A tal da seta

Existem muitas coisas que as pessoas deveriam fazer nessa vida e não fazem – dormir 8 horas por noite, comer mais fibras, avisar que vai chegar atrasado, não procrastinar. E, pelo menos no trânsito aqui nas montanhas, dar seta. Sabe aquela alavanquinha que fica logo do lado do volante, e que quando a gente aciona pra cima ou pra baixo acende uma luzinha do lado de fora do carro, sinalizando pros outros que você vai pra direita ou pra esquerda? Pois é, por aqui ninguém usa. Quer dizer, tem um monte de outras coisas que as pessoas por aqui fazem ou deixam de fazer no trânsito e não deviam, mas essa eu acho curiosa. Porque, né, a seta é item de fábrica, vem em todo carro, sem exceção, tá ali ao alcance da mão, é só esticar o dedo pra movê-la de um lado pra outro, não desgasta por excesso de uso, não faz barulho, não requer nenhuma habilidade especial para seu correto manuseio. E, no entanto, os motoristas de BH simplesmente preferem ignorar sua existência. Vai ver querem transformar a experiência de dirigir no trânsito caótico desta cidade em algo assim, um pouco mais lúdico e surpreendente – tipo ‘para onde será que ele vai agora?’.

E então a coisa funciona mais ou menos assim: alguém vai mudar de pista, fazer uma conversão qualquer, vai encostar, sair da vaga, entrar na vaga, seja o que for, prestenção porque cabe a você, e tão somente você, motorista do outro carro, adivinhar o que está pra acontecer. Nem adianta meter a mão na buzina, piscar o farol ou lembrar-se carinhosamente da progenitora do cerumano em questão, ele não vai se abalar por conta disso. Você vem atrás, fio, você que se preocupe e tome as devidas precauções.

Mas seria extremamente injusto de minha parte insinuar que o motorista de BH nunca dá seta. Essa seria uma generalização muito perigosa e, além disso, falsa. Claro que os motoristas daqui sinalizam de vez em quando. Por exemplo, eles sempre avisam quando vão fazer alguma coisa que é proibida ou mal feita. Vão parar em fila dupla ou na porta da garagem de alguém? Ligam o pisca-alerta, como se avisando ‘vou ali rapidinho e já-já estou de volta, guentaê’. É pra fazer uma conversão proibida? Lá está a seta, e mais o braço pra fora pra reforçar. Vão encostar pra pegar um passageiro na calçada, mas aquilo ali não é acostamento, é a pista da direita e logo atrás estão trocentos carros que precisam frear bruscamente pra não encher a traseira do sem-noção? Pois não sei por que todo esse drama e ódio em seus coraçõezinhos, o motorista estava dando seta!

Aí, quando você é um daqueles alienígenas esquisitos que sinalizam regularmente o que vão fazer, e não fazem o que é proibido, ninguém leva muita fé, acham que você está fazendo hora com a cara dos outros. Colam no seu pára-choque (seu não, né, do carro) porque não é possível que aquela seta pra direita signifique que você vai virar à direita de verdade, vêm a mil por hora porque não acreditam que você esteja realmente reduzindo a velocidade. E ainda passam metendo a mão na buzina e fazendo aquela cara de ‘êêê… dona Maria!’. E então você me pergunta: mas onde estão os valorosos agentes do trânsito, que deveriam ver essas coisas e botar ordem no boteco? Estão multando carros estacionados sem talão de Faixa Azul, porque multar carro em movimento dá uma trabalheira danada. Sim, esta é uma cidade que também vai sediar jogos da Copa. Vou-me embora pra Pasárgada na época, viu, lá sou amiga do rei…
***

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19 respostas em “A tal da seta

  1. Eu estava acostumado com a indústria da multa de Brasília, que consegue te mandar 3 ou 4 multas por mês por mais cuidadoso motorista que vc seja – e eu sou.
    Aqui nos Iztaduzunidus, em 3 anos, levei uma única multa por… mudar de faixa sem dar seta. Claro que era um sábado a noite, eu só estava indo ali na farmácia, estava em uma avenida com 4 faixas de cada lado e o único carro que me fazia companhia, 300 metros atrás, tinha que ser da puliça, né?
    Enfim, aprendi. Agora dou seta até para sair da garagem aqui de casa.

    • Os ‘gualdas’ aí aparecem do nada, né? Por aqui o pessoal aparece mesmo pra multar carro estacionado, que dá menos trabalho. E nem adianta ligar pra BHTrans quando precisa, eles sempre dão a desculpa de que não há carros ou funcionários suficientes para a fiscalização. Imagina, se não dão conta do óbvio, vê lá se vão prestar atenção no resto… Aliás, os jornais vivem publicando fotos de agentes do próprio departamento de trânsito fazendo m****…

  2. pe esse: em Brasília (já que falamos de lá e onde eu estive um mês atrás), a seta é chamada de “foda-se”. As pessoas ligam o “foda-se” e se jogam em cima de vc. Sim, ligam a seta, mas o fazem no mesmo movimento que utilizam para girar o volante. Ou seja, não é um aviso prévio, é um aviso de algo instantÂneo…

    • Aqui é exatamente a mesma coisa, o intervalo de tempo entre sinalizar e entrar é igual ao intervalo de tempo entre o sinal ficar verde e você ouvir a buzina do fedamãe logo atrás (e, como sabemos, esse é o menor intervalo de tempo já registrado na História Moderna).
      Deve ser mais ou menos como acontece em Hong Kong (segundo um primo que morava lá): não se preocupe com retrovisor, não precisa olhar pra trás, porque o que vem atrás está de olho em você. Preste atenção apenas no carro que vai adiante, porque ele não está te vendo…
      Assim fica difícil, né? 😦

  3. Verdade! isso sempre me intrigou e irritou ( pra ser bem sincera )
    Aqui no Rio tb é super comum não darem seta, como se fossem os donos da rua e ninguém mais, incluindo aí pedestre, interessasse.. táxi, então! se bem que, pra essa turma as bandalhas conseguem ser pior; cód. de trânsito, nem pensar
    parece um detalhe, mas é fundamental pra fluidez e boa convivência no trânsito, mas…

    Abs
    Ana

    • Nossa, aí no Rio o que me apavora é a velocidade dos carros em algumas ruas e avenidas. Olha, dirigir no Aterro com um ônibus colado na sua traseira é de dar pesadelo à noite! 🙂
      Triste ver que essa falta de educação é generalizada, né? Os gringos vão tomar o maior susto em 2014…
      abraço!

