Catedrais

É mais ou menos como aquelas gravuras que são pra gente olhar e dizer se está vendo uma moça ou uma velha, ou se a bailarina está girando para a direita ou para a esquerda: cada um vê uma coisa. Teve gente que olhou a maquete e disse que aquilo ali poderia muito bem simbolizar duas mãos postadas em oração. Outros acharam parecida com as velas içadas de um barco e os mais filosóficos interpretaram como sendo duas colunas simbolizando os mistérios de Deus. Tá. Só que eu olhei e olhei de novo e só consegui enxergar um fascinator.

Tudo bem que a minha religiosidade anda um bocado esculachada nos últimos tempos, mas toda vez que eu vejo a maquete da nova catedral metropolitana de Belo Horizonte, eu só consigo pensar naqueles chapeuzinhos pavorosos que a princesa Beatrice de York adora (lembra do pretzel ambulante absolutamente medonho que ela usou no casamento do primo?). Já fico até imaginando o arcebispo partindo pra inovação e celebrando uma missa com um desses na cabeça, lançando tendência.

Estão falando que vai ser uma obra grandiosa – é projeto do Niemeyer, né, precisa dizer mais alguma coisa? 40 mil metros quadrados, 100m de altura, 7 sinos (coitada da vizinhança…), 5 mil pessoas lá dentro e 15 a 20 mil do lado de fora. De vez em quando eu implico um pouco com as ‘viajadas’ do Oscar, mas tenho que concordar que a catedral faz jus à tradição de se tender ao over nas construções de igrejas. 

Mas é que, pelo menos nesse quesito, eu ainda sou meio ‘old school’. Esses templos enormes, amplos, hiper iluminados e super-mega ventilados, onde acontecem celebrações cada vez mais mezzo-aeróbicas / mezzo-show-da-Ivete (mãos para o alto, palmas, tudo um pouco interativo demais pro meu gosto) não são muito a minha praia. Eu gosto mesmo é de uma boa catedral gótica, bem medieval mesmo, pé-direito altíssimo – que é pra você se sentir minúscula e insignificante lá dentro – bem escura e fria, construída ao longo de séculos sobre colunas de pedras enormes, o cheiro de parafina vindo das centenas de velas nos corredores laterais, aquele silêncio respeitoso que te convida à meditação, a pouca claridade vindo da porta enorme de madeira maciça e dos vitrais coloridos imensos nas laterais, uma construção que atravessou séculos e parece que vai estar sempre lá, austera mas serena.

Deixo, portanto, a nova catedral para as novas gerações aproveitarem, eu nem mesmo sou de ficar indo à missa, esse negócio de participação ativa não me atrai não. Podem ir lá pro prédio do Niemeyer cantar e bater palmas, quando me der na telha eu dou uma passadinha ali na Boa Viagem, fico de bom grado um tempo quietinha no meu canto, naquele silêncio, pensando e ‘olhando pra dentro’, e depois saio muito feliz da vida para dar uma voltinha na praça antiga de árvores centenárias. Não chega a ser Idade Média nem nada mas, né, dá pra improvisar.
***

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13 respostas em “Catedrais

  1. Ahh pois é…eu implico, e muito, com a obra dele. Aquelas rampas enoormes, você anda, anda e não chega nunca. Fico sempre meio aflita pois me parece que foi feito para dimensões e atributos não humanos. Quando morava em SP eu ficava desanimada só em pensar em ir na Bienal. Ele me deixa entediada, esa é a minha sensação. Apenas a Oca eu acho legal pq dá pra subir nas paredes 🙂

    • Pois é, tem umas coisas dele que eu acho lindas (a catedral em Brasília, por exemplo, e a igrejinha de São Francisco na Pampulha), mas tem hora que eu implico um pouco com esse conceito de arquitetura como ‘escultura’ e dane-se quem vai usar o espaço. Nunca estive na Oca, mas acho legal essa ideia de subir pelas paredes – e não apenas no sentido figurado… 🙂

  2. Então, eu gosto muito do Niemeyer do tempo em que ele era moderno, ou seja, até os anos 60 do século passado. Pampulha, Ibirapuera, Brasilia e muitas outras coisas boas desta época, junto com Burle Marx, Lucio Costa, etc. e que até hoje são lindíssimas. O problema é que os anos 60 já foram a meio século atrás, o muito deu muitas voltas (e põe volta nisso) e a arquitetura brasileira e mundial também deu as suas. E eu acho que ele meio que perdeu o bonde.

