Virundum

Pensando bem, nosso hino nacional até que é bem bacana. Houve um tempo em que eu não gostava muito dele não, achava longo demais (bom, isso ele é mesmo), difícil de aprender, um pouco entusiasmadinho demais pro meu gosto. Eu preferia os mais sóbrios e solenes, que pareciam demonstrar uma certa pompa e circunstância.

Hoje eu acho toda essa animação um dos seus pontos fortes. Além disso, a letra é super lúdica. Querem alguns que ela seja a evidência mais contundente de que Joaquim Osório Duque Estrada tenha sido, muito antes do intrépido Luke Skywalker, um legítimo cavaleiro Jedi e discípulo do grande mestre Yoda. Isso explicaria por que a letra do hino não começa com um simples e direto ‘As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico’: quebrar e inverter tudo cria um impacto muito maior e ainda dá a chance para os professores de português fazerem a clássica pergunta de prova – qual é o sujeito da oração?

E o que seria de expressões como lábaro, raios fúlgidos e impávido colosso (e os misteriosos virundum e solesmã) se não houvesse o hino para abrigá-las? Provavelmente estariam meio esquecidas em alguma página do dicionário do Aurélio, macambúzias, sorumbáticas, juntando poeira ao lado de outros vocábulos menos votados.

Sem falar no puro exercício de memória. O ‘God Save the Queen’ é aquela coisa, sete linhas e the end, o máximo de esforço que os súditos de Sua Majestade precisam fazer é, de tempos em tempos, trocar ‘king’ por ‘queen’, de acordo com as circunstâncias. A última vez em que isso se fez necessário foi em 1952, então, né, moleza. Nosso hino, não. Esse tem três melodias diferentes, com as estrofes seguindo a estrutura introdução-melodia A/B/A/C, uma pausa para voltar ao tema introdutório e nova rodada A/B/A/C- coisa para profissionais. Versos enormes, expressões de significado misterioso, verdadeiros nós na ordem das palavras nas sentenças; se isso não fizer um bem danado pros neurônios, não sei o que faz.

Vai ver é por isso que as crianças aprendem a cantá-lo assim que entram na escola. É lúdico, é didático e um bom neuro-estimulante natural. De vez em quando o hino cisma de complicar um pouco a vida dos pequeninos, mas eles tiram de letra. Outro dia a menininha, do alto de seus quatro anos e sem entender muito bem essa história de ‘pátria amada’, fechou brilhantemente sua performance com um sonoro ‘Na Farmácia, Brasil!’. Fala a verdade, a gente não conhece muitos hinos que ofereçam toda essa gama de possibilidades.
***

11 respostas em “Virundum

  1. Eu sempre me arrepiava quando cantava o hino! Mas eu fiquei com um fraquinho foi pelo hino da bandeira. Vê só que lindo: ‘Salve lindo pendor da esperança, salve símbolo augusto da paz’ (diz lá que o cara não tava inspirado – sendo o cara aqui, imagina só, o próprio Olavo Bilac) ‘Tua nobre presença à lembrança a grandeza da pátria nos traz’ (faz favor, essa inversão de sujeito, verbo e predicado é um must). And I rest my case…
    Bjs (tô com saudades), Ana

    • O irmão de uma amiga, chamado Augusto, sempre dizia que esse hino era pra ele…🙂 Aqui em casa a gente gostava de brincar, colocando a melodia do hino à bandeira na letra da ‘Saudades da Amélia’ e depois trocando, cantando Amélia com a letra do hino. Dá certinho! 🙂
      Saudadocê também, o tempo foi pouco…
      bjk

  2. Quando era mais jovem, achava o hino nacional grandioso demais para um “paisinho bagunçado” como eu achava que era esse nosso Brasilsão. Decorei, cantei, mas nunca com verdadeiro entusiasmo. Sempre me arrepiava com os versos finais da “Marselhesa”… “… que um sangue impuro banhe nosso solo!”.
    Hoje, apesar da bagunça geral, nosso país é muito melhor do que eu imaginava, e aprendi a respeitar e amar nosso hino… tem tanto país por aí metido à besta…

    • O hino é muito bonito sim, durante anos eu simplesmente repeti a letra meio sem saber o que estava acontecendo, mas depois que a gente ‘pega o jeito’, vê que ele é mesmo muito bacana. Papai tinha uma teoria engraçada que aformava que ‘quanto mais chinfrim o país, mais longo é o hino’. Aí ele dava uma lista enorme de exemplos de países com hinos enormes e outros com hinos minúsculos, pra comprovar a tese…🙂

  3. nosso hino tem um plus a mais! é lindo de assistir na copa do mundo nossos gloriosos canarinhos tentando saber se estão no ipiranga ou em berço esplêndido. By the way, o que é florão da américa?

    • Florão, imagino eu, seja uma alusão aos grandes exemplares da nossa flora, tipo vitória-régia, bromélia, samambaia-gigante e outras mais. Nosso hino é bem ecológico, nào era o Veríssimo que, quando criança, cantava ‘Do que a terra MARGARIDA’? Então…

  4. Oi mô..E vc já viu a gloriosa apresentação da cantora Vanusa com o hino nacional?
    Com certeza merece uma indicação ao Oscar rsrs.

    Só o nosso Florão-da-America-Patria-Amada-Brasil…para nos proporcionar momentos inusitados como esse…

    • É um momento epic-fail da Vanusa… Mas vai ver ela pensou ‘se não dá pra cantar essa confusão sóbria, quem sabe chapada?’ Obviamente foi um experimento coroado de fracassos. 🙂

  5. Taí…parei para lembrar da infância e eu acho que aprender o Hino aos 5 anos foi um dos motivos de gostar de ler. Todas essas palavras pouco usuais para mim eram como brinquedos que continham outras palavras dentro. Foi com o Hino também que tomei consciência de que letra e música dançavam juntas.

    • Taí, gostei dessa definição de ‘brinquedos que continham outras palavras dentro’- é assim mesmo que essas palavras parecem ser!🙂
      É uma aventura, né? Palavras difíceis que a gente nunca viu, ordem trocada na frase, quase um quebra-cabeças. A meninada aprende e pronto. Dureza é conseguir manter tudo na memória com o passar dos anos…

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