Doze coisas

Minha mãe fazia aniversário num dia, meu pai no dia seguinte e a gente brincava que eles tinham se casado pra economizar na hora da festa. A casa era grande, as famílias enormes e os amigos, muitos, então nenhuma comemoração (ou bebemoração) passava em branco, e a qualquer hora, em qualquer dia da semana, tinha sempre alguém entrando ou saindo de uma visitinha. A lembrança deles nesses dias fica ainda maior, principalmente naquelas coisinhas pequeninas, detalhes aparentemente sem muita importância, mas que são tão gostosos de recordar.

– Para todo e qualquer momento de aperto e afilção, minha mãe se pegava com as almas do purgatório. Dizia que elas estavam sempre precisando de oração, então pedia pra elas e elas atendiam (até porque era impossível dizer ‘não’ pra minha mãe, a criatura mais doce desse mundo). A gente ia fazer prova na escola, alguém estava com cirurgia marcada, sumiu algum documento importante, lá ia o pedido, ela até colocava o ‘nome’ delas nas intenções da missa, eu falava que era pra já ter crédito. Não sei como ficaram as coisas depois que o papa deu na cabeça de baixar um decreto suspendendo as atividades do purgatório mas, até então, minha mãe deu um bocado de serviço pra elas.

– Meu pai era professor e tinha a mania de conversar em pé. Isso, aliás, é hábito até hoje de toda a família, mas ele era engraçado porque, se estava sentado e a gente ia conversar ou discutir qualquer assunto, ou fazia qualquer pergunta, ele imediatamente se levantava, como se fosse começar uma aula.

***

– Minha mãe era a pessoa mais distraída desse planeta. Colocava a água pra ferver pro café e esquecia, ia fazer outra coisa longe da cozinha e de repente exclamava ‘ai meu Deus!’, corria e a vasilha já estava seca e preta no fogão, aquela fumaça toda. Dizia ao telefone ‘péra aí que eu vou buscar o número da fulana pra te passar’, no caminho via outra coisa para fazer e pronto, nem lembrava mais da ligação, de repente alguém passava e via o aparelho fora do gancho, era só falar ‘mãããe’ e ela ‘ai meu Deus, esqueci a beltrana no telefone!’. A vizinha ligava pedindo carona, ‘claro, sem problema, passo aí em dois minutinhos’, ela saía com o carro da garagem e ia pra um lado e a casa da vizinha ficava pro outro, só lembrava quando já estava no meio do caminho. Desligava o celular no on/off, esquecia que era só encerrar a ligação. Era assim.

– Meu pai adorava café com bolo, esses bolos de caixinha mesmo, nem precisava de nada muito elaborado não. Dava umas cinco da tarde no sábado e ele batia no meu quarto, abria a porta só um pouquinho e perguntava: ‘já tomou o trigésimo-nono cafezinho?’ Ele sempre escolhia um número grande, o quadragésimo-quinto, o vigésimo-sétimo, e lá ia a família toda tomar café na cozinha, aquele cheiro delicioso de bolo que acabou de assar.

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– Minha mãe gostava de todo mundo e não falava mal de absolutamente ninguém. Pensa numa pessoa insuportavelmente chata, mamãe com certeza ia te dizer ‘ah, mas também não é assim, ela tem isso e isso de bom…’. Depois descobri que, se não gostava de alguém, simplesmente não falava nela, era como se a pessoa não existisse. Um dia, na mesa do almoço, comentou que a filha de um colega de trabalho ‘era assim, meio chatinha’. Silêncio total na mesa, todos em choque, até que um amigo comentou; ‘nossa, essa mulher deve ser uma megera, porque todo mundo que a gente acha um porre, a senhora acha alguma coisa de bom…’ Ela imediatamente se corrigiu: ‘não, mas também não é assim, ela tem lá suas qualidades!’ Não tinha jeito.

