que eu não estava dormindo’, acho que vou rever a minha estratégia da próxima vez… 😛

      • Monica,

        pede ao Jota para te contar, um dia, nossa volta de São Luiz de carro. Faltando uns 200 km para chegar em Brasília, o sono era tão poderoso que eu comecei a falar bobagem para manter a gente acordado, e funcionou. Só que, faltando uns 50 km, a parte elétrica do carro deu pane, e tivemos que andar sem faróis nem nada, só usando a luz da lua…
        História épica!

        Respondendo aqui, que acabou o ‘responder’: então você estava nessa viagem? Ele contou a aventura… Cês dois são doidos! 🙂 Mas depois tudo vira caso, né, a gente esquece o aperto e só se lembra da ‘diversão’…

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