Insulto não é humor

Eu não tenho problema nenhum com o politicamente incorreto. Muito pelo contrário. Sou perfeitamente capaz de entender uma piada ou rir de algum comentário que envolva esse tipo de humor, inclusive – e principalmente – quando ele é dirigido a algum grupo do qual eu faço parte (mulher, católica, mineira, brasileira  e por aí vai). E desconfio que muita gente que se mostra horrorizada com o politicamente incorreto seja, lá no fundo, bem seletiva: não pode fazer piadas sobre a esquerda, mas pode sobre a direita; não se fala em questões raciais, mas criticar religiões tá liberado (ou algumas religiões sim, outras não); não ria das pessoas gordas, mas não tem mal nenhum se o alvo for a galera saradona e siliconada das academias de ginástica. Quer dizer, ruim é falar da minha turma ou da turma que eu gosto, o resto tá ok. Pois eu sou da turma do Rowan Atkinson e John Cleese, para quem ninguém, ninguém mesmo, pode se considerar acima de ser alvo de piadas. E, pro meu gosto, ficar só no nível das anedotas de salão é algo muito limitador. Então sou fã de carteirinha da turma politicamente incorreta.

O problema do politicamente incorreto é que ele é muito perigoso. Um tiquinho mais pro lado, um passinho mais apressado e ó, chegou no insulto, na ofensa gratuita, na falta de noção. Fazer humor assim, no limite, é pra quem pode, não para quem quer. E olha, atualmente eu acho que os que dão conta são muito poucos, bem pouquinhos mesmo. Outro problema do politicamente incorreto é que vez em quando o caboclo se empolga porque viu que tá todo mundo achando graça e pá, de repente fica crente que pode falar o que quiser, quando quiser, onde quiser, com quem quiser – é só fazer cara de ofendido se for criticado e dizer que isso que ele faz é humor politicamente incorreto, e que os outros estão tolhendo sua criatividade e sua liberdade de expressão. Quem foi que inventou que ofensa é liberdade de expressão, eu tinha muita vontade de descobrir, viu.

Eu sempre ri um bocado com o Rafinha Bastos. Acho que ainda rio até hoje mas, pra ser franca, tem um tempo que não assisto nada com ele, acho esse CQC um programa danado de chatinho – como de resto a grande maioria dos programas de ‘humor’ nesse nosso patropi abençoado por Deus e bonito por natureza. Vai ver a chatinha sou eu, mas isso é assunto pra outro post. De repente o Rafinha Bastos escorregou feio, muito feio mesmo, e saiu com aquela piada sem-noção sobre estupro (aquela de que ‘homem que estupra mulher feia não merecia cadeia, merecia um abraço’, ou qualquer coisa no gênero). Mais feio do que a frase em si foi uma turma achar que ela não tinha problema nenhum e que as reações eram tentativas de censurar o humor. Ao invés de se desculpar, o moço seguiu em frente.

E então ele fez de novo, desta vez ofendendo uma colega de trabalho, ó que feúra. Chamar alguém de ‘cadela’, convenhamos, é o fim da dinastia. Claro que os animais não têm absolutamente nada com isso, mas já resolvemos que cachorro e cadela são ofensas, né, pronto, não tem nada que usar o adjetivo. Pelo menos desta vez o moço se desculpou. Se isso aconteceu porque a moça é casada com um dos donos da Rede TV, não se sabe. Prefiro ser Pollyanna e acreditar que ele se tocou e viu que passou dos limites, enfiou o rabo entre as pernas (como dizia o meu avô) e fez seu mea culpa. Sei lá.

