Som e imagem

A amiga de uma amiga trabalhava num dos andares mais altos do World Trade Center. Tudo que se sabe é que ela estava no escritório naquela manhã de 11 de setembro, e que não voltou para casa. Nunca encontraram qualquer vestígio dela depois que as duas torres vieram abaixo – nenhum trapo de roupa, nenhum fio de cabelo ou um bilhetinho escrito num post-it, nada. Ela simplesmente desapareceu há dez anos.

Depois que fiquei sabendo disso, é nessa moça que eu sempre penso quando alguém fala sobre o 11 de setembro. De certa forma, me ajuda a manter um senso de realidade, porque aquilo ali foi tão absurdo, tão surreal, que não seria muito difícil deixar a memória escorregar e misturar as imagens aos efeitos especiais de um filme-catástrofe de Hollywood. Pensar nessa jovem, na sua família vivendo um luto de dez anos sem poder fechar o ciclo dando-lhe um funeral digno, é trazer um pouquinho mais para perto uma história que certamente se repetiu em centenas de outros lares mundo afora desde aquele dia.

Pensar nela reforça em mim a dimensão humana da tragédia individual, aquela despida de seus aspectos políticos, religiosos, midiáticos. Era alguém que trabalhava nas Torres Gêmeas e não voltou pra casa. Ela não tinha nada a ver com Osama Bin Laden, George W. Bush, fanatismo religioso ou política externa do governo norte-americano. Mas as imagens daquela manhã foram repetidas tantas vezes, de tantos ângulos diferentes em todos esses anos que, se não tomar cuidado, a gente corre o risco de olhar para aquilo tudo e ver apenas mais uma imagem.

Talvez seja por isso que eu goste tanto deste curta do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu. Ele faz parte do filme 11’09”01 e alterna na tela imagens e sons durante seus quase 10 minutos – a memória que temos do que vimos e ouvimos naquele dia se encarrega de ligar os pontos. Não fala de ninguém em particular, na verdade o filme nos mostra muito pouco. O que tem de muito é o que já trazemos conosco, e as poucas imagens mostradas no curta são um soco no estômago porque mostram, sem mostrar totalmente, o que existe de mais dramático e terrível num acontecimento como esse. Todas as tragédias coletivas são, no final das contas, milhares de pequenas tragédias únicas. E isso é muito maior do que a gente pode imaginar.

E a pergunta deixada na tela, ainda sem resposta: ‘Does God’s light guide us or blind us?’ – A luz de Deus nos guia ou nos cega?
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12 respostas em “Som e imagem

  1. Não sei me expressar sobre isto, como um todo.
    Tudo que falamos pode ficar incompleto.
    As imagens que vi naquela manhã fatídica até hoje deixam-me aterrorizado e a pensar sobre as diversas faces da condição humana.
    Triste termos que relembrar 10 anos de fato com este.
    A verdade é que temos que relembrar para que sirva, ao menos, para o não esquecimento de tamanha perversidade e de até onde podem ir as ações humanas.
    Mais não sei dizer.
    Stélio

    • É issaí, Stélio. O pior é que, de uma maneira geral, parece que o pessoal nesses dez anos aprendeu mesmo foi a ser cada vez mais tolerante e menos disposto a ouvir e entender o outro lado…

    • Esse curta é excelente mesmo, Lisa! Na verdade, o diretor não é o que aparece no filme, mas sim o Ken Loach, que é inglês e sempre foi bastante político em seus filmes. Achei a ideia dele genal. Se você tiver oportunidade, assista também ao curta de Burkina Faso, que é o mais levinho de todos, sobre um garotinho que cisma que o Osama Bin Laden está escondido na aldeia dele…

  2. o episódio que mais me marcou foi o do Sean Penn, sobre o viúvo que vivia como se a esposa ainda estivesse ali e tinha um vaso de flores murchas na janela. O final é surpreendente. O da moça surda (não lembro quem é o diretor) também é muito bom.

    • Ah, esse do Sean Penn é primoroso mesmo e o final é lindo. Tou na cabeça que o da moça surda é francês, mas já não me lembro direito. Todos os curtas são, no mínimo, muito interessantes e valem muito uma assistida. Estão todos lá no YouTube, separadinhos. Só não sei se tem alguma versão legendada em português.

  3. Monica, creio que Deus não tem nada a ver com o que aconteceu há dez anos. Para mim, Ele estabeleceu um sistema, no qual nós, os atores principais, desempenhamos de acordo com nosso talento para amar e ser amados. Cabe ao ser humano as respostas sobre o que produziu essa barbaridade, as neuroses, frustrações, medos, essa soma que levou isso a acontecer, e as ações de aprendizado para que isso jamais ocorra novamente.
    Os documentários são belos, alguns tem uma poesia triste, mas um pequeno fundo de esperança. A vida continuará após o caos.

    • Concordo 100%, Jeremy, é uma sacanagem atribuir a Deus essa demonstração da burrice humana – Ele até deve estar repensando aquela história de ‘à Sua imagem e semelhança’, né… Seria até legal a gente acreditar que o cerumano consegue aprender com essas barbáries, mas eu ando mais no time do Mark Twain (ou terá sido o Bernard Shaw?): “A História nos ensina que a História não nos ensina nada…”
      São belos curtas sim, todos eles.

  4. nem dá para acreditar que já se passaram 10 anos. Tenho lembranças tão nítidas daquele dia, é impressionante.
    E do que mais me lembro é de um gordinho de camisa branca, meio que se pendurando para fora de uma das janelas para escapar da fumaça, e acenando para o helicóptero que filmava tudo. Esse gordinho, com certeza, morreu na queda.
    E aí um grande amigo, 80 anos nas costas, que lutou na II Guerra, comunista de quatro costados, chega no meu escritório e “comemora” o golpe que os EUA estava recebendo. E eu disse para ele que não havia ideologia no mundo que justificasse a morte do gordinho. Acho que ele se tocou ali que o episódio era, mesmo, muito mais complexo que um simples joguinho de “quem ganhou esse round”…

    • Sabe que é isso que às vezes me deixa chateada? Sempre aparece um pra falar ‘ah, mas os EUA fizeram isso e aquilo e ninguém nem tchuns’. Uai, pois então deem ‘tchuns’, porque é pra prestar atenção sim, e muita (foi mais ou menos isso que o Ken Loach fez no seu curta). Se as mortes no WTC não são mais impotantes do que outras menos comentadas, elas também não são menos. É tudo muito, muito errado e absolutamente injustificável. Não existe nada pra se comemorar quando o tema reinante é a intolerância e a burrice em último grau, seja lá onde isso aconteça.

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