Sem precisar botar a boca no trombone

Amiga me contou outro dia a saga pra conseguir ingressos via internet pra poder ver o Chico Buarque cantar. O site não funcionava, a compra não fechava, a confirmação não chegava nunca por email, ela não sabia se tinha sido registrada. Trocentos emails trocados com a empresa encarregada da venda, telefonemas interurbanos irados durante dias, no final nada tinha ficado registrado direito e a empresa acabou lhe enviando ingressos diferentes do que ela havia pedido. Mas deu sorte, teve gente que nem isso conseguiu, mesmo tendo ficado horas na frente do computador esperando a confirmação. Teve muita gente que desistiu e foi encarar horas de fila na bilheteria do teatro. A explicação dada pela empresa responsável pela venda online foi a de que o site havia sido invadido por hackers mas, né, ‘o site foi invadido por hackers’ é o novo ‘o cachorro comeu o meu livro’, nem desculpa ajeitadinha esse pessoal sabe dar mais, uma lástima.

Histórias de horror (bem piores do que as de Hollywood, porque acontecem mesmo) como essa todo mundo tem uma pra contar. Provedor de internet e TV a cabo, banco, concessionária de carro, empresa de telefonia celular, sites de compras, editoras de revistas e jornais, a lista é enorme e parece que a regra é ganhar o cliente com sorrisos e promessas, depois ligar o botão do foda-se e tentar vencer o cidadão pelo cansaço, ele que se vire para conseguir seus direitos na justiça depois. Como diria Sandra Annenberg, âncora do Jornal Hoje, na frase que definiu a internet na semana passada: ‘Que deselegante!’

Mas nem precisava ser esse horror todo, é tudo uma questão de atitude, antes de qualquer coisa. Fiquei aqui me lembrando de um outubro de 2000 (obviamente a história que vem aí não aconteceu na brasilândia), eu voltando num trem de York pra Londres, parada em Birmingham. E lá ficamos todos mais de hora e meia, porque a tripulação não podia seguir viagem, já tinha cumprido suas horas de trabalho e o sindicato ali não deixa passar nada mesmo. A que deveria assumir os trabalhos de Birmingham para frente estava empacada em algum lugar lá no sul da Inglaterra, onde temporais bíblicos haviam inundado boa parte das planícies de Sua Majestade, e com elas as ferrovias. Então era assim, a turma que estava ali não tinha como seguir viagem, a outra estava a léguas de distância. E eu no trem, lendo meu livrinho, porque de férias e sem hora pra chegar a gente em geral encara tudo com bom humor.

Eis que chega a nova tripulação, o trem segue viagem, vem um senhorinho com seu uniforme vermelho e bochechas combinando pedir o meu bilhete. Pega, dá aquele picote no cantinho da passagem e me entrega um formulário para preencher. Perguntei o que era e ele me explicou: eu devia preencher aquele papel e entregar a um funcionário da Virgin Trains na minha estação de destino. Dali a alguns dias eu receberia a minha indenização. Que indenização?, perguntei eu, brasileiramente desacostumada com essa palavra vindo assim, sem eu nem pedir. Era pelo incômodo da espera na estação, todos os passageiros receberiam, não era coisa assim muito grande, só mesmo pelo inconveniente. E caso eu achasse que não era suficiente (teve gente chegando atrasada pra reunião, perdendo conexão etc), era só anexar comprovantes e enviar nesse envelope pré-pago e a companhia analisaria caso a caso. Argumentei, com indisfarçado espanto, que morava no Brasil, então nem precisaria me dar ao trabalho. Aí o espanto foi do senhorinho de bochechas vermelhas – qual era o problema? Eu era passageira como todos ali e tinha direito a ser indenizada em qualquer parte do planeta.

Resolvi testar só de brincadeira, entreguei os formulários em Londres, fiz meia volta pro Brasil dias depois. Duas semanas e pouco mais tarde recebi um envelope da Virgin Trains com uma carta pedindo desculpas mais uma vez pelo atraso (que, é bom lembrar, não foi culpa deles, o dilúvio foi obra de São Pedro, a tripulação impedida de trabalhar hora extra foi por conta do sindicato) e, junto, dezoito libras esterlinas pelas duas passagens que entreguei no balcão da empresa. Não era cheque, não era ‘vale desconto na próxima passagem’, era dinheirinho vivo. Agora me diz, qual a probabilidade de uma coisa assim acontecer no patropi?

Aqui não, aqui tem que brigar, espernear, ameaçar, acionar a imprensa, o Procon, a justiça, o orixá da devoção, o bispo, pra ver se você consegue – talvez, quem sabe, pode ser – o que é seu por direito. Porque os prestadores de serviço estão pagando pra ver até onde você vai.
***

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11 respostas em “Sem precisar botar a boca no trombone

  1. Mônica, lendo isso da um pouco, minto muita vergonha da falta de responsabilidade dessas “empresas” e vejo como o serviço prestado pelas empresas aqui beira a excelência, tal como te aconteceu na Inglaterra. Há uns 4 anos mandei concertar uma câmera fotográfica q tinha pifado, e já na hora de fazer a ordem de serviço havia dito q até determinado valor poderia arrumar sem me ligar passando o orçamento, uma semana depois toca o telefone e avisam q tinha ficado pronto, lá vou eu buscar a maquina, e pergunto o valor, o atendente vira e diz ñ custou nada, como assim nada, trocaram o ccd e o obturador, e fizeram limpeza, a bichinha ficou nova em folha, e ainda recebi uma carta da fabricante agradecendo pela escolha da marca, pelo uso prolongado do produto e pedindo desculpas pelo inconveniente da quebra, q foi devido ao uso, muito uso por sinal, ñ fazia parte de programa de recall, aqui tem ate uma frase q diz – okyakusama, oosama. Q meio ao pé da letra diz q o consumidor é rei, e cumprem ao pé da letra a citação, é igual aí na terra brasilis onde o consumidor só é bom na hora de pagar e caro ainda por cima, por serviços e produtos de qualidade bem duvidosa ou eu to mentindo? Abraço.

