Sem as frescuras

Eu me apaixonei pelo futebol americano precisamente na noite de 28 de janeiro de 1990. Tinha acabado de chegar de um jantar depois de dia inteiro falando e ouvindo inglês num congresso e liguei a televisão no quarto do hotel em Fortaleza para vegetar e matar um pouco o tempo. O San Francisco 49ers acabava de entrar em campo no Louisiana Superdome de Nova Orleans para vencer o Denver Broncos por um arrasador 55 a 10 na 24a edição do Super Bowl. É verdade que qualquer sentença que inclua as palavras ‘Nova Orleans’ e ‘San Francisco’ vai sempre receber a minha total atenção, mas esse foi um daqueles jogos que, além de sensacional, de quebra me ensinou quase tudo que eu precisava saber naquele momento sobre o esporte. Comemorei a vitória do 49ers como se fosse minha, senti a alegria da galera por levar mais um título nacional a uma cidade que três meses antes havia sido sacudida por um violento terremoto. Pra falar a verdade, quando passei por São Francisco em julho de 1990, ainda tinha um bocado de gente comemorando por aqueles lados.

No dia seguinte, brinquei com alguns amigos americanos, dizendo que o futebol deles deveria se chamar rugby americano, afinal de contas os pés são usados apenas para o deslocamento em campo e a bola, bem, se aquilo oval era uma bola então perumpouquinho que eu vou ligar pro meu professor de matemática e pedir pra ele revisar minha nota de geometria. Os americanos riram mas me olharam com aquela cara de ‘mas do que é que essa mulher tá falando, afinal?!’. Uai, rugby a gente joga com a mão e usa uma bola oval, faz muito mais sentido.
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Ainda levaria cinco anos pra eu me apaixonar pelo rugby, novamente por questões bem pouco relacionadas ao esporte propriamente dito. O mundial de 1995 foi na África do Sul, com Nelson Mandela e tudo o mais, os sulafricanos jogando pela primeira vez em muitos anos por causa do boicote ao apartheid, os neozelandeses do All Blacks fazendo a haka antes do jogo, como não se divertir? A África do Sul venceu o jogo e o campeonato, um marco na história do esporte no país, e eu fiquei achando que o rugby era ainda mais legal do que o futebol americano. Em 99, assisti à final entre Austrália e França em casa com o Cadinho, fanático pelos Wallabies, e foi aí que aprendi boa parte do que precisava saber sobre o esporte. Mais uma vez minha torcida era totalmente tendenciosa, falou a turma de Down Under, tou dentro, e os aussies ‘cocaram’ os franceses por 35 a 12, para minha quase incontida alegria.

O grande barato do rugby, e que os rapazes praticantes fazem questão de salientar, é que isso é esporte pra macho, nada daquelas frescuras de capacete, ombreiras e protetores do futebol americano, o negócio é derrubar na base da porrada mesmo. Não é à toa que você reconhece um jogador de rugby de longe, geralmente pelo nariz quebrado e pela falta de pelo menos dois ou três dentes da frente. É testosterona em estado puro, pessoal. O rugby também é bacana porque não tem aquela coisa enervante do nosso futebol, o caboclo já tá lá na grande área do adversário, ao invés de chutar a gol, o que ele faz? Devolve a bola lá pro meio de campo, como se eu não tivesse mais o que fazer nessa vida do que ficar olhando bola indo e vindo no campo. No rugby não, você pega a bola e desembesta, porque atrás vem uma galera pra te derrubar. Só pode correr pra frente, mas passar a bola é só pro lado ou pra trás. Então é aquela alegria, tipo atacar no montoeiro e defender no bololô. Muito gol é legal e tudo o mais, mas nem precisa, já me dou por satisfeita apreciando a confusão. 

Por aqui rugby nunca deu muito ibope, mas como em setembro tem mundial na Nova Zelândia e o esporte vai entrar nos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio, o pessoal está tentando dar aquele upgrade para torná-lo mais conhecido e ocupar um lugarzinho no coração dos brasileiros. Para isso, a Topper lançou uma campanha super bem humorada, brincando com a falta de tradição mas mostrando que os números são promissores (ah, a deliciosa manipulação das estatísticas!) e que estamos indo muito bem, obrigado, se comparados ao Chile, Argentina e Uruguai. E que, embora os jogadores ainda tenham que recorrer a pequenos truques para um fugaz momento de tietagem, a coisa tem tudo para mudar. Olha, não prometo esse lance de autógrafo, porque não é a minha praia, mas podem contar com a minha torcida entusiasmada.

(o meu obrigada à Titia Batata pelo link que inspirou este post!)
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4 respostas em “Sem as frescuras

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