Mimimi in Rio

Sei não, mas acho que a grande bobeada do senhor Roberto Medina foi ter inventado de dar o nome pro seu festival de música de Rock in Rio. Porque, né, ele deixou a bola quicando na área para os implicanates chutarem pro gol. Teve a turma que reclamou todas as vezes em que o palco foi montado fora do país (uaaaai, Rock in Rio em Lisboa?) e aquela galera mais barulhenta ainda, que acha um absurdo um festival de rock abrigar outros ritmos. Se o nome fosse algo como Lollapalooza ou Knebworth (que, diga-se de passagem, também é nome de um lugar), aposto que o auê não existiria por estas bandas.

Ok, Cláudia Leitte (ai, essa história de dobrar letra pra ficar mais chique ou atrair as vibrações positivas da numerologia, hein, eu acho uma graça…) está para o rock assim como o Metallica está para o axé. Mas desde que mantenham uma segura e saudável distância entre os fãs das duas correntes musicais, escalando as bandas pra tocarem em noites diferentes, não vejo o menor problema. Na primeira edição do Rock in Rio teve Ney Matogrosso e Ivan Lins, Moraes Moreira e Elba Ramalho, teve Al Jarreau e George Benson, e ninguém me convence que James Taylor e os B-52’s tinham alguma coisa de rock pra apresentar. Quem quis roquenrôu comprou ingresso pra ver Ozzy Osbourne, AC/DC, Scorpions e Iron Maiden (vi todos eles sem ter pedido, eu estava lá pra assistir Queen, Yes e Rod Stewart). Tirando que tinha cabelo ali que não devia ver xampu desde a década de setenta, sobrevivi aos dez dias de festival com poucos efeitos colaterais. Hoje eu mal dou conta de um show inteiro no batidão, então agradeço aos céus por ter feito essas coisas na hora certa…

O interessante é que esse nariz torcido e empinado vem muito mais da plateia do que dos músicos. Esses, espero, já aprenderam a seguir a cartilha do Louis Armstrong, para quem só existem dois tipos de música no mundo: a boa e a ruim. A galera da pesada acha o Ozzy o suprassumo da quintessência, e no entanto eis que esse senhor costuma adentrar o palco ao som imponente de Fortuna, Imperatrix Mundi, de Carmina Burana. Não vejo muita graça no Faith No More, o que não me impede de achar a voz do Mike Patton uma das coisas mais impressionantes que já ouvi na vida – o moço faz com ela o que bem entende. E aí o FnM resolve fazer um cover de Easy, do Commodores (sim, amiguinhos, é Lionel Ritchie na veia) ou uma versão genial de I Started a Joke (Bee Gees dos anos 60 e suas baladas com dose de açúcar capaz de botar a gente diabético) e os headbangers acham o máximo. Um dos grandes sucessos do Metallica se chama Whiskey in the Jar que é, quem diria, uma dessas músicas tradicionais irlandesas que o pessoal gosta de cantar bêbado nos pubs. Nuno Bettencourt é, sem qualquer sombra de dúvida, um dos grandes guitarristas da atualidade, e no entanto lá está ele tocando com a Rihanna (que os roqueiros abominaram) e fazendo seus solos decididamente rock’n’roll (dá uma olhada aqui pra você ver). No patropi a coisa não é muito diferente: Retalhos de Cetim é, na minha opinião, um dos sambas mais bonitos já feitos ever mas, né, Benito di Paula nem pensar – até vir o Zeca Baleiro e regravar e tcharân!, os descoladinhos passaram a achar tudo de bom. Roberto Carlos é coisa para as senhorinhas e senhorinhos que pagam muitos dinheiros para vê-lo no Canecão, aí vem o Jota Quest e faz o Além do Horizonte e de repente já não é brega gostar da música.

O que eu sugiro pra turma do roquenrôu e pra meninada do pop é isso: procurem conhecer o som que os outros estão fazendo. São só 7 notas musicais disponíveis, com seus respectivos bemóis e sustenidos, e um punhadinho assim de compositores realmente bons. Não dá pra ficar desperdiçando música boa, venha de onde vier. Deixem de mimimi e aprendam a curtir também o diferente.
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6 respostas em “Mimimi in Rio

  1. há música boa e música ruim.
    Ok, concordo.
    Mas como definir Sertanejo? Tem gente que chama aquilo de música, também. Não dá para colocar uma escala em “ruim”? algo como 30 graus Celsius negativos de ruindade?

    • Max, acho que o sertanejo nem é o pior. Me atrapalho muito mais quando o assunto é, por exemplo, funk. E o que dizer da tal banda Slipknot, que tocou ontem na noite metal no Rock in Rio? Minha prima definiu bem – não é música, é só aquele barulho insuportável pra adolescente irritar os pais…

  2. É eu também tô fora. Esse saladão para agradar gregos e troianos é muito indigesto. E Cláudia Leite? Bom, como diz um querido amigo baiano: Ela é carioca, essa culpa nós não temos 🙂

    • hahaha, gostei dessa do amigo baiano! Mas eu gosto da salada, prefiro ela à mesmice de um estilo só todos os dias. Um aluno comentou: ‘mas Cláudia Leitte não é rock!’ Eu respondi: ‘Tudo bem, Slipknot nào é música…’ 🙂
      Na verdade, galera gosta mesmo é de meter o pau. O resto é lucro, rs…

  3. Sincronicidade! Escrevi uma coisa parecida no blog também! =)
    O que nos resta é esperar o Lollapallooza vir pro Rio também com um lineup um pouquinho, não diria melhor, mais a meu gosto!

    • Uai, então vou lá ler! 🙂
      Olha, depois do pouquinho que eu vi da tal Ke$ha, o pessoal que se ‘ke$hou’ da Claudia Leitte tem que repensar um pouco essa implicância, viu, ô coisinha esquisita… Lollapalooza tem essa vantagem, pode até mudar de galáxia, ninguém nem dá fé de ser ‘in Rio’ ou em qualquer outro lugar.

      (PS- seu gravatar não tem link pro seu blog… 😦 Vou te achar ali no FB ou twitter procê me passar, ok?)

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