Dois graus de separação

Quando o físico e sociólogo australiano Duncan Watts escreveu seu best-seller ‘Seis graus de separação: a evolução da ciência de redes em uma era conectada’, ele estava usando aquela conhecida teoria -a de que todo mundo está ligado a todo mundo no planeta por mais ou menos seis graus de separação- para explicar o funcionamento de vários tipos de redes: elétricas, tecnológicas, organizacionais, de informação, sociais. O mundo pode ter ficado bem mais complexo e conectado, principalmente depois que a internet entrou na história, mas no fundo a dinâmica que ainda prevalece é a de que o planeta é mesmo do tamanho de um ovo.

Se Watts andasse por Belo Horizonte, provavelmente reorganizaria um pouco seus cálculos, porque por aqui o negócio está mais pra Dois Graus de Separação. Se eu não te conheço diretamente, não vai demorar nadinha para descobrirmos alguém em comum, ou no máximo um parente ou amigo de alguém que nós dois conhecemos. São quase 2.5 milhões de pessoas no perímetro urbano, mais de 5 milhões se incluirmos a região metropolitana, mas no final das contas o esporte mais comum nesta cidade, quando duas pessoas se conhecem, é descobrir como elas estão conectadas.

Não demora nem dois minutos pra descobrir, viu. Sua irmã foi minha colega de sala, ou nós dois estudamos na mesma escola, só que em classes diferentes. Você conhece o Fulano, melhor amigo do meu irmão, ou a minha prima é namorada do seu melhor amigo e vocês sempre saem juntos. Ou talvez você trabalhe na empresa X, onde trabalha o meu marido, ou o seu marido joga bola às quintas-feiras com o meu vizinho. Talvez os nossos filhos façam natação na mesma escolinha e a gente, na correria, nunca tenha se encontrado. Ou será que a sua mãe e a minha foram grandes amigas na adolescência? Vai ver eu dei aulas para a sua cunhada, ou vai ver nós crescemos no mesmo bairro, você conhece alguém que me conhece ou que conhece alguém da minha família. Não falha nunca. A pergunta ‘O que você é do Fulano?’ é das primeiras que fazemos por aqui, seja por causa da identificação do sobrenome, porque você disse onde mora ou trabalha ou porque, sei lá, tem que existir uma conexão de no máximo dois graus de separação entre nós.

E você pode abandonar Belo Horizonte, não faz diferença, a regra não muda. A Ana estava lá no canto dela em Portugal, chegou aqui no blog de clique em clique, descobrimos que temos amigos em comum e ela estudou francês junto com a minha mãe. Meu pai foi apresentado a um professor no Texas que tinha conhecido meu avô no interior de Minas na década de 40/50. Meu amigo estava num albergue em Munique batendo papo com um carioca, sei lá pra onde foi a conversa mas o moço perguntou se por acaso ele conhecia a Mônica, deu alguns detalhes, meu amigo disse que sim. O carioca é meu primo. O amigo francês de um super amigo meu passou férias no Brasil e a namorada mineira alugou uma casa na praia, cuja dona é americana e trabalhou comigo num projeto na Inglaterra há muitos anos. Sem contar que às vezes eu me pego xeretando a página de Facebook dos amigos e me espanto: mas como é que a Fulana e o Beltrano se conhecem? É porque Belo Horizonte é um ovo de codorna.

Tá, eu sei, claro, que isso não é assim tão generalizável. A gente costuma circular por determinados lugares, tende a conhecer gente de certos grupos e, se pararmos pra pensar, o mesmo deve acontecer com gente em qualquer lugar do mundo. O que é interessante por aqui é a frequência com que identificamos imediatamente uma conexão com alguém aparentemente fora do nosso contato e quão rapidamente fazemos uso dessas perguntas para estabelecermos essas redes. Eu fico imaginando se em outros lugares a coisa funciona do mesmo jeito…

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25 respostas em “Dois graus de separação

  1. Mônica, boa noite.
    Sou obrigado a concordar com você.
    Talvez também tenhamos dois graus de separação.
    Morei em Ipatinga, em 1994, passei um tempo na Usiminas, e trabalhei com um pessoal de BH, e com outros que estudaram em Ouro Preto, na Federal.
    Nem vou entrar em detalhes, mas acho que esse mundo é mesmo muito pequeno.

    • Morou em Ipatinga? Conheço uma arquitecta que trabalhava lá na prefeitura, Ana Maria Nagem, o marido trabalhava na Usiminas (infelizmente já faleceu) e passei lá um carnaval fantástico (nos anos 80, já não consigo me lembrar do ano certo…). Eu estudei Eng Química na Federal em BH, talvez tenhamos uns 2 graus aí de separação…
      Bjs,
      Ana

    • Ih, GeGe, promete ser fácil. Tive vários alunos da Usiminas, alguns amigos que moraram em Ipatinga (uns poucos ainda estão por lá), tio que estudou em Ouro Preto (mas há muitos anos) e o pessoal da UFOP que acaba tendo ligação com o da Engenharia de Minas e da Metalurgia da UFMG, onde meu pai era professor. Dois graus de separação, com certeza! 🙂
      O mundo é uma laranja…

      Ana, Nagem? Conheço uma garota super gente boa, a Mércia Nagem, deve ser parente dela! 🙂

  2. Acho que esse privilégio é pra poucos,viu Monica!
    Eu parei pra pensar e não conheço ninguém dessa forma!
    Acho que aqui no Rio ficamos mais distantes uns dos outros…
    Beijo!

