Muito barulho por nada?

Deixa eu resumir pra você o tantão de TV que eu assisti nos últimos tempos: dez minutos, se tanto, do concurso de miss Universo; o finalzinho do show do Elton John no Rock in Rio e o comecinho do show do Stevie Wonder; na casa de um tio os meninos estavam vendo o Sepultura (quer dizer, acho que era a banda, só me lembro que tinha um monte de descabelados berrando e sacudindo a cabeça), mas não dei conta de cinco minutos; pedacinhos do jornal das 10, mas acho que não daria pra completar nem meia edição inteira se somasse todos os minutos. E creio que foi só.

Então você já pode imaginar que não, eu não vi os comerciais de lingerie da Hope com a Gisele Bündchen. Acompanhei o auê todo pelo Twitter, em vários blogs e sites na internet, sei que a história chegou ao alto escalão do governo federal, o protesto foi enviado ao Conar. Como é de praxe nessas ‘polêmicas da semana’, cada um assumiu um lado e partiu pra briga na base do cabo-de-guerra, ninguém muito disposto a ouvir ninguém. Nenhuma novidade.

Eu podia ter ido ali no YouTube dar uma espiadinha nos anúncios, né, certeza que eu iria achar em dois tempos. Mas deu preguiça. Se eles forem isso mesmo que o pessoal tá dizendo, então eu acho meio sem-noção mesmo. Dá ideia de que até uma bonitona poderosa como a Gisele Bündchen só dá conta de resolver suas pendências com o Tom Brady na base da lingerie. E se ela está assim, minha amiga, imagina a gente, que não é supermodelo… Sei não, mas desconfio que se eu tivesse que contar pro meu marido que estourei o limite do cartão de crédito dele E do meu, calcinha e sutiã Hope não dariam nem pra abrir os trabalhos na mesa de negociação – no mínimo, no mínimo, uma Victoria’s Secret pra começo de conversa. E acho que pro homem também pegou mal, né, dá a impressão de que ele é um otário que cai em qualquer conversa se a patroa aparecer de lingerie fazendo biquinho. É assim, rapazes? Tsk tsk tsk…

Mas acho que o mais interessante é que daqui de casa tá dando pra ouvir as rolhas de champã de comemoração lá no QG da agência e da Hope. Porque se tem uma coisa que um publicitário não faz, é dar ponto sem nó. Me engana que eles não sabiam que a campanha iria causar, né? O que eles estão cansados de saber é que atualmente, pra aparecer, tem que fazer estardalhaço. Tem que ir parar nos trending topics do Twitter, tem que render mil centenas de comentários irados de um lado e de outro nos blogs mais acessados, tem que berrar bem mais alto do que o moço do Sepultura que, deusmeu, como berrava! E se der pra fazer isso com custo lá embaixo, melhor ainda. Para isso, basta liberar a faísca e deixar o incêndio por conta do pessoal. Tirar o anúncio de circulação (o que eu acho um exagero) ou deixar ele por lá, isso agora nem importa mais. Lembram da Paris Hilton e a propaganda da Devassa? Pagar uns bons milhões pra Gisele deve ter saído super em conta. Interatividade agora em mais uma versão – fazer um comercial com pose de bacaninha, mas potencialmente inflamável, e aí deixar que o próprio público se encarregue da divulgação. Aposto um picolé de limão como a Hope tá adorando e já renovou o contrato com a agência.
***
(agora, ótima mesmo é esta crônica aqui, garimpada e tuitada pela @lunaomi)

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15 respostas em “Muito barulho por nada?

  1. Dá uma licencinha pra uma palavrinha direto de Bagdá, com uns respinguinhos de sangue básicos?

    Tá na hora de metralhar essa corja “politicamente correta”. Não falta muito para que o cara que disser “eu gosto de mulher bonita” vá preso por “discriminação estética” contra as “visualmente desvalidas”. Deve ter sido por isso que meteram goela abaixo do povo o desarmamento. Mas tudo bem, façamos como na pior época da Revolução Farroupilha, em que se degolava para economizar bala… o resultado é o mesmo.

