História cheia de furos

Passei boa parte da noite de ontem de olho (e ouvido) no site do DemocracyNow.org. Ali, em uma transmissão direta e ininterrupta, uma jornalista aparentando seus sei-lá-quantos-anos (procês verem o tanto que eu sou boa nessas adivinhações) entrevistava parentes, amigos, ativistas de direitos humanos, reverendos, advogados, rappers, todos plantados na frente de um presídio em Jackson, Georgia, esperando o resultado do último recurso enviado à Suprema Corte dos Estados Unidos, e que poderia salvar a vida de Troy A. Davis. Se tudo corresse dentro da normalidade de um estado (um dos 34, segundo um entrevistado) que ainda adota a pena de morte no país, o moço deveria receber uma dose de injeção letal às 8 da noite, horário de Brasília. Passava de 11 e meia quando eu fui dormir e naquela hora Davis ainda estava vivo. Mais de 35 mil pessoas mundo afora assistiam ao live streaming da DemocracyNow e comentavam no Twitter, todo mundo na esperança de que, com a demora, a execução fosse adiada mais uma vez – seria a quarta. Mas acordei hoje com a notícia de que Davis, um negro de 42 anos acusado de matar um policial branco em agosto de 1989, tinha sido executado.

Existem mais de 3 mil prisioneiros no corredor da morte nos EUA atualmente. A maioria, que surpresa, jovens, negros e pobres. Mas o que faz o caso de Troy Davis emblemático são suas circunstâncias. A arma do crime nunca foi encontrada. Não existem digitais ou qualquer traço de DNA de Davis no local do crime. Das 9 testemunhas apresentadas no julgamento, 7 mudaram suas histórias ao longo dos anos, e algumas disseram que foram coagidas a contar a primeira versão. Existe a suspeita de que o médico legista também tenha mentido para reforçar a tese de que Davis era o assassino. E alguns jurados no caso afirmaram que, se soubessem na época o que sabiam agora, jamais teriam dado o veredito. Se aquela história de ‘culpado acima de qualquer suspeita razoável’ procede, certamente parece não se aplicar neste caso.

Sou contra a pena capital em qualquer caso e ninguém até agora conseguiu me convencer de que ela possa ser uma boa ideia. Um amigo me disse que talvez uma arma apontada pra minha cabeça seja o argumento que está faltando mas, sinceramente, não estou nem um pouco a fim de testar essa teoria, prefiro discordar do amigo e ficamos assim. No caso específico de Troy Davis, que ficou no corrredor da morte durante 20 anos, a história toda parece ter mais furos do que queijo suíço. Agora imagina como é que a coisa fica se daqui a um tempo conseguirem provar por A+B que Troy Davis era realmente inocente. O que o estado da Georgia vai dizer pra família e pros nobres cidadãos de Gotham City, ‘ops, mals aê’? Pior é que muito provavelmente eles não vão dizer nada.
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8 respostas em “História cheia de furos

  1. O cara é inocente? É possível. O julgamento está cheio de furos? é possível também.
    Mas o obaoba de gente com cartazes, correntes prafrente, tuites e outras manifestações não me convencem. Os americanos adoram esse tipo de coisa e tem sempre um monte de gente disposta a isso, seja qual for o motivo e o caso, e muitas vezes são grupos ultrarreacionários e caretas fazendo o maior auê por causas absolutamente absurdas, então não dá pra tomar o fato das manifestações como ‘prova’ da inocência do cara.
    Contra a pena de morte, o erro é um argumento forte, sem dúvida, mas descobrir um erro depois de 20 anos numa penitenciária não é muito melhor. De qualquer maneira precisamos de um sistema jurídico/penal e como não existe nenhum 100% seguro, o máximo que se pode fazer é sempre tentar melhorar, no mais temos que conviver com isso.

    • Ah, eu também não gosto do ôba-ôba não, Wagner. No meio dos protestos ‘legítimos’ tem sempre a galera que quer seus 15 segundos de atenção, acho o fim da dinastia. No caso específico de Troy Davis, a coisa é um pouco mais complicada. Na verdade os erros vêm sendo apontados desde 1991 – tanto que a execução foi adiada 4 vezes nesse período – mas a Corte da Georgia sempre se negou a reabrir o caso. Até mesmo pessoas que tradicionalmente se alinham com os ‘pró pena de morte’ fizeram lá suas ressalvas porque o ‘beyond reasonable doubt’ não convenceu. A história ganhou vulto não por ser mais uma execução (tá ‘assim’ de prisioneiro sendo executado ou na fila por ali), mas por ser um bom exemplo do que um possível erro (irreversível) da Justiça pode fazer. E, é claro, os grupos contrários a pena de morte aproveitam a oportunidade pra dar seu recado… Realmente não dá pra saber se Davis era culpado ou inocente mas, na dúvida, optar pela execução é uma coisa meio temerosa…

  2. Considero-me (quanta falta de modéstia) uma pessoa razoável. Sempre fui contra a pena de morte, mesmo tendo um amigo antigo que foi assassinado numa briga de trânsito. Eu não gostaria de ver o assassino assassinado pelo estado, visto que seria o mesmo que descer ao nível dele. Resta lamentar a falta de educação e preparo para a vida de certas pessoas.
    Punir alguém é uma catarse, uma forma de vingança que se come morna. Muitas vezes o réu acaba imaginando “finalmente acabou…”, e os que foram vingados tocam a vida, sem aquele que se foi. Um estado que se diz “cristão” pode punir com a pena de morte, sendo que seu ídolo maior mandou perdoar “setenta vezes sete vezes”?
    Se alguém me matar, ou alguém de minha família, por favor, considere-se perdoado desde já. Eu tenho pena dessa pessoa, só isso… já não basta?

    • Eu também sou contra o princípio da coisa toda, Jeremy. E teria uma dificuldade enorme em ser jurada num caso assim, tendo essa responsabilidade de mandar alguém pro corredor da morte. As pessoas que são a favor têm lá seus motivos, mas ainda não consegui fazer nenhum desses motivos mudar a minha opinião. Num caso como esse do Troy Davis, meu ‘contra’ fica ainda mais forte…

  3. Sete em nove testemunhas mudam suas histórias, várias alegando que foram pressionadas pela polícia a darem as versões originais, e assassinam o sujeito assim mesmo.

    Impossível não lembrar do apelido que o Aiatolá Khomeini deu ao Tio Sam… “O Grande Satã do Ocidente”.

    • É muita gente mudando a história, né Arthur? Muita água rolou nesses 20 anos, novas provas, exames mais precisos, mas parece que nada abala a Corte. Quando é num estado do sul, então, a coisa parece ficar ainda mais complicada – a Guerra Civil e o movimento pelos direitos civis não foram capazes de resolver algumas tantas coisas por ali.

  4. Não fiquei acordada até tarde para saber se, por fim, Troy Davis, seria morto ou inocentado. Mas, juro, que esperava acordar no dia 22/09, com uma indicação de que a sensibilidade venceria a arrogância. Mas não houve clemência!
    O que ganha a justiça de um país ou a sociedade sabendo que há tanta gente no corredor da morte?

    • Leda, difícil a gente entender a cabeça das pessoas , ainda ais não estando inserida na cultura do lugar, né? Eu também achei que acordaria no dia seguinte com mais um adiamento. Mas acho que ainda existe uma mentalidade de ‘old South’ muito forte, que nem os casos duvidosos como esse conseguem abrandar.

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