Passando a sacolinha

O comércio aqui das montanhas completou esta semana seis meses sem as famosas sacolinhas plásticas. Agora, para suas compras no supermercado, é necessário levar seu próprio carrinho de feira, caixa ou sacola (lembra daquelas listradas que sua avó levava pro mercado? pois pode procurar aí pela casa que agora tem serventia!), ou então desembolsar a quantia módica de 19 centavinhos de real por sacolinha biodegradável ecofriendlyübermegablaster. Porque antes era assim, cada uma delas saía por seis centavos, os donos dos estabelecimentos, naturalmente, embutiam esse valor nos preços dos produtos e pronto. Como não percebi nenhuma redução de 6 centavos no preço de coisa alguma nos supermercados, sacolões e similares que frequento por aqui, acho que é seguro deduzir na minha matemática que cada nova sacola está custando, na realidade, 25 centavos: os seis de antes mais os dezenove de agora.

No plano individual, essa mudança me afetou muito pouco na prática. Sempre fui às compras com um daqueles engradados retráteis, que vive eternamente no porta-malas (ou portamalas? maldita reforma ortográfica…) do meu possante. Às vezes pegava uma sacolinha plástica para ajudar a embalar alguma coisa ou quando o produto tinha risco de vazar, mas sempre fui bem comedida no uso delas. Hoje, além desse meu engradadinho multicolorido, utilizo também as sacolinhas bonitonas com design do Ronaldo Fraga – além de serem ecologicamente corretas, possivelmente é a minha única chance de ser tendência fashion e sair pelas ruas exibindo um autêntico Ronaldo Fraga. E como também sempre fui adepta dos três R (Reutilizar, Reduzir e Reciclar), imagino que a quantidade de lixo que eu produzo aqui no meu château seja até bem pequena se comparada a outros das redondezas, com muito mais gente e menos preocupação com essas coisinhas mundanas.

Mas, como sói acontecer (rá, eu aqui, esperando uma ocasião para usar essa expressão, e eis que ela se apresenta!), algumas ideias potencialmente boas são geralmente acompanhadas de uma execução danada de meia-boca. Os nossos intrépidos vereadores chegaram à brilhante conclusão de que essas sacolinhas poluem, entopem bueiros, levam séculos para virar poeira cósmica e, não sendo lá muito resistentes, ainda ajudam a espalhar o lixo. Tudo verdade. Qual a solução? Proibamos, pois, as malvadas. Só que as pessoas também usavam essas sacolinhas nas lixeiras de cozinha e banheiro, e isso significa que hoje nós temos que adquirir sacos de lixo comuns, confere? Que, é lógico, são tão poluentes quanto as boas e velhas sacolinhas do armazém do sêo Zé, porque não são biodegradáveis. Houve um aumento no número de sacos circulando por aí – e consequente aumento de preço, porque os fabricantes não iriam deixar passar a oportunidade de uma faturada extra, né – o consumidor ficou sem a sacolinha de seis centavos, agora paga 19 mas ainda paga os seis de antes, e ainda tem que comprar os sacos de lixo que, no final das contas, também fazem parte do problema. Olha, ou eu tou doida, ou tem alguma coisa esquisita nessa contabilidade aê. Aliás, a conta está certinha, a gente é que tem essa mania tolinha de achar que a Câmara dos Vereadores é composta por senhoras e senhores minimamente interessados no bem estar da população que, afinal de contas, os colocou lá…

Resolver um problema da esfera pública costuma ser assim, né, um equilíbrio tênue entre ônus e bônus. Ou seja, o ônus pra nós, o bônus pra eles (looonge de mim sugerir que alguém estaria levando vantagem com essa troca, quêqué isso, essas coisas não acontecem por aqui). Ampliar o programa de reciclagem de resíduos nesta cidade, criar novos centros de triagem, educar a população, yadda yadda yadda, isso tudo dá uma trabalheira enorme, vamos só proibir as tais sacolas plásticas e já tá de bom tamanho.