    Pronto. Dita a “palavrinha”.

    E aí, como vai Bora-Bora? Tudo bem por aí? Sarongue novo? 🙂

    • Eu não sei se é questão de ser politicamente correto ou incorreto nesse caso, mas acho que essas propagandas são mais ou menos como aquelas crianças que fazem birra porque sabem que os pais vão cair na delas. É um buraco pra cair, e a galera sempre comparece. Achei a ideia do comercial meio tolinha e clichê demais, mas estão aí os anúncios de cerveja, carro e produtos de limpeza com mais ou menos a mesma mensagem de ‘homem no comando, mulher na retaguarda’ e isso nunca impediu que eu fosse dona do meu nariz, né? 😉
      Bora Bora tá tudo de bom, apareça de quando em vez, quando cansar das granadas e metralhadoras!!! 😛

      • É, a Bagdálosfera anda me saturando a paciência. Não demora muito pra eu começar a usar de sarcasmo como ingrediente usual do blog… o que de certa forma seria tanto uma radicalização da idéia original quanto uma confissão de que a fórmula original não funcionou… Enfim, isso vai acontecer ou não de modo natural, sem premeditação.

        Agora, que o comercial é frquíssimo, isso é. Se as feministas não tivessem metido o bedelho, morreria em uma semana. Nem devia ter orçamento pra mais exibição que isso. A lógica de provocar as feministas para ganhar visibilidade de graça foi muito óbvia. E elas caíram, como sempre.

    • Hahaha, o Arthur é o Arthur – e vice-e-versa!
      Na dúvida? Ó, já li um (unzinho só) Paulo Coelho, estou terminando um Mauro Camargo e, até o momento, o segundo tá ganhando de balaiada… 🙂

    • hehehe, é verdade! Engraçado que só um livro dele e cheguei a começar outros dois, mas não fui pra frente. Ou não era meu estilo, ou não estava no clima pro tipo de livro que ele escreve. Mas já vi algumas boas entrevistas e, pra quem trabalha com línguas como eu, é interessante ver como ele se expressa com desenvoltura em outros idiomas. E vende horrores mesmo, então alguma coisa certa ele deve estar fazendo…

  2. Arthur, o politicamente correto já defendeu os pobre e oprimidos que podia, agora só serve para encher os pacovás de gente normal.
    Mauro, o Paulo Coelho faz isso tudo para vender, e além disso, teve a sorte grande de ter o Raul Seixas na melhor fase de sua carreira colaborando com ele, ajudou a criar uma “mística” barata.
    Mônica, adorei seu post e chorei de dar risada com aquela crônica. Não vejo nenhum insulto no comercial da Giselle, até o acho tolinho, na verdade. Risadinhas.
    Mas no dia em que se proibir os “funks brabos” que são tocados em altos decibéias pelas ruas, em frente às escolas infantis, e ex-pseudo-apresentadoras de programas infantis deixarem de tentar esconder o passado para vender CD’s, concordarei com o banimento de um comercial desse. Até lá, não.

    • Também não gosto da ideia de proibir o comercial. Primeiro porque, se for por essa estrada, então vamos ter que proibir um bocado de coisas por aí. E também porque acho que é uma boa oportunidade para as pessoas discutirem (civilizadamente, eu espero) questões como machismo, preconceito (e pré-conceito), limites do humor, etc. O problema nessas horas é que as pessoas estão sempre muito dispostas a mostrar seu ponto de vista, mas pouquíssimo interessadas em ouvir o que o outro lado tem pra dizer…

  3. Mônica! Sou um cara absolutamente aculturado em matéria de marcas de roupas ou acessórios pra qualquer sexo. Agora, graças à crítica (ou à provocação para receber uma crítica!), já sei que a Hope fabrica roupas íntimas para mulheres. E nem vi o comercial na TV… fui procurar no IUTUBE.

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