Mas aí vai ficando aquela coisa chata, né, aquela história de polarizar as opiniões e aí aparecem os grupinhos do ‘sou contra isso’ e ‘sou a favor daquilo’, ninguém está muito disposto a ouvir ninguém, todo mundo querendo fazer o máximo de barulho possível pra chamar a atenção para si, uns começam a enxergar chifre em cabeça de cavalo, outros começam a achar que vale tudo no humor e o humor mesmo, que é bom, que se dane. Grazadeus ainda existem alguns Rowan Atkinsons e John Cleeses por aí, mesmo que a gente tenha que garimpar pra encontrar. No dia em que eles sumirem, o humor vai ficar muito sem graça.
***

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18 respostas em “Insulto não é humor

  1. Adorei a plaquinha “I’m not a bitch, I’m THE bitch…”
    Eu felizmente estou perdendo todo esse basfond do CQC (que eu até gosto e assistia a versão italiana, aliás, a única coisa que eu assisti da tv italiana).
    E falando em bom humor, vc viu o Rowan Atkinson no Top Gear? Excelente!
    E dos ‘novos’ eu amo de paixão o Eddie Izzard, conhece?

    • Hahaha, eu achei essa plaquinha há um tempão e eis que surgiu a oportunidade de usá-la no contexto exato! Olha, acho que você não tá perdendo muita coisa desse basfond de CQC não, eu já cansei desse blablablá que andou rolando por aqui.
      Minina, acho o Rowan Atkinson show demais, calado ou falando!
      Adoro o Eddie Izzard, travestido ou ‘normal’, já viu ele comentando sobre visitar Paris e usar o francês que aprendeu na escola?

  2. Acredite! Não é você a chata…

    Eu dizia em casa: “eu não tenho nenhum preconceito!” E meu filho cutucava: “Tem certeza?” E eu, pensando melhor, confessei: “…tenho! Na verdade eu tenho preconceito contra político!” E meu filho ainda cutucando: “E se ele ainda for negro e gay?” Aí eu disse: “Bom, nesse caso melhora bastante!”

    • Eu acho que preconceito a gente sempre acaba tendo em algum momento. O caso é o que fazer quando percebe que está agindo de maneira preconceituosa… Tem gente que finca o pé e não admite nada, nunca tem gente que tenta enxergar as coisas pelo outro lado para, talvez, mudar de opinião ou, pelo menos, respeitar a do outro. Já é alguma coisa…

  3. Gostei muitíssimo deste seu comentário.
    Eu não entendo o que Rafinha Bastos é o mais seguido no twitter. No mundo.
    Tá todo mundo louco? Ou sou eu a sobrante?

    • Leda, antigamente eu acompanhava um pouco mais de perto o cenário de humor tupiniquim, o Rafinha Bastos sempre teve umas tiradas muito boas. Depois parei, e com a polêmica e bate-boca recentes, aí é que parei de vez… Mas os comentários dele têm sido bem infelizes mesmo, já passou do nível do simples deslize. Tá danado.

  4. É preciso muita inteligencia para fazer humor.
    Vale lembrar que as pessoas riem por muitos motivos.
    Pode ser mesmo riso de nervoso, riso de constrangimento,
    ou mesmo cócegas.
    Eu não me iludo de que ele pediu desculpas por reconhecer
    que insultou uma pessoa.
    Ele pediu desculpas pois a direção da emissora deve ter lembrado, bem claramente,
    que ele é apenas um reles funcionário.
    E eu posso imaginar que ele não achou graça na perspectiva de sobreviver
    apenas com os shows dele 🙂

    • Pois é, no fundo, lá no fundão, o pedido de desculpas deve ter sido mesmo por motivos bem mais óbvio$, eu é que gosto de pensar que, sei lá, vai ver o moço se tocou E o chefe mandou! 🙂
      Mas é isso, Humor com H maiúsculo não são muitos que dão conta de fazer bem feitinho não…

  5. Verdade, fazer humor é para poucos. Não entendo muito bem essa gente que acha graça em ri das pessoas, quando rir com as pessoas é mais divertido. Vai entender…

