De mansinho

Bem que o moço da televisão avisou que ela daria o ar da graça a qualquer momento. Mas ela chegou tão quietinha, tão silenciosa, que eu custei a perceber, quando dei pela coisa ela já estava bem ali, do lado de fora. Quando saí de casa logo cedinho, antes das sete, a segunda-feira parecia normal, o céu cinzento mas de nuvens aparentemente altas, aquela manhã que prometia não ser nem muito quente, nem muito fria, o que era um alívio depois de um fim de semana absurdamente quente e seco. Só fui realmente notar a presença dela depois da primeira aula, já passava das 9, nem sei direito quando foi que ela começou. Mas foi muito bem vinda.  Caiu fininha, sem relâmpagos nem trovões, como convém a uma chuva que vem para aliviar a secura das plantas. Num minuto o cheiro de terra molhada dos vasos enormes do jardim de inverno do prédio, as folhas e flores ficando limpinhas depois de meses de poeira afastada à custa de muito aguar, as gotas respingando na janela. Pegou alguns desavisados de surpresa na rua, sem sombrinha e correndo para debaixo das marquises, causou uns probleminhas de praxe no trânsito, porque tem sempre um semáforo que pára de funcionar nessas horas e um motorista sem-noção pra achar que dirigir com chuva ou sem, é tudo a mesma coisa e, né, não é mesmo. Veio pra apagar os incêndios no mato, podia ter chegado no domingo, quem sabe assim aquele acidente feio que a gente viu na estrada nem teria acontecido… Mas espero que ela tenha vindo pra ficar, caindo um pouquinho de cada vez, mas com constância, até que o verde se restabeleça e os passarinhos que fugiram do fogo pro centro da cidade (gente, até tucano eu vi por aqui, e eu estou no meio dos prédios…) possam voltar pro mato e reconstruir seus ninhos. E assim, aos pouquinhos, devagarinho, talvez as coisas consigam voltar aos seus devidos lugares.
***

Anúncios

11 respostas em “De mansinho

  1. Ínteressante como São Paulo e BH são tão diferentes e tão iguais… também fico aqui torcendo para que a chuva chegue de mansinho, limpando o ar, a sujeira da metrópole que o pobre (e o não tão pobre) faz questão de atirar de lado por pura preguiça e intensa pressa… saudade garoa amiga que nos dava um ritmo mais altivo e uma galhardia que não voltará jamais… abração, Monica!

    • Pois é, Jeremy, a gente precisa dessa chuvinha fina e constante pra limpar tudo e entranhar na terra… Temporais eu tou dispensando, eles causam muita confusão mas ajudam muito pouco. Hoje o céu já amanheceu limpo de novo, espero que pelo menos a chuva que caiu ontem tenha dado um alívio pras plantas. Não tem mangueira que dê conta do serviço, os jardins precisam mesmo é da água da chuva.
      abraço!

  2. Mônica,
    leio sua excelente crônica já na terça-feira, dia 4, no meu esconderijo em BH.
    Céu limpo e sol que promete restabelecer parte do calor absurdo do final de semana, principalmente do domingo.
    Vou consultar meus três oráculos e depois informo pra você se ela, a divina chuva, veio mansa e definitivamente, ou se somente fez uma visita pro cafezinho, sem direito pão de queijo.
    São três mandacarus enormes nas imediações de onde moro e que, quando “fulorem”, como na música Xote das Meninas, são o sinal que a chuva chega no sertão.
    Tenho convivido com eles há uns dez anos e não há a menor dúvida: se botarem flores pra fora, podem procurar suas capas e guarda chuvas (sei lá como se escreve isto hoje) que “evém” chuva, senhores!
    Beijo

    • Mantenha-nos informados quanto aos acontecimentos da vizinhança e dê o toque de alerta ao menor sinal de flores nos mandacarus! Antigamente as cigarras eram ótima indicação da virada do tempo, mas acho que hoje em dia elas também estão perdidinhas…
      bjk

      • Moninha,
        meus oráculos ainda não me garantem nada, acho que devem estar tão malucos quantos as cigarras, que danaram a cantar aqui no meu minifúndio e agora pararam.
        Fico pensando, será que as andorinhas virão do Canadá pra veranear em Terra Brasilis?
        Tá osso!
        Beijoca,

  3. Hoje, aqui em Sampa o friozinho e nuvens cinzas prometem chuva fina e, talvez, curta.
    Estou torcendo muito para que os mandacarus daí floresçam rapidinho para que as cobras não tenham que morrer no cimento como a da imagem que vi do entorno de BH.
    Compartilhei seu lindo texto e imagem sobre a chegada da preciosa chuva.
    Abraço, Leda.

    • Aqui o tempo deu uma abridinha de novo, resta saber se a chuva foi só amostra gratis ou se é pra valer mesmo. Os bichos estão fugindo do mato, foram vários incêndios na serra e nos parques ao redor da cidade, uma tristeza. O pior é que eles não têm muito pra onde ir, ou é o fogo, ou o asfalto, tadinhos…
      Obrigada e fique à vontade pra compartilhar o que estiver por aqui!
      bjk

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s