    É mais uma daquelas coisas da brasilândia. Quem está encarregado de uma obra grande e de impacto na paisagem urbana morre de medo de arriscar e abrir espaço para novas idéias. Como foi feito no Centro Administrativo de Minas Gerais, mais fácil chamar o Niemeyer, que ninguém se arrisca a criticar: qualquer coisa que ele fizer vai ser considerada o suprassumo da quintessência. Triste fim para um grande arquiteto, virou grife. E grande risco para a arquitetura brasileira: virar arquitetura de uma idéia só. Enquanto isto os muitos bons arquitetos do Brasil perdem a chance de participar de uma obra desta importância.

    Quanto à catedral, não achei nada. Parece um mastodonte com a tromba torta. No quesito resa, fico com você, Mônica. Continuo gostando mais da Igreja da Boa Viajem, com seu silêncio que convida a olhar para dentro, e seu jardim que isola a gente do tumulto da cidade lá fora.

    • É isso mesmo, não tiro de jeito nenhum os milhões de méritos do Niemeyer e o que ele representa para a arquitetura urbana mundial. Mas confesso que nessas horas eu sou da turma prática, e ver um arquiteto que parece pensar no prédio em si e não nas pessoas que vão morar e trabalhar nele é mais ou menos como um médico que tem uma fórmula para um tratamento, mas não está nem aí se isso é o que o paciente realmente precisa, ou um professor que sabe muito mas não sabe adaptar sua forma de ensinar ao contexto de seus alunos. Acho meio desperdício, sei lá…

      Enquanto ficam no ‘mais do mesmo’, pencas de arquitetos competentíssimos poderiam estar tendo seus nomes ligados a projetos urbanos de peso – o Oscar já deixou sua marca, já era hora dos administradores fazerem um ‘move on’ e dar chance aos que ainda têm muito o que mostrar.

      Adoro a Boa Viagem e como ela é um oásis no meio da confusão da cidade. Aquelas árvores enooooormes em volta, na praça, são das coisas mais lindas de se ver. A praça podia ser mais bem cuidadinha, aquilo ali é uma beleza!
      bjk

      • Ui, reza com “s”. Doeu. O “muito” deu muitas voltas, também. To precisando voltar para as aulas de português do colégio. Foi mal, aí!

        Sabe que na maioria das obras do “bom” Niemeyer os espaços são até que bem humanos? O salão e a boate do Museu da Pampulha, antigo casino, são lindos e têm uma vista maravilhosa da lagoa. A Igreja da Pampulha é pequenininha, acolhedora e tem também uma super vista. Ok, obras de Ceschiati e Portinari ao redor botam qualquer cabana nas alturas, ai é covardia. E os azulejos, então? A Casa do Baile é um “bombonzinho”, pequenininha, com a marquise cheia de curvas e também feita para ter uma super vista da a lagoa. A marquise do Ibirapuera é uma delícia e o pessoal fica caminhando por ali, andando de skate, super necessário para as pessoas continuarem curtindo o parque mesmo numa cidade que chove muito. Fora os jardins do Burle Marx, não tem jeito de não amar os jardins do Burle Marx. Brasília também tem coisas lindas e de uma força tão grande que viraram ícones, qualquer um reconhece em dois ou tres traços as formas do congresso. E os arcos do Alvorada tiveram tanto impacto que há alguns anos vi alguns reproduzidos ao longo da Belém-Brasília, simbolo do progresso.