– Meu pai fazia o maior sucesso com a meninada, porque ‘fazia cineminha’. Pegava uma folha e dobrava ao meio, desenhava um bonequinho tocando violão ou jogando futebol, na dobra seguinte modificava um pouquinho o desenho e dava a folha pra gente ficar mudando a página com o dedo, e o desenho se mexia. Outro dia alguém me contou que tem guardado até hoje um cineminha que meu pai fez há mais de trinta anos, olha só que coisa.

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– Minha mãe adorava festa. Aniversário, casamento, batizado, formatura, primeira comunhão, qualquer uma. Não perdia nem velório, que era uma chance boa de encontrar a família e os amigos, e ela dizia que a gente deve se fazer presente nos momentos difíceis também – e ela estava certíssima. Se a gente quer as pessoas na vida da gente, tem que estar na vida delas também.

– Meu pai registrava tudo em fotos e gravações. A quantidade de fitas de rolo, cassete, slides, filmes em Super 8, vídeos e fotografias que a gente tem como registro das nossas vidas é um assombro. Desde os momentos mais importantes até aqueles do dia-a-dia, as coisinhas à toa, conversas jogada fora – eu achava engraçado mas hoje eu me sinto como se tivesse disponível um HD externo com a minha vida toda em áudio e imagem. Genial.

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– Depois que mudei pra minha própria casa, minha mãe me ligava todos os dias, mesmo quando a gente se encontrava na hora do almoço – eu sempre almoçava com ela. Era só mesmo para saber como tinha sido o meu dia, as aulas, se o trânsito estava pesado, ou então para contar algum caso do trabalho. Às vezes eu demorava um pouquinho mais pra chegar em casa e tinha recado dela na secretária eletrônica, sempre começando com ‘ei minha filha, sou eu!’. Até hoje, quando chego em casa e vejo a luzinha piscando, acho que é ela deixando mensagem.

– Agendas. Essa era uma das grandes manias do meu pai. Anotava tudo nelas, compromissos, telefones, citações, gráficos de não sei das quantas, discos e livros que queria comprar, um comentário que alguém fez, desenhos. No final do ano não jogava fora não, escrevia o ano na capa e ‘arquivava’ na prateleira de uma das muitas estantes da biblioteca. E era consumidor voraz de canetas marca-texto, destacava palavras e frases e fazia anotações nas laterais da folha e nos pés-de-página. A gente sabia se ele já tinha lido um livro pelos rastros de caneta que deixava quando lia.

***

– Minha mãe nunca saía de casa sem seu triunvirato de beleza: batom, perfume e brincos (mas, distraída que era, às vezes colocava brincos diferentes em cada orelha, só notava muito depois ou quando alguém comentava). A gente brincava que era uma boa ideia, né, vai que você está, sei lá, na fila do banco ou a caminho do sacolão, tocam as trombetas do Apocalipse e você vai ter com o Criador no Juízo Final sem nem um batonzinho ou um pente no cabelo? Pode não.

– Meu pai era curioso com absolutamente tudo. Seguramente, foi o primeiro tudista que eu conheci. Tudo era interessante, tudo valia uma investigada, nunca deixava passar qualquer oportunidade de conhecer algo novo. Lia dos clássicos aos best-sellers, ouvia de Bach a Led Zeppelin, assistia de Fellini a George Lucas, gostava de conversar sobre qualquer assunto, dos mais sérios às maiores bobagens. O mundo e as pessoas lhe eram profundamente fascinantes.

Tem gente que acha que, pra gostar de A, não pode gostar de B, se optar por estar do lado X, não vai poder dar nem uma espiadinha no lado Y. Bobagem. Aprendi com meus pais que, com poucas e raras exceções, as coisas nessa vida não são OU. Elas são E. E isso é que dá a maior graça a tudo.
***

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47 respostas em “Doze coisas

    • Obrigada, Adrina. São lembranças muito gostosas que eu tenho dos dois, estava guardando aqui comigo, mas pensei que as pessoas iriam gostar também. Porque, né, todo mundo tem lembranças boas de quem gosta muito, e geralmente são essas coisas pequeninas do dia-a-dia, mas que fazem a vida da gente ter todo sentido…

    • Olha, confesso que é família da melhor qualidade, Ana! 🙂
      São milhões de histórias, casos engraçados, curiosidades bacanas, e a gente fica nesse corre-corre e às vezes se esquece de curtir essas coisinhas que deixam a vida da gente mais leve, né?

