O berreiro do rock and roll

O rock já se esfacelou em incontáveis micro segmentos de gêneros desde que surgiu nos anos 50, mas pra mim o sucesso de um bom roquenrôu ainda pode ser medido, em grande parte, pela potência do berreiro do cantor. Claro, sempre tem aquele solo de guitarra interminável com caretas e contorcionismos no palco e os tradicionais malabarismos do baterista pra dar o arremate, mas nada como um bom agudo com a voz rasgada pra gente poder exclamar ‘ah, issaí é que é roquenrôu!’.

Lá em casa música sempre foi levada muito a sério. Infelizmente, o lado rebelde do rock passou meio por fora na família, primeiro porque minha adolescência, período ideal pra gente sair por aí questionando tudo e todos de maneira contundente, aconteceu mesmo durante a febre da disco music. Convenhamos, rebeldia não combina nadinha com Embalos de Sábado à Noite e meias de lurex, por maior que seja o empenho. Outro problema é que durante muito tempo era meu pai quem levava pra dentro de casa os maiores expoentes do rock mundial – Led Zeppelin, The Doors, Pink Floyd, os Beatles – e minha mãe e sua inabalável paciência aguentava com um sorriso complacente a gente ouvindo um sonzão com o volume no talo. Acredite, qualquer rebeldia tende a ficar seriamente comprometida se sua mãe não reclama porque o som está deixando ela surda, e quando não dá pra falar pro pai da gente que ele não entende nada de música, que bom mesmo é ouvir Satisfaction e quem é esse tal de Lupicínio? Naquela época eu conseguia ser mais alternativa ouvindo Lô Borges num trem azul do que detonando a rainha da Inglaterra com os Sex Pistols.

     

Foram alguns bons berros ao longo dos anos, e já tem um bocado de tempo que nenhum dos mais recentes me deixa muito impressionada. O primeiro grande berrador na minha vida foi, na verdade, uma berradora, e até hoje a voz de Janis nos primeiros acordes de Cry Baby me deixa arrepiada. Fico pensando se depois dela alguma cantora chegou pelo menos perto em termos de qualidade e competência de berreiro mas, olha, francamente não consigo me lembrar de ninguém. Depois dela, mais ou menos na mesma época, vieram Ian Gillan e Robert Plant. Nunca fui muito fã de Deep Purple – meus irmãos tinham alguns bolachões – mas que coisa mais linda como Gillan dava conta de ir de um grave suave ao agudo de trincar copo. Robert Plant, dono de uma cabeleira da melhor qualidade, foi outro que já berrou muito no meu ouvido. Outro dia meu irmão comentava que o grito inicial em Immigrant Song sempre deu o maior medão nele, e dava mesmo – deve ser por isso que a música foi parar na trilha sonora do filme The Girl with the Dragon Tattoo.

Depois deles um berro aqui, outro ali, mas nada que me prendesse muito a atenção. Até que me vi no meio de um mar de headbangers em janeiro de 1985, eu esperando para ver o Queen, eles malucos pelo Iron Maiden. Nem posso afirmar para vocês que o show foi bom, porque só conhecia uma música e olhe lá, e a impressão que eu tive foi que eles tocaram só ela durante as quase duas horas de berreiro sem intervalos comerciais. Como Bruce Dickinson deu conta do recado eu não sei, mas fiquei ainda mais pasma ao ver o moço (já nem tão moço assim) repetir a dose muitos anos mais tarde, em outra edição do Rock in Rio. Pra quem acaba de sair de uma faringite com sequelas até o presente momento, é uma preparação vocal de causar inveja.

Diante da minha relutância em colocar cantores mais novos na lista de bons berradores, sempre aparece um amigo pra argumentar ‘ah, mas tem o fulano, e o beltrano também é ótimo’ e tal, mas ninguém tem me convencido muito – talvez uma ou outra musiquinha com mais sustança, mas no geral eles ficam devendo. Sei lá, ou mudei eu ou mudaram os berradores do roquenrôu.

Anúncios

12 respostas em “O berreiro do rock and roll

  1. Vai ver o bom e velho berro no rock passou a ser “politicamente incorreto”, Monica.
    O que seria um ótimo motivo para ele continuar como nunca…
    Feliz Dia Mundial do Rock pra você.
    E que seus tímpanos tenham uma vida nem um pouco calma.
    Até mais.

    • É bem possível, Jacques. De minha parte, o bom berreiro sempre terá lugar de destaque no meu repertório musical, embora deva reconhecer que isso não acontece mais com a mesma frequência (ou o mesmo volume!) de outrora. Devo estar ficando velha! 🙂
      Inté!

  2. Janis Joplin era realmente de arrepiar, mas hoje não quero ouvir berreiro mais não, estou mais pra rita lee: “pra pedir silêncio eu berro, pra fazer barulho eu mesmo faço.”

    • Pois é, é como eu disse pro Jacques ali em cima, apesar de ainda gostar, o repertório de berreiro na minha vida tem andado bem mais calminho. Acho que a gente diversifica mais também, né, algumas coisas que a gente ouvia pouco na adolescência acabam ganhando mais espaço ao longo do tempo.

  3. Monica, eu lembro q uma das primeiras q eu toquei na minha bandinha era do Zé Rodrix :. Eu tô doidin por uma viola
    Mãe e pai, de doze cordas e quatro cristais
    Pra eu poder tocar lá na cidade
    Mãe e pai, esse meu blues de Minas Gerais—- Que hoje ainda é dia de rock

    Que hoje ainda é dia de rock

  4. Tava dando uma fuxicadinha na internet esses dias pra ver se achava alguma roque desses cheios de gritos e solos intermináveis, o tal de metal foi apresentado pra minha pessoa e só tenho uma coisa a dizer: saudade eterna dos gritos da Janis, da voz rouca (e sensual!) do John Lennon, e a delícia que eram os solos do tal Hendrix. E ó que eu nem vivi nessa época!
    Legal… nostalgia total (rimou! haha).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s