  6. a disparidade é elemento comum nas sociedades em geral, e isso acaba gerando sempre algum tipo de preconceito. O problema reside na intensidade e na capacidade de cada um de racionaliza-lo, desfazê-lo ou, na pior das hipóteses, expô-lo. Creio que quanto mais nos humanizarmos, menor será a intensidade dele. Quanto mais aprendermos a conviver com as diferenças, mais equilibrada a sociedade, obviamente. Agora, dentro deste contexto, separar o engraçado do tacanho é habilidade rara, porque a linha que separa um do outro é tão fina quanto a que separa o brega do chique, a paixão do fanatismo… acho que é por isso que não consigo rir de um rafinha, de um zorra (cruzes!), e de muitos estandapeiros que fazem sucesso por aí…

    • Ô, gostei do ‘estandapeiros’! 🙂
      Além do mais, o que é considerado engraçado ou tosco, brega ou chique, etc., varia bem de acordo com a cultura e a época, né? Mas sempre existe um nível mínimo de civilidade que, acho, independe de quando ou onde a piada é feita. É por isso que alguns comediantes são atemporais e fazem rir qualquer plateia. Zorra Total é isso mesmo, zorra total. Humor por ali, nunca vi…

  7. Na verdade, os homoristas(?) estão carregando demais nas tintas! Hoje em dia há condições para fazer humor, pois as situações estão por aí, às mãos cheias! Essa nova turma de humoristas, que geralmente estão vindo do comedy stand up, até que é boa,e estão fazendo uma nova forma de humor. Como todo cidadão que alcança algum nível mais alto na mídia, como no caso do Rafinha Bastos, perde-se o senso de ridículo e de medidas do ‘poiticamente correto’.
    Acontece, que por outro lado, o pessoal está de saco cheio dessas nulidades que abundam na nossa televisão, política e dia-a-dia e, até certo ponto, será uma forma de indignação, pois essas mesmas pessoas não se dão ao devido respeito.
    Tem muita porcaria no ar, em todos os sentidos!!!

    • É verdade, tem uma geração de humoristas de stand-up (mas não só de) muito boa, com um timing excelente pro que está acontecendo e umas tiradas ótimas. Difícil é manter a noção, né?
      E sim, as pessoas estão de saco cheio com tudo e o humor que aparece na TV é absurdamente idiota, no pior sentido. Mas acho que perder o respeito não se justifica, mesmo que o camarada a ser criticado mereça. É possível fazer humor de ótima qualidade, politicamente (in)correto e tudo o mais, sem apelar pra ofensa…

  8. Oi, Mônica.
    Concordo contigo em gênero, número e grau quanto ao politicamente incorreto. Poucas pessoas assumem por aí o que você falou. Parabéns! O humor “correto” é muito chato, dá para ousar sem ferir ninguém. E todos devem ter grandeza moral para aceitar uma crítica e crescer intelectualmente com ela.

    • Concordo, Jeremy, alguns dos melhores humoristas ever foram transgressores e esticaram os limites do humor. O problema é que, de um lado, o pessoal começou a achar que politicamente incorreto e ofensa andam juntos; do outro, muita gente começou a ficar toda melindrada a cada piada, querendo colocar as duas coisas no mesmo balaio. Atualmente, fazer humor politicamente incorreto com competência não é pra qualquer um. Aparentemente, entender esse tipo de humor também não…

  9. tudo bem.
    gosto não se discute, mas que o CQC é um programa super engraçado e inteligente, isto é.
    Além do mais, sabe extrair humor daquela tristeza eterna que é o Congresso.
    A Mõnica Iozzi até ficou um mulherão. Tá linda que só.
    abraços
    ronaldo.

    • É deveras, Ronaldo, humor é uma questão de gosto! Eu sei de gente que acha Zorra Total a maior diversão… Acho que o CQC é um programa FEITO por pessoas inteligentes, sem dúvida, mas atualmente tem momentos inteligentes e engraçados e só. Com o Casseta & Planeta foi igualzinho, nos primeiros tempos arrasou, depois a fórmula ficou batida e repetitiva e não teve inteligência dos humoristas que desse conta. Acabou indo pro beleléu.
      E eu sou super a favor de ver gente bonita a qualquer hora, mas pra falar a verdade não faço ideia da relevância da beleza da Mônica Iozzi num programa assim. É de humor ou é programa de miss? 🙂
      abração!

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