  1. Também fiquei muito emocionada!! rs Que gostoso ler essa descrição de seus pais, nessa forma tão doce que você tem de escrever!!

    • Obrigada, Priscila! Os dois eram mesmo pessoas muito especiais, não só na minha vida, mas na dos que conviviam com eles também. Bem que podia ter sido mais tempo, mas enquanto os tive por perto, ‘aproveitei’ demais! 🙂

  2. Que delicadeza de texto, Mónica. Quem teve a experiência de conviver com eles ou ouviu quem conviveu de perto sabe que eles deixaram uma marca profunda onde passaram. Acredito que mais do que a personalidade de cada um, o amor e a felicidade partilhados na convivência a dois foi definitivo nessas marcas. Casos raros, mas que graças a Deus ainda vão preenchendo este mundo…
    Beijos,
    Ana

    • Com certeza, Ana. e estar com eles por perto era sempre uma festa. Sabiam dosar muito bem essa história de serem pai e mãe e amigos da gente (e dos nossos amigos) ao mesmo tempo. Aprendemos muito com eles e nos divertimos muito também!
      bjk

    • Ah, e eles adoravam você, né Lud? Papai te achava o máximo e você era aquele toquinho que gostava de ir lá pra casa. Imagino como eles ficariam hoje vendo o tanto que você está brilhando em tudo que faz!

  3. É isso tudo mesmo… né? Chorei, não tem jeito!… Mas só no finalzinho… hehe.
    Queria ‘ler’ o que o Evando acha desse texto (é tanta Vida, desde cedo, com os dois, repartida com ele, né?)!
    Bjins.

    • hehehe, tudo isso e mais um cadinho, né? Vixe, olha que eu tenho um outro post que escrevi já faz mais de ano e ainda não publiquei. Acho que vou ter que esperar passar um periodozinho de carência então… 😛
      bjk

  4. Aposto que seus pais tiveram um círculo de amizades bem grande e verdadeiro. Caso tivessem se conhecido, minha mãe e a sua seriam amicíssimas, quase irmãs, porque são muitas as afinidades: as orações, a função de agregadoras, o cuidado com a prole e , mais que tudo, as distrações: minha mãe já saiu de casa com a toalha de banho molhada, pendurada no ombro; já fez tutu de feijão com ração para peixe; já foi à missa com um sapato de cada cor – e modelos diferentes…
    É realmente uma bênção conviver com gente assim – somos umas sortudas!

    • Menina, não é que nossas mães então eram gêmeas separados no nascimento? 🙂 Adorei as histórias que você contou! E o engraçado é que mamãe morria de rir das trapalhadas dela, mesmo quando a gente caía em cima! Ela perguntava pro médico se essas ‘voadas’ podiam ser um sinal de Alzheimer, ele ria e dizia que não, que Alzheimer é progressivo, e ela era assim desde sempre… 🙂
      Disse tudo, é uma benção conviver com pessoas como nossos pais.