    • Nossa, Fernando, que diferença! Aí o consumidor é rei, aqui ‘errei’…
      Olha, eu nem precisava dessa excelência toda, se as coisas fossem feitas direitinho como combinado, eu já me dava por satisfeita. Às vezes, de vez em quando, vez ou outra, isso acontece aqui também. Me lembrei de uma história, mas acho que vou deixar pra um post, é meio longa. Mas foi um exemplo do que pode ser feito com um pouquinho de responsabilidade e boa vontade do prestador do serviço.
      Nem me fale em pagar caro! Quando eu vejo o que a gente paga aqui por telefonia, cabo e internet e o que temos de volta por esse preço, é de chorar.
      abraço

  2. e plano de saúde?
    D. Patroa precisou de uma cirurgia, 6 anos atrás. Era coisa grave. De verdade. O plano negou, a desculpa mais esfarrapada do mundo. Armados de um ‘devogado, conseguimos um mandato contra o hospital (o devogado era esperto, se fizesse contra a seguradora ia ser um jogo de empurra que não ia acabar nunca) e a cirurgia foi feita.
    O plano de saude estava errado. Eles sabiam que estavam errados. Mas entraram na justiça assim mesmo, pedindo ressarcimento do dinheiro. E foram de instância em instância, até a instância primeira não instanciada (me perdoa por essa, Sto. Agostinho), não por que achassem que estavam certos, mas por que não podiam “abrir o precedente”. Uns ‘devogados recém formados, esquisitíssimos, que iam para audiência com oclinhos escuros em cima da cabeça, sabe o tipo?, só para manter o status quo.
    Enfim.

    • Ai, acho que plano de saúde é, de longe, o pior, né? Porque ficam brincando com a saúde das pessoas, ou melhor, com a falta de saúde delas… Tenho uma amiga (até fiz um post sobre ela uma vez) que teve que brigar feio pra ter direito a um tratamento que podia salvar sua vida. Conseguiu, mas ô luta, viu…
      Esse jogo de empurra é de lascar. Os advogados de oclinhos das empresas sabem que podem ir enrolando, mesmo que percam lá na frente. O importante é ‘não abrir precedente’. Dureza…

  3. meu todo mundo relacionado ao planeta conhece o Brasil com um nada, todos os politicos tentam valorizar o nosso pais, mais a verdade é q na Europa praticamente ninguem sabe qual é a capital do Brasil. sinto em dizer mais um pais sem infraestrutura, pobre, e “feio” como o Brasil, sinto muito mas merece isso, essa indiquinação q os outro paises e os propios morados tem ao Brasil, sou nova n posso revelar a idade mais é menos de 20, o meu maior sonho é sair de pais desvalorizado e infraestruturado que o Brasil, tenho raiva de me considerar brasileira, pois n mereco algo tao imundo e terrivel quanto esse nome.

    • Jade, recomendo mesmo que você vá conhecer outros países e experimentar o mundo lá fora. É uma experiência super importante e, quando bem aproveitada (a minha foi), é uma das melhores coisas que podemos fazer por nós. Por exemplo, a gente descobre nesse processo duas coisas super bacanas: primeiro, que o mundo lá fora é bem diferente do que temos aqui. Segundo, que o mundo lá fora se parece muuuuuito mesmo com o que temos aqui. 😉

  4. Oi Mônica!

    Chega a me dar uma tristeza quando fico sabendo dessas coisas, dessas diferenças.
    Teria uma história pra contar bem recente, da semana passada, de uma concessionária que precisei levar meu carro…
    Parece que aqui é tudo assim, vc precisa de um serviço e já volta pra casa rezando e pedindo a Deus: tomara que dessa vez não dê rolo, que eu não precise voltar, que não tentem me enganar ou que não queiram me extorquir no preço cobrado.

    Bjo

  5. Adorei a história! Mas tendo estado recentemente em terras de sua Majestade, sei que as coisas mudaram um pouquinho também por lá…só para dar um exemplo, pontualidade britânica em horário de trem é coisa do passado, e todos os súditos reconhecem isso… desde que foram privatizadas, as linhas de trem de sua majestade estão uma barafunda total. É bom saber que eles também têm a sua dose de globalização…
    Bjs,
    Ana

    • Ah, esse negócio da ‘pontualidade britânica’ mata os súditos de Sua Majestade de rir. Em 1988, quando estive por lá pela primeira vez, fui avisada de que pontualidade era com os alemães, ali na Inglaterra os trens eram um caos. Caos britânico, né, aparentemente ninguém por ali tinha passado pela experiência de esperar o ônibus 2004 (Bandeirantes-Olhos D’Água) na Afonso Pena… Aí sim, eles saberiam o que é falta total de pontualidade!!! 🙂

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