  4. Bom Monica aqui na Soteropólis a coisa é assim, o motorista faz o que bem lhe dá na telha. Eu vou atravessar o cara vem dando seta que vai entrar, e não entra. O que não deu seta é que entra em cima de você. Cara tá lá no meio da avenida movimentada, reparou que é na próxima que ele tem de entrar a direita, ele pára, quase todo mundo se bate, ele vira e entra na marra. Te juro que quando vim morar aqui achei que as regras de trânsito eram outras, tão confusa eu fiquei. Claaaro que não estou generalizando, claaro que nem todo motorista baiano é assim tão ruim. A culpa é minha que ainda não encontrei com os bons 🙂

    • Tenho um aluno baiano que sempre fala sobre isso, pelo jeito a falta de noção é esporte nacional. Deveria servir de consolo, né, mas serve não… 🙂
      Quando encontrar um com-noção, avisa pra gente providenciar a medalha!!!
      bjk

  5. Ah! Só para contar outro caso. Ao lado de um barzinho, um prédio com a entrada da garagem devidamente rebaixada e pintada de amarelo. Sujeito vem e para bem ali. Uma moradora estava na porta e reclama com ele. Sujeito volta para tirar o carro e reclamando alto: “Como é isso? Agora a gente tem de adivinhar que não pode parar?” Ele fala isso olhando pra mim! Euzinha que estava tentando passar de bike ali no meio do furdunço que ele causou. Eu pensei em responder que não, que não precisa adivinhar. É só saber o código de transito que fala que parar em guia rebaixada dá multa e até apreensão do veículo. Mas, eu heim? Acho que ele nem iria saber o que é “código de transito”.

  6. Bom Mônica, só para avisar: aqui em Cabo Frio as leis de trânsito também gozam férias. Outro dia quase fui atropelada por um motorista que fez a conversão sem dar seta. Eu ali na esquina, tremendo de susto, gritei, reclamei e o cara me diz: seta, na praia? Fiquei com aquela cara de ah é é e nem consegui recomendar os semáforos e os quebra-molas que são atrações turísticas exóticas e imperdíveis de se visitar.
    Beijos.

    • “Seta na praia?” Putz, é mesmo, onde é que a gente está com a cabeça, né? Na praia as leis de trânsito não se aplicam, claro…
      E eu nem vou falar de faixa de pedestres, senão eu choro!!!! 😦
      bjk

  7. Mônica, vc sempre tem as palavras certas!. E pelo jeito o problema é nacional e não só em BH.
    Aqui em Curitiba é outro caos.
    Os mesmos “gualdas” que adoram multar qdo estacionamos sem cartão (pq multar carro parado é mais fácil né), têm uma cota de multas que devem ser aplicadas por mês.
    Pensa que recebi uma multa por dirigir falando ao celular em um dia que estava viajando e não tinha como o meu carro estar na rua. Agora, tenta argumentar, entrar com Recurso ou qqr outra coisa… o motorista NUNCA tem razão. Se é que alguém lê os Recursos…
    Mas tudo bem, até 2014 o Brasil será um país perfeito! 😉

    • Vixe, e eu crente que Curitiba era exemplo de civilização!!! 😦
      Por aqui deu a maior confusão essa história de ‘cotas’ de multas há uns anos. Foi um caos, falou-se muito sobre o assunto nos jornais, protestos… e aí? Adiantou nada. Na verdade, o problema é que esses guardas multam pelos motivos menores (e mais fáceis de detectar) e deixam passar batido os maiores. Entrar com recurso é uma coisa, você vai lá, eles têm a maior boa vontade pra te explicar tudo, você preenche os formulários… e sabe que não vai dar em nada.
      Mas é verdade, isso tudo terá mudado até 2014. Quer dizer, se o mundo não acabar em 2012… 😛
      bjk

  8. Vixe…que o problema é nacional. Deve ser alguma reação química que sujeito entra num carro, pega no volante…e se transforma numa espécie de Hulk furioso e sem noção. Agora quanto as multas, eu tenho um sonho. Quero ficar amiga de um guarda de transito, eu saio anotando as placas, as infrações, dia, hora e local e passo tudinho pra ele 🙂 Ahh juro que quero 🙂 ………………. só tenho um probleminha, aqui eu nunca vi um guarda de transito na rua. Vi uma vez um carro do departamento de trânsito…parado em lugar proibido. :/

    • Ah, por aqui os carros ‘ofciais’ também gostam de fazer mal feito… 😛
      Lembrei daquele desenho da Disney, com o Pateta se transformando de um pacato cidadão em um monstro só por ficar atrás do volante! Acho que a crise é mundial, mas lá fora não tem alívio e todo mundo tem que se enquadrar. O problema é quando a penalidade é seletiva. Acho que tem que multar e disciplinar mesmo, mas o caso é que as ‘autoridades’ só querem fazer o que é mais fácil e dá menos trabalho, humpf…

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