  5. Como sempre fantastico seu texto. A forma como escreve dá a sensação de estar vendo as cenas, participando de tudo. Adorei “conhecê-los “

    • Nossa, Denise, são muitas mesmo, fica até difícil selecionar. Eu ia escrevendo e me lembrando de um monte de casos, cada um mais interessante que o outro… Sem dúvidda, vale super a pena essa vida!
      bjk

  6. Pois é. Neste ano, como todo ano, festejei feliz, mais uma vez, os dois aniversários, pensando em todas as gostosuras que vivi com eles, e com vocês, e que fazem parte dos meus tesouros mais vivos e mais presentes. Aliás, sempre achei graça no trenzinho dos aniversários da família, trenzinho que começava em julho, atravessava agosto e setembro, todo festeiro, para fechar o ciclo quando outubro florescia. Uma alegria só. Passear pelo texto da Mônica, Paulo, foi reencontrar delícias e mais delícias, muito caras ao coração, regadas a café com bolo, flauta e cavaquinho, irreverência à vontade e uma conversa – felizmente – interminável. Cláudio já havia observado que arranjei um jeito de distribuir esses momentos ao longo do meu livro – e acho que são o melhor do que está ali. Nem podia ser diferente. Aquelas foram, e são, as coisas realmente decisivas. E saborosas… Muitos beijos

    • E não é uma delícia lembrar tudo isso? São memórias da melhor qualidade, e que bom que você também é parte de tantas delas! Nosso domingos de manhã com café e biscoito, as emocionantes pelejas de futebol no campinho, as longas conversas nos finais de semana na mesa da sala de jantar, quando falávamos de coisas sérias e muitas outras bem pouco sérias, é muita coisa! E é mesmo muito gostoso poder compartilhar pelo menos uma parte disso tudo com todo mundo por aqui…
      bjk

  7. Desse texto, belíssimo por sinal, guardo a delicadeza sem fim de suas palavras.
    Desse texto, guardo a certeza de que teria gostado de conhecê-los, seus pais.
    Desse texto guardo um largo sorriso encerrando uma semana que, começando festiva se foi tornando taciturna.
    Grato por ele, Mônica…

  8. depois de umas semanas intensivas de trabalho profano (dentista) consegui ficar um pouco aqui e vi que perdi várias boas postagens… volto no fiim de semana…
    ah, mas esta última… menina, ainda to com as lágrimas se espalhando…

    • Já estava achando que você estava em Carcassone, tomando um ‘chateau du Valisère’, como disse alguém no Twitter outro dia… 🙂
      Volta sim, por aqui é tudo na base do non-stop!
      ‘brigada e bjk!

  9. Moniquinha,
    não sei o que falar.
    Depois você aproveita o tema “não-sei-o-que-falar” aqui e escreve uma crônica bem tudista para me ensinar a resposta?
    Seu aluno imaginário…

  10. Lindo, lindo, lindo texto, cheio de amor e ternura, e, claro, é uma forma de dizer “te amo” tão delicada, tão emocionante… obrigado por ter tido a felicidade de partilhar essas memórias, tão tuas, conosco…
    Ah, gostei do “tudista”, acho que sou meio assim… risos…

    • Obrigada, Jeremy. Eu às vezes hesito um pouco em postar coisas mais pessoais – não por receio, mas porque acho que minha vida é aquela vidinha de todo mundo, nada de novo no front… Mas de repente é aí que reside a graça da coisa, né?
      Eu já vi que tem um bocado de tudistas lendo o blog, aparentemente somos muitos! 🙂

  11. Mô, passei a semana em que você postou esse texto desconectado, até que, no sábado passado, a Ruth comentou que leu um texto seu que a emocionou muito. Pois eis que, exatamente uma semana depois, leio o dito e, também, me emociono com as saudades e lindas lembranças de Marinex e Jerez… Agora tenho um link ao qual direcionar as pessoas que me perguntam dessas criaturas sensacionais que nos agraciaram com suas presenças marcantes e que eu nunca consigo descrever de forma justa. Valeu!!!

    • Nossa, tou precisando de férias, a última vez que saí por mais de uma semana foi há três anos (mas foi Irlanda e Inglaterra, né, caprichei, hohoho…). Pois é, você conhecia muito bem a dupla, imagino que também tenha muitas outras lembranças dos dois! São coisas muito divertidas de lembrar, milhões de histórias e ‘causos’, fotos, tudo… Que bom que gostou desses aqui também!
      bjk

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