    • Às vezes é hábito, Afrodite, aqui em BH a gente sempre puxa pela memória… E eu tenho parentes e amigos no RJ, se bobear a gente acaba traçando um seis graus de separação entre a gente para além da blogosfera… 🙂
      bjk

  3. acho que o jogo é procurar os próximos dois graus de separação. Por exemplo, nós dois somos amigos do Jota, então tá resolvido. Mas será que não tem outra ligação por aí, não?
    Esse é que pode ser o jogo engraçado…

    • Se espremer um pouquinho, com certeza a gente acha outra conexão. A óbvia é que eu cheguei no seu blog pela indicação do Jota, mas se buscar nomes, lugares, escola, uma bela hora a gente encontra outro link nessa rede!

  4. Só em BH mesmo….mesmo que a gente näo conhece, acaba achando que conhece: alguns anos atrás estava eu no BH shopping e vi uma moca, eu a cumprimentei com abracos, sorrisos, e ela fez o mesmo..parecia que éramos amigas e tinha muito tempo que näo nos víamos. Aí eu perguntei meio sem graca..êêê , mas esqueci seu nome. Ela disse: eu tb esqueci o seu. Hummm, mas de onde a gente se conhece? ela disse: eu näo sei…. e comecamos a tentar rastrear nossa vida, mas näo teve jeito, kkkk, nunca descobri de onde conhecia essa moca! kkkkkk.

  5. Isso também acontece aqui em Brasília… mas com pessoas de qualquer parte do mundo. Seu tio conhece seu amigo da China, o namorado da sua amiga é irmão da ex do seu irmão,fulano é filho daquele cara que visitou aquela mulher num dia… Às vezes você conhece alguém por conexões mais distantes, mas depois você descobre que também conhece por jeitos mais próximos. Sempre acontece de pegar o jornal e na seção das fofocas encontrar alguém que de algum modo você conhece; e você nunca pode negar um convite pra uma festa porque não conhece ninguém, sempre vai ter alguém que você vai conhecer!

    • Laura, isso de encontrar gente conhecido em festa sempre acontece por aqui. Se alguém diz que não tinha ninguém conhecido por lá, certamente entrou no salão mudo e saiu calado. Qualquer cinco minutos de conversa e a gente faz uma conexão. E é mundial mesmo. Um amigo, batendo papo com um casal de brasileiros em Lisboa, descobriu que eles moravam no mesmo prédio da irmã no interior de São Paulo. E a irmã era seu único contato na cidade!

    • Alexandre, em 83 eu já estava na UFMG, mas se a gente esmiuçar essa história, com certeza vai acabar achando alguma coisa. E, claro, tenho amigos em Goiânia, em Brasília… vai que também funciona pra esse lado? 🙂

      • Me lembrou aquele comments engraçadíssimo que vi aqui outro dia, da mulher que está no dentista e reconhece o amigo de escola e termina com ele perguntando “a senhora dava aula de quê”? (até rascunhei uma piadinha nesse sentido, mas não tive coragem…)

    • Sonia, o link dá como blog inexistente, o endereço é esse mesmo? (eu tirei o www, que não costuma fazer parte de endereços de blogs). Eu continuo me comunicando dentro e fora da internet como sempre fiz, na verdade a rede criou mais um espaço pra mim. Mas não dispenso o face-to-face de jeito nenhum… 🙂

    • Uai, por essa foto aí não dá pra reconhecer… 🙂
      Em qual Cultura (Savassi? Pampulha?). Menina, é tanto aluno em todos esses anos, mas deixa eu arriscar um palpite – era você que era fãzona da Tori Amos??? 🙂

      • Nossa, que memória (queixo caiu!). Eu mesma!
        Eu pensei em vc outro dia, aliás, penso toda vez que o marido pronuncia ‘salt’ e eu corrijo ‘sót’, lembro que foi vc que ensinou 🙂
        Bom te reencontrar. Teu blog é ótimo. Vou virar freguesa aqui!

  6. Menina, que coisa boa! E caia mais o queixo, que eu ainda tenho um origami que você me deu de presentinho no final do semestre! Agora tou curiosa pra saber como você veio parar aqui… e como descobriu que eu sou eu! 🙂

  7. Que delícia saber que vc guardou o origami! Origami é um trêm mágico, sô! Sempre me conectando com pessoas queridas!
    Eu te achei por culpa da LuNaomi. Sou leitora do blog dela e pouco tempo atrás virei seguidora do twitter. Um dia ela twittou um post teu e comecei a desconfiar que te conhecesse (ainda mais que BH é um ovo) mas essa tua foto também não ajuda, né? Outro dia ela twittou de novo e eu fui checar o teu twitter. E a tua foto do Twitter é mais reconhecível, hihi. E aqui estou eu. 😉

    • hahaha, é verdade, esta foto aqui é um pouquinho antiga… A do twitter é de pouco tempo atrás, fica mais fácil reconhecer. BH é um ovo mesmo, tou falando… 🙂
      Muito bom que você tenha chegado aqui, ainda mais pelo blog da LuNaomi, que é tudo de bom! Adoro quando as pessoas chegam, sentam praça e mandam comentários! 🙂
      bjk

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