O fácil, o simples, o difícil e o complexo

Cheguei no hall na hora em que a porta do elevador fechava, corri mas não deu tempo. Agora era esperar uma eternidade, ele subiria devagarinho, abrindo a porta em todos os andares, um por um, e desceria parando o tempo todo também, elevador velho, já viu como é. Ainda bem que eu não estava com pressa – eu até iria de escada, se não estivesse carregando um bocado de livros. O moço parado ao meu lado olhou para a pilha e me perguntou se eu era professora. E emendou com uma expressão desconsolada: “Eu já tentei estudar inglês antes, mas acho que aprender outra língua é muito difícil…” “Não”, eu disse. “Aprender outra língua não é difícil, só é complexo.”

Já falei isso pra um monte de gente, algumas demoraram a pegar o espírito da coisa. Para mim, fácil, simples, difícil e complexo são coisinhas bem diferentes. Fazer uma sopa instantânea, por exemplo, é fácil e simples. Você coloca a água pra ferver, despeja o conteúdo do pacotinho na caneca ou em uma tigela, a água ferve, você despeja e mistura tudo, voilà. No outro extremo, montar um reator nuclear certamente é difícil e complexo. É necessário um batalhão de gente com conhecimentos super especializados, equipamentos precisos e sofisticadíssimos, não é pra qualquer um não. Algumas coisas podem até ser difíceis, mas o grau de complexidade nem é lá essas coisas. Tente correr os dedos pelas teclas do piano, por exemplo, das mais graves às mais agudas e de volta, o mais rápido possível mas sem alterar o ritmo, e passando por todas as teclas, pretas e brancas, sem pular nenhuma. Não é fácil, requer muita prática, mas tudo que você precisa é de um piano e alguns dedos da mão direita, nem precisa usar todos os cinco.

Aprender uma língua, eu disse pro moço, não é difícil. Você até já aprendeu uma e é cem por cento fluente nela. Se tivesse nascido em qualquer outro país do mundo, falaria a língua local igualmente bem. É claro que algumas circunstâncias podem dificultar um pouco ou muito – uma deficiência visual ou auditiva, por exemplo – mas de um modo geral todos nós viemos ao mundo prontinhos pra comunicar através de uma (ou mais de uma) língua. O probleminha é que essa é uma operação danada de complexa. Você tem que dominar aspectos da estrutura (o português tem masculino e feminino, russo tem declinações, alemão coloca o verbo lá no final da frase), um mundaréu de vocabulário (de partes do corpo a expressões idiomáticas e gírias), entender os graus de formalidade e informalidade, ser capaz de ler e escrever textos diferentes (cartas, artigos, receitas, mensagens), entender o que as pessoas dizem, e as pessoas têm sotaques, conversam em lugares barulhentos, algumas falam tão rápido que a gente fica na torcida para passar uma legenda pra ajudar. Você tem que entender como os sons são articulados, tem que ser capaz de articular esses sons (sendo que alguns nem existem no português, o que poderia dar uma mãozinha), saber como eles se traduzem em letras, algumas bem diferentes das que usamos no nosso alfabeto, e como as combinações de letras podem resultar em sons idênticos, parecidos ou completamente diferentes. E ainda tem que encaixar todo esse quebra-cabeça maluco em um contexto cultural que pode te preparar um monte de pequenas armadilhas. Bota complexo nisso! Mas difícil, difícil mesmo, não é não.

O moço me pareceu um cadinho mais entusiasmado depois da explicação. Talvez porque, sei lá, a gente se sinta mais valente e com disposição para enfrentar o que é complexo do que o que é difícil, difícil dá uma preguiça enorme, a impressão é que não vamos sair do lugar nem com reza brava. O complexo tem aquele gostinho de desafio, de quebrar a cabeça, de atacar por vários flancos até dominar o ‘inimigo’. Não sei se ele se encheu de ânimo o suficiente pra dar mais uma chance ao inglês, ou quem sabe começar com o espanhol e ir se aventurando aos pouquinhos, não sei, nunca mais o vi no hall do prédio. Tomara que sim. Poucas coisas podem ser tão complexamente divertidas quanto a comunicação em uma outra língua.
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6 respostas em “O fácil, o simples, o difícil e o complexo

  1. Cara, a sensação que você tem quando ouve alguém conversando em outra língua e, pela primeira vez, entende o que ela está dizendo sem precisar de legenda é indescritível! Parece assim que se abre a porta de um novo mundo pra gente, cheinho de possibilidades! Depois que aprendi inglês, achei que nunca mais teria essa experiência de novo… até sair das aulinhas de francês, ver a entrevista do Charles Aznavouz no Jô e… entender tudo!

    • Não é uma delícia, Mercedes? Tou precisando dar uma faxina no meu francês, tá uma poeira de dar dó. Eu já fui bastante fluente, era até besta de pular dele pro inglês e daí pro português e continuar a conversa como se fosse a coisa mais natural desse mundo, hoje não dá mais não… Mas eu adoro esse trabalho quase de detetive de sair por aí tentando entender o que os outros estão dizendo, o que está escrito nas placas, que som é de qual língua. Uma vez estava no metrô em Londres e fiquei super feliz porque estava entendendo absolutamente TUDO que um pessoal do meu lado estava conversando, fiquei super orgulhosa de mim – até que percebi que estavam falando português!!! Já estava tão acostumada que nem me dava conta de uma língua ou da outra… 🙂

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