Capa da Época

Houve um tempo – aparentemente há muitos e muitos anos, em um reino muito distante – em que algumas coisas eram respeitadas ‘no matter what’. Padres não revelavam segredos contados em confissão. Jornalistas não revelavam suas fontes. O prontuário médico de um paciente pertencia única e exclusivamente a ele e a seu médico. Nos atuais tempos de Big Brother, das sub-celebridades que escancaram suas vidas e da imprensa buscando desesperadamente o próximo escândalo, a revista Época passou – e muito – da medida. Imagino que editores e repórteres estejam comemorando o horror da reportagem de capa desta semana, e até mesmo creiam estar prestando um serviço de informação inestimável à população. Não me surpreenderia, foi exatamente por causa de capas e histórias como esta que eu parei de ler essas revistas semanais. Não vou nem comentar o tom da reportagem em si ou a capa da edição de 28 de maio (essa aí do lado), mas eu gostaria muito de saber de onde foi que esses jornalistas tiraram que o prontuário médico de um paciente – seja ele a presidentA ou o sêo Zé das Couves – pode e deve ser publicado por aí sem o prévio consentimento das pessoas envolvidas. Sim, a saúde da chefe da nação pode ser, até certo ponto, questão de interesse público. Mas desde quando, em nome do ‘jornalismo’, isso inclui divulgar informações de exames e lista de medicamentos da paciente? Desde quando colocar num mesmo balaio um câncer e um hipotireoidismo, antibióticos fortes e comprimidos de Novalgina, como se tudo tivesse a mesma gravidade ou como se o leitor estivesse cansado de saber a diferença, é informar? Não, não votei na Dilma. Nem tenho especial simpatia pelo PT (ou por qualquer partido atualmente, a bem da verdade). Não estou falando aqui de agendas, linhas editoriais ou teorias da conspiração. Estou falando de uma coisa muito simples e muito básica: o paciente, qualquer paciente, merece respeito. Não sei como a Época teve acesso a esses dados (e, para os jornalistas, claro, preservar a fonte é necessário; já informações como essas, não) mas, neste momento, quem me parece estar doente de verdade, em fase terminal mesmo, é o jornalismo deste país.

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12 respostas em “Capa da Época

  1. Nossa, Mônica.
    Eu não sabia desse detalhe do prontuário. Como você, não leio essas revistas, o sensacionalismo invadiu tudo e hoje em dia a diferença entre um “Notícias Populares” e outras mídias fica só no palavreado MESMO porque acho que ética deixou de existir para alguns. É muito triste isso.

    • Pois é, Mary, acessar informações que são confidenciais entre médico e paciente (tratamento, medicação, exames) é o fim. Esse ‘lado negro da Força’ no jornalismo é péssimo exemplo.

  2. Não li nem me interesso em ler a matéria, e pelo histórico é bem provável que os jornalistas tenham passado do limite em algum ponto.

    Mas o caso da saúde (ou da falta de) da Dilma é do interesse de todos nós, e o escancaramento desse assunto na mídia (que provavelmente só vai aumentar) tem a ver também com a tentativa do governo de esconder o que se passa.

    Qualquer pessoa razoavelmente bem informada sabe desde o ano passado que Dilma não tem saúde muito boa (e saúde pra ser presidente não é pra qualquer um não), e a perspectiva de termos um Temer como presidente é, além de uma possibilidade, uma temeridade (desculpe o trocadilho inevitável).

    Por isso, dentro do limite do respeito e da ética isso é assunto público e deve ser discutido às claras.

    • Sem dúvida, Wagner, o assunto interessa a todos e não questiono de jeito nenhum o direito que os cidadãos têm de saber o que está acontecendo, nem o dever da imprensa de informar. O que me preocupa é a total falta de bom senso e a opção por ‘criar um climão’ e, no final das contas, não explicar nada. Existe um nível de privacidade que, a meu ver, não pode ser violado.
      Outro dia conversava com meu irmão, médico, sobre a informatização do sistema de saúde, prontuários e históricos dos pacientes colocados em rede e tal, tudo para agilizar o sistema de saúde. Beleza. Minha dúvida é como fazer para garantir que esses dados permaneçam confidenciais e não estejam disponíveis, a preços módicos, para planos de saúde, futuros empregadores, cônjuges, etc., tudo sem o consentimento do paciente. É meio 1984 demais pro meu gosto…
      abraço

  3. Mônica,
    parabéns por comentar tão bem algo que não tenho mais paciência nem de ouvir em fila de ônibus ou do banco.
    Assino em baixo.
    Perderam mais uma chance de ficar calados e respeitarem a dignidade humana, para não dizer muita coisa.
    Beijo

    • Stélio,
      eu também evito render esses assuntos porque é muito fácil descambar pra questão política, e aí é cada um puxando brasa pra sua sardinha. Acho que o dever de informar existe, até porque tem coisas que não vão chegar na gente se não fizermos as perguntas certas. O problema é como fazer essas perguntas…
      bjk

  4. Acrescentando mais algumas coisas: Acho que o que choca é o que está nas entrelinhas, ou seja, se a Dilma não está com saúde, será que morre ou não morre?

    Mas o tabu está na morte e não na doença. A doença do José Alencar foi esmiuçada por todos os meios de comunicação, quantas cirurgias, nódulos, sei lá o que mais e ninguém achou nada demais porque ele era tratado como herói da resistência, o que vence o câncer e outras baboseiras. Aí pode falar, ninguém se incomoda, mas falou ou insinuou morte, é um problema.

    Eu não estou defendendo a matéria da Época, que não li, e é claro que esse assunto deve ser tratado com o devido respeito às pessoas envolvidas, mas é assunto público sim, na minha opinião. E, claro, não vai demorar muito, alguém vai vir falar que a matéria é do PIG, da burguesia preconceituosa, golpe dos tucanos, etc

    • Wagner, também acho uma chatice essa história de logo alguém começar a dar um colorido de teoria da conspiração nisso – aliás, essa tem sido a tônica de tudo e qualquer coisa neste país.

      Sim, a doença do José Alencar foi pública, mas essa foi inclusive uma decisão dele, que desde o começo colocou os dados à disposição de quem quisesse saber.

      Concordo 100% com você (e era o que o JA falava) quando diz que a saúde de um chefe de estado é um fato público e ele tem que lidar com isso. É sim. O que me incomodou bastante foi não ver o respeito ao paciente e ao fato de que seu histórico médico é sim algo pessoal. Em tese, se o paciente assim o desejar, o médico não deve discuti-lo nem mesmo com pessoas da família.

      O tom da reportagem, que lista até bicarbonaato de sódio na lista de medicamentos de nomes impronunciáveis, também deixou a desejar. Não acredito que jornalistas experientes não consigam tratar o assunto com a devida seriedade e respeito…

      A possibilidade, por mais remota que seja, de ter um Temer capitaneando a nau é mesmo aterradora. Acho que a imprensa tem o direito – e o dever – de colocar as questões em discussão. Mas, talvez porque eu em geral seja extremamente ‘privada’ com as minhas coisas e respeite a privacidade do outro ‘no matter what’, achei de extremo mau gosto a maneira como uma pergunta importante (como está a saúde da presidentA?) tenha sido tratada.
      abraço e obrigada pelo pingue-pongue! 🙂

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