        Já o “mau” Niemeyer é de doer. Memorial da América Latina da vontade de ir vestido com um macacão de astronauta com todos os tipos de suporte à vida (oxigênio, água, filtros UVA e UVB), tão árido é o lugar. E não só no sentido ambiental.

        Sei lá, acho que um dia o moço acordou e resolver que tudo tinha que ser monumental. Ai nós dançamos.

  3. Gostei do comentário do Jota. Louve-se todas as conquistas do Niemeyer, adoro o parque do Ibirapuera, etc…, mas, vamos e venhamos, meu sobrinho desenharia algo melhor, aos seis anos de idade…

    • Hahaha, nem posso opinar, Jeremy, eu implico com o Niemeyer, mas nunquinhas conseguiria fazer qualquer um daqueles traços. Sou uma negação na arte do desenhar, uma verdadeira hecatombe! 🙂

      Concordo ‘concê’ e com o Jota, o bom Niemeyer é ótimo. Adoro a igrejinha e a catedral de Brasília então, essa é a minha favorita. O prédio do Itamaraty também é lindo – do Congresso gosto menos (e não apenas por razões políticas…. :)) Mas ainda fico com aquela implicanciazinha de achar que ele pensa mais no tanto que aquela obra vai ficar bacana ali, e menos no pessoal que vai usar o espaço. Mas é mais cisma do que qualquer outra coisa. O que irrita mais é que tem gente que nào consegue fazer o que o Jota fez – separar o ‘bom’ Niemeyer do ‘ruim’, seja lá o que isso signifique – e só fica na rasgação de seda, como se tivesse que gostar porque, né, É o Niemeyer…

  4. Pra mim essa coisa de chamar o niemeyer só tem um motivo: ninguém pode contestar, criticar, questionar, etc. Não sou muito adepto de teorias de conspiração mas fico sempre com um pé atrás quando algum governante vem com niemeyer na manga. Nada contra ele, pessoa ou arquiteto, mas deixa o velhinho em paz, pô.
    Contra as obras dele só tenhum um porém: acho que ele odeia árvores, tentem andar pelo memorial da américa latina (sp) em um dia de verão que vão entender o que eu digo.

    • Nossa, árvores! Sim, onde estão elas, né? Se não for o trabalho do Burle Marx pra enfeitar de natureza, é só concreto e vidro… Niemeyer é um super nome mas fico imaginando o tanto de gente talentosa que poderia estar aí, mostrando projetos excelentes, e o pessoal só quer saber do Oscar, porque ninguém vai ser doido de discordar. Ou vai, mas vai ser em off ou em espaçozinhos singelos como este blog.

  5. As obras do Niemeyer são feias. Todas feias. Tem um mérito, são claras e espaçosas. Não troco um neo-clássico por nada que ele tenha feito. A nova catedral de BH parece o pegador da tampa de uma panela futurista. Mas…para a atual religiosidade os espaços têm de ser bem assim, alucinantes para o povo poder pular e cantar os ensandecidos hinos que mais são as músicas bregas, meio pagode, meio gospel irritante. Um estado cvomo MG que tem tradição de barroco tão particulare ter de conviver com essas alucinações sem forma é meio decepcionante. Mas aí vem a turma dos “mudernos”, do viva onovo emorra a tradição. Fazer o quê?

    • Hahaha, essa do ‘pegador de panela futurista’ foi na mosca! 😀
      Também não gosto muito dessas igrejas modernosas, mas é o que você disse, talvez seja mesmo sinal dos tempos. É que acho as celebrações um pouco festivas demais, mezzo-religiosa-mezzo-micareta, prefiro as mais introspectivas. Aí vejo algumas igrejas lotadas de gente com as missas mais animadonas e fico pensando que a chata sou eu, né, então deixo a galera curtir do jeito dela. Prefiro o barroco – aliás, prefiro mesmo um bom gótico original, pedras, pé-direito nas alturas, corais – mas tudo bem.
      E Niemeyer tem seu valor mas, em matéria de gosto pessoal, o meu não bate muito com o dele não…
      abraço

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