Dando uma mãozinha pro caos na saúde

Você liga para o médico do seu plano de saúde para tentar marcar uma consulta e a secretária te avisa que só tem vaga pro meio de novembro e olhe lá. E fica esperto, que já tem uma lista de espera do comprimento do Nilo para o caso de haver uma desistência nesse intervalo. Você fica p. da vida, onde já se viu uma coisa dessas, pagar uma fortuna por um plano particular e ter atendimento abaixo do nível de posto de saúde pública? Você esbraveja, ameaça fazer uma reclamação nos jornais, no PROCON e pro bispo. E depois ainda ficam falando em mais impostos para bancar a saúde, olha só que absurdo.

E é mesmo. Mas vamos ao lado B da questão, shall we?, que tudo nesse mundão de modêus costuma ter um outro lado. Conversando com um médico há pouco tempo, ele me contou que atende uma média de dez pacientes de convênio por dia. Ou melhor, dez marcam consulta. Quantos efetivamente aparecem? Uns seis, sete no máximo. Os outros simplesmente não dão as caras, não justificam a ausência, não desmarcam a consulta, nem são penalizados nem nada (o médico só pode cobrar pelo serviço prestado). Isso significa que o médico tá lá, o hospital ou consultório também, tem gente precisando de atendimento pra ontem e quase metade do dia pode ficar perdido porque um punhado de ceresumanos sem-noção acha que não tem o menor problema dar o bolo.

Isso, claro, até o caboclo estar do outro lado do problema e precisar de uma consulta – aí é hora de achar um abuso essas pessoas que marcam e não aparecem, bando de gente à toa sem senso de compromisso e consideração com os outros, e aí como é que fica a minha urgência, não é mesmo? Pois é.

O que o médico faz então? São dez pacientes, ele marca uns três ou quatro extras, pra poder encaixar na eventualidade de alguém não aparecer. E se Murphy, com suas leis implacáveis, estiver atento e alerta, nesse dia todo mundo vai aparecer e o consultório vira um caos, as consultas atrasam, o médico atende a toque de caixa, os pacientes passam a ser impacientes, a secretária tem que agüentar gente mal educada vociferando impropérios, pronto, olha só que mau humor.

Vários médicos me contaram a mesmíssima história e a média, de um modo geral, parece ser essa mesmo: 30% de furos sem qualquer explicação. Claro, tem gente que não faz por mal, simplesmente se esquece do compromisso. Tudo bem que já inventaram post-it no espelho, bilhete pregado na geladeira, quadro de avisos, agenda, alerta no celular ou computador pra ajudar a lembrar, mas isso é detalhe. É que a consulta foi marcada há 3 meses, né, o médico não tinha horário antes (tinha sim, é que outro sem-noção fez a mesma coisa e não apareceu na hora estabelecida). Tem gente que marca consulta com três ou quatro médicos diferentes pra ver qual vai liberar primeiro, mas aí não tem a menor preocupação em desmarcar as outras quando é atendido. Alguns sistemas não permitem a marcação de mais de uma consulta de uma mesma especialidade ao mesmo tempo, mas nos consultórios particulares isso é impossível de controlar, porque é claro que um médico não tem acesso a agenda do outro. E tem gente que simplesmente não está nem aí, não liga a mínima e dane-se, porque eu pago esse absurdo de convênio por mês e não vai acontecer nada comigo se eu não aparecer, vai? Não vai.

Isso é da cultura de mentalidade de terceiro mundo, claro. Cultura do atraso, da falta de pontualidade e tudo bem, da falta de consideração quando o assunto sou eu x os outros, da história de querer levar vantagem e, enquanto eu estiver me dando bem, tá valendo. Essas pessoas não se veem como parte de um todo maior do que o mundinho delas, nem se tocam para o fato de que elas ajudam a realimentar o caos. Como a golden rule (aquela que diz pra não fazer com os outros aquilo que não quer que façam com você, e fazer pelos outros o que gostaria que fizessem por você) não se aplica no caso desses seres, e não há repressão (que muitas vezes ajuda a dar um jeito na falta de noção, né Freud?), nada muda. É mesmo muito mais fácil e mais cômodo reclamar os ‘seus direitos’ do que mudar de atitude.
***

13 respostas em “Dando uma mãozinha pro caos na saúde

  1. Perfeito Mônica!

    Como ainda estou na residência, não tenho experiência em consultório particular.
    Mas sei que a realidade é esta mesma que vc expôs.
    Posso falar do SUS, que não é diferente. Todo mundo reclama da falta de especialistas, mas o índice de faltantes nas consultas também é gritante no sistema público.
    Se não me engano, é de 35% ou mais de faltas todos os dias.

    O que é de graça, não se dá muito valor. E no caso dos convênios, acham que o médico ganha bem, quando na verdade, o dinheiro fica mesmo é com a operadora.

  2. aqui nos iztaduzunidus, toda secretária de médico liga no dia anterior para confirmar a consulta.
    O engraçado é que esse é um hábito que temos aí no Brasil para todo o resto: Vamos combinar um barzinho sábado que vem? Beleza. Então liga confirmando na sexta.
    Aqui, se combinou, tá combinado.
    A menos que seja consulta médica, pelo jeito…

    • Max, as secretárias nos consultórios também costumam fazer isso. O problema é que quando a consulta é no hospital, a direção não quer pagar uma conta dessas, né? O médico que se vire com a prestadora do plano de saúde depois, o hospital não tá nem aí…

    • É, isso mostra que a parte mais sensível do corpo humano é decididamente o bolso, né?🙂
      Vai ver a galera dos enrolados é adepta daquela frase de aniversário: “Fica, vai ter bolo!” Dá pra ganhar umas toneladas…

  3. Monica, adorei seu post, é a pura realidade. Lembro que o custo desses “bolos” é indiretamente repassado para a frente. O resto tu já disse no final. Assim, concordo contigo e guardo minhas letras para outro post, ok?

  4. – ô mãe, não era hoje o dermatologista que vc marcou pra mim?
    – é sim minha filha… agora as 15 horas…
    – mas então tá em cima da hora, temos que ir…
    – só um pouquinho que a novela tá no fim…
    – mas você já viu essa novela…
    – e daí? e daí? vale a pena ver de novo…
    …………………………………………………………………
    – ô mâe! Você furou o sinal…
    – a gente tá atrasada, né… ô seu lesma, tira essa lata velha da frente!!!
    – mãe, o médico era neste prédio, já passou…
    – Ah! eu marquei nesse também, mas só tinha horário na hora da novela…
    – e você desmarcou?
    – não né… praquê?
    – mãããeeee!!! Cuidado!!
    – calma filha… eu dirijo bem…
    – essa fila é pra quem vai virar pra direita…
    – eu sei, eu sei… mas tá mais curta… estamos atrasadas…
    – não é justo com todo esse pessoal que tá esperando na faixa certa.
    – não seja tola… tem que ser mais esperta…
    ……………………………………………………………………
    – moça, eu peguei um enorme congestionamento… acho que foi algum acidente…
    – agora vai ter que esperar um encaixe…
    – O QUÊ! O QUÊ!!! EU PAGO ESSA P… DE PLANO DE SAÚDE PRA ISSO?

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