Mas, pra não deixar nossos legisladores macambúzios e sorumbáticos, tristinhos da vida com a perspectiva de serem responsabilizados integralmente por tanta trapalhada, vamos ao lado B. A verdade é que a população também não ajuda nem um pouco. Todos os supermercados que eu frequento (até parece que eu ‘frequento’ supermercados, mas vá lá) possuem contêineres pra reciclagem de lixo: papel, metal, plástico, vidro, embalagens tetrapak, alguns até pilhas e óleo. Toda semana passa o caminhão da prefeitura recolhendo o lixo reciclável nas casas (o programa ainda é incipiente, mas vamos brincar de ser otimistas). Mesmo com essas iniciativas, eu ainda vejo uma quantidade enorme de material reciclável misturado ao lixo orgânico convencional. E se isso acontece nos bairros de classe média e alta por onde circulo, em tese regiões onde a conscientização deveria ser maior e onde existem meios para a coleta seletiva ‘pegar’, imagina então como deve ser no restante da cidade. Mesmo sabendo que o programa de reciclagem é ainda mínimo e falho, continuo fazendo a minha parte e constatei, ao tentar reduzir o volume de lixo doméstico, que ainda dava pra espremer e incluir algumas embalagens que às vezes, por pressa ou preguiça, eu simplesmente jogava fora. Não sou lá muito boa em porcentagem, mas posso te garantir que o que hoje mando para o caminhão de lixo é bem menos do que costumava ir há seis meses.

O resultado final é que o consumidor, que arca com o prejuízo, reclama com razão dessa turma que inventa e aprova leis pela metade, e a administração municipal argumenta que a população não faz a sua parte, gerando mais gastos. E como capacidade de argumentação e bom senso há muito deixaram de ser matérias obrigatórias nessa vida, as coisas vão sendo levadas na base do empurra-empurra e do cabo-de-guerra, pra ver quem sai ganhando. Nem desconfiam que, nessa história, só existem mesmo perdedores.
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6 respostas em “Passando a sacolinha

  1. É deveras triste, Monica. Aqui em SP a lei começará a valer a partir do final do ano. As sacolas plásticas de lixo já aumentaram de preço, por conta da futura demanda. Poucas pessoas ainda se deram conta que a lei, com a desculpa de respeitar o meio-ambiente, gerou uma fonte de renda para a indústria de plástico, que vinha sendo pressionada por todo lado.
    Vejo pouca reclamação nos bairros classe média, e nenhuma nos bairros pobre que conheço. O problema será empurrado com a barriga, como sempre…

    • Engraçado, né Jeremy, que mesmo vendo o exemplo daqui, o pessoal daí não se tocou… Diminuir o lixo plástico não é problema, só que não se criam condições para, primeiro, aumentar o volume de reciclado, com programas específicos; segundo, para fazer com que a alternativa (sacos de lixo convencionais) resolvam a questão. É tudo pela metade e, pior, é pela metade de propósito.

  2. aqui em sampa também fizeram uma lei dessa, que entra em vigor no ano que vem, acho. Claro que os supermercados já estão vendendo umas sacolas lindas, biodegradáveis, autosustentáveis, ecológicas e outras bobagens marketeiras desse tipo. E claro também que essas sacolas já eram vendidas antes só que agora, surpresa, estão mais caras. Como a gente vai esquecer a sacola em casa quando for ao mercado, vamos ter coleções de sacolas daqui pra frente. e, para o lixo e tal, como você já falou, vamos comprar os mesmos saquinhos que eram de graça (como você também já falou, de graça nada, pagávamos por elas)
    Mas é tudo pelo “bem do planeta”. Eu fico emocionado com a grandeza cívica e a consciência ambiental dos nossos políticos.

    • Eu tenho uma sacola ‘default’ no porta-malas do carro, junto com o meu engradado desmontável. E uma que fica em casa, para qualquer emergência. Pelo menos aqui, onde faço compras, o preço ainda é o mesmo de antes, mas é isso aí, a gente só vai acumular gastos. O que é chato é que eu acho que dava pra se chegar num meio-termo (porque com certeza o consumidor também poderia colaborar mais com a coleta seletiva), mas a administração pública só quer marketing e tostões no bolso. Aí fica difícil…

  3. Pois é, nada disso é solução. (Aliás, alguém já investigou se tem senador, deputado ou congenêres donos de indústria de plástico?) Eu soube, de ler por ai, que existe uma sacola feita de amido que é totalmente degradável. Mas, cadê isso? Nunca vi. Será que é lenda? Se existe solução seria essa, não é? Um material que se degrade naturalmente sem sequer precisar de processo de reciclagem.

    • Também já ouvi falar delas, mas só por alto. Se for uma solução mesmo, então a chance de ser adotada é mínima… 🙂
      Ah, não deve ter ninguém envolvido com a indústria do plástico não, são todos gente muito digna e correta… 😉

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