Onqofui: Lourdes

É aquela velha história, né, never say never. Na minha lista de prioridades turísticas, a cidade de Lourdes, encravada nos Pirineus franceses, estava lá embaixo, bem no fim da fila. Eu nunca me considerei uma pessoa particularmente religiosa, pelo menos não no sentido mais tradicional da palavra, daquelas que frequentam missa, seguem a cartilha da Igreja ou citam de cabeça passagens da Bíblia. Portanto, visitar uma cidadezinha conhecida por ser um local de peregrinação não tinha, a princípio, nenhum apelo especial para mim. Mas sempre guardei um grande interesse pelas religiões, ou melhor, pela maneira como povos de diferentes culturas expressam a sua fé e como essa expressão se materializou através dos tempos em forma de templos, pinturas, imagens, música, rituais e ideias que, no final das contas, são bem mais próximas umas das outras do que muitos grupos gostariam de admitir.

E foi assim que no final da tarde de uma sexta-feira de outubro há um pouquinho mais de onze anos, lá fui eu parar em Lourdes meio que por acidente, num pequeno desvio de itinerário no trajeto entre Carcassonne e Avignon. Quer dizer, eu e milhares de peregrinos que já haviam desembarcado na cidade desde cedo de trem, ônibus e carro em caravanas intermináveis, e agora lotavam hotéis, pousadas e os pequenos restaurantes da cidade. As dezenas de lojinhas da rua principal que leva ao santuário vendiam, naturalmente, artigos religiosos de todo tipo, das imagens imensas a pequenos terços e medalhas e garrafinhas para as pessoas recolherem água da nascente da gruta que, dizem, é milagrosa e nunca secou, nem mesmo nos períodos de estiagem mais longos.

Deixei para seguir a Procissão das Tochas (gente, eu seguindo procissão, imagina!) do sábado à noite, que imaginei ser a top de linha nas paradas de sucesso, e aproveitei o dia para explorar os arredores. Para minha gratíssima surpresa, eram várias opções – o Château-Fort (um castelo fortificado que data do século XI), lindíssimo; as grutas de Médous (abertas entre abril e meio de outubro, e que a gente visita de barquinho); um passeio ‘morro acima’ no funicular do Pico do Jer, a mil metros de altitude, e de onde se tem uma vista incrível dos Pirineus; o Musée du Petit Lourdes, uma miniatura da cidade como era em 1858; e, claro, o circuitão dos peregrinos (museus, o santuário e a gruta onde a Virgem apareceu para Bernadette e seus irmãos, e onde são rezadas missas praticamente non-stop, sempre em línguas diferentes)

Mas foi a energia em si do lugar, aliada à beleza estonteante dos Pirineus, que fez do passeio a Lourdes algo realmente especial. Uma paz e tranquilidade que poucas vezes experimentamos quando estamos pulando de cidade em cidade, tentando fazer nosso tempo render o máximo possível na viagem, uma sensação de que ali as horas correm diferente, noutro ritmo, e que as pessoas compartilham dessa mesma sensação. À noite são milhares de peregrinos no santuário, milhares de velas acesas enquanto no microfone alguém ‘puxa’ o rosário nas línguas de todas as caravanas presentes naquele momento, gente de maca, cadeira de rodas, tudo incrivelmente calmo e organizado, mas profundamente tocante. Fiquei na esplanada um tempo, depois subi ao adro da igreja para fotografar aquele mar de velas e gente. Ao final da procissão, as pessoas iam saindo em silêncio, tranquilas e em paz, e eu voltei para o meu hotel pensando que alguns desvios de rota nessa vida podem parecer inexplicáveis a princípio, mas são muito bem vindos quando bem acolhidos. Eu nunca teria visitado Lourdes por minha própria conta, mas fiquei muito feliz em ter, por desejo de outra pessoa, ido parar lá naquele fim de semana de outubro.
***

***

Anúncios

4 respostas em “Onqofui: Lourdes

  1. Há alguns anos estive em Juazeiro do Norte, que também não estava na minha lista de lugares a conhecer. E, curioso, tive sensação parecida. Tenho pavor de lugares de peregrinação religiosa de qualquer religião, sempre caio sem querer numa sala de ex-votos e fico deprimido pelo resto do dia. Acho tudo meio com cara de feirão da fé, exploração da devoção alheia. Preconceito meu, eu acho. Juazeiro do Norte não me passou esta idéia. Nem era período de romaria, foi um dia útil comum e foi tocante ver a fé das pessoas rezando nas missas, estando em um lugar especial para eles. Deu a impressão que pelo menos naquele local, naquele momento e pelo menos no sentido espiritual elas se sentiam sentadas no colo de Deus, protegidas e acolhidas. Foi muito bonito.

    E olha que Juazeiro do Norte nem fica nos Pirineus….

    • São incríveis as surpresas que se tem visitando alguns lugares, né? E é curioso ver também que tem gente que simplesmente se recusa a ir a um lugar assim, já com prevenção, sem nem dar uma chance… A sensação foi bem essa mesmo, a de estar sentada no colo de Deus – ou, no caso, da Mãe, que também dá um conforto danado (religião à parte, quem não se sente protegido e acolhido nos braços dos pais, né?) Foi uma experiência muito bacana mesmo, que me deixou muito feliz. Com certeza teria acontecido o mesmo em Juazeiro do Norte!

  2. Não fui a Lourdes e ainda, também, a Juazeiro do Norte.
    Mas vocês dois escrevem tão bem, a descrição que fazem é tão apaixonante que agora minha lista de lugares a conhecer aumentou.
    Abraço.
    Leda

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s