Sem pé nem cabeça

Eu só queria dizer uma coisa para você, querido leitor paulista: você não está só. Sei que num momento como esse pode bater aquele desânimo, aquele sentimento de ‘mas onde foi que eu errei?’, aquela vontade louca de gritar ‘maqueporraéessa?!’, mas não desanime. Não é só aí na terra da garoa que os eleitos pelo voto direto parecem comer maconha estragada no café da manhã e depois sair pra Câmara ou Assembleia pensando: que lei estapafúrdia eu posso criar hoje? Nós, aqui nas montanhas, também vez por outra enfrentamos a nossa cota de políticos cujos neurônios sofrem de quebra-mola nas sinapses, prejudicando irremediavelmente o bom senso e a noção.

Essa lei que proíbe garupa nas motocicletas durante a semana em várias cidades de São Paulo é uma pérola, sem dúvida. Melhor do que ela, só uma outra, tuitada por alguém lá no Nordeste, e que proíbe o motociclista de circular de capacete. A lógica é de uma simplicidade que até uma criança ficaria chocada: já que não se tem competência para reduzir a violência e os assaltos praticados por motoqueiros com a ajuda do garupa, se fica difícil identificar o motorista por causa do capacete, vamos eliminar o problema pela raiz: saem de cena o garupa e o capacete. Podiam avançar mais um tantinho na lei e mandar lacrar os porta-malas dos carros, aposto que assim o número de sequestros-relâmpago diminuirira. E ficar proibida também a circulação de pessoas em vias públicas portando celular, carteira e relógio. A vida pode ser incrivelmente simples, a gente é que não consegue pensar nas soluções que estão bem nas nossas fuças. Fico aqui pensando o que o ócio é capaz de fazer com o célebro de um cerumano.

Aqui nas alterosas nós fomos salvos de uma lei igualmente ridícula quase no último minuto. Um vereador, muito preocupado com a escalada da violência nos bares da cidade, propôs uma lei (aprovada pela Câmara e, grazadeus, vetada pelo prefeito) que proibiria a presença de garrafas e copos de vidro em bares, botequins e restaurantes de Belo Horizonte. Quer dizer, céus!, de repente a Brahma, o Beaujolais e os copos Nadir Figueiredo viraram os vilões. Como a maioria dessas brigas idiotas acontecem em dia de jogo, acho que seria mais prático proibir o futebol de uma vez, né? O engraçado é que o Paulinho Motorista (sério, esse é o nome do vereador) pensou no vidro como arma letal, mas facas, cadeiras, mesas e outros objetos potencialmente perigosos escaparam da degola. Eu fiquei imaginando cavalheiros e senhôuras elegantíssimos chegando nos restaurantes finos da cidade para degustar um inigualável Château du Valisère em lindas tacinhas descartáveis. O prefeito vetou a maluquice, mas o argumento vencedor apresentado pelos experts foi o de que copinhos plásticos seriam excessivamente danosos ao meio ambiente. Claro que seriam, mas a lei seria igualmente estapafúrdia com ou sem eles.

O mais curioso e inexplicável para mim não é que algum deputado ou vereador, para mostrar serviço ou para matar o tempo, proponha umas leis assim. O incrível, fantástico, extraordinário é que elas recebem votos suficientes para serem aprovadas, o que significa que esses senhores e senhoras são a regra, não a exceção. Também, né gente, nós é que somos muito exigentes: se eles não fazem nada, a gente reclama; se eles resolvem se debruçar sobre os problemas da sociedade e criam leis para (cof… cof…) sanar o problema, a gente também não fica satisfeita. Acho que o dia em que for criado um exame de seleção para peneirar esse povo, olha, vai ter muito caboclo sendo barrado logo no psicotécnico.
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12 respostas em “Sem pé nem cabeça

  1. Há algumas semanas a assembleia paulista votou outra lei importantíssima: obriga os garçons (ou maitres ou equivalentes) a oferecer o couvert e não colocá-lo na mesa assim sem mais nem menos. Muito justo, afinal somos todos uns imbecis que não sabemos recusar as azeitonas que não queremos, precisamos de uma lei pra nos proteger disso.
    Sobre os motoqueiros fico imaginando o diálogo entre os assaltantes: e aí, mano, vamos trabalhar? pô, não vai dar, cara, vamos ser multados e eu não posso mais perder pontos na minha carta!
    Mas, numa coisa a lógica deles está certa: somos mesmo uns imbecis pra aceitar isso e coisas piores, como o kit primeiro socorros e a mudança nos padrões elétricos.

    • Nossa, Wagner, disse tudo: aquele kit primeiros socorros foi das coisas mais imbecis já criadas neste país, e olha que não falta repertório nesse quesito! E essa mudança das tomadas eu até agora não entendi o propósito. Só sei que toda vez que vou à loja tentar comprar adaptador, o único que eles têm é o contrário do que eu preciso. E até parece que eu vou mandar trocar todos os interruptores e tomadas da minha casa inteira, né… Vai tudo ser feito em suaves doses anoréxicas.

      Essa lei do couvert é coisa de gênio. Mas lei pra acabar com essas idiotices ninguém cria… 🙂

  2. aqui no rio o excelentissimo governador cabral tb queria adotar essa lei inconstitucional ( baseado na experiência colombiana ) porém não colou.. naõ sei agora, se vingar em Sp, vão resssucitar esse absurdo..

    parabéns pelo texto; fina ironia e inteligência apurada
    bjs
    ana

    • Obrigada, Ana! Não sei se fico aliviada (por ver que não estamos sozinhos cá nas montanhas) ou triste (por ver que a idiotice é mais ampla do que a gente imagina) ao ver o que esse povo apronta com as leis. Depois vai tudo parar no judiciário, como se a Justiça não tivesse mais nada pra resolver…
      bjk

  3. é pra provar que vereador faz mais que mudar nome de rua e deputado vai mais além do que fazer moções…

    fiquei aqui pensando: recentemente meu carro foi arrombado no estacionamento movimentado de um restaurante, na hora do almoço e levaram minha preciosa maleta de trabalho (sou um dentista nômade). Tá fácil a solução: vamos acabar com os estacionamentos de restaurantes…

    Mônica, continuamos não vendo luz nenhuma no fim do túnel. Se bobeamos e caímos na armadilha de pensar nos problemas nacionais, o risco de depressão é enorme. O sistema instalado não consegue nem mais rodar nos próprios eixos. A saída é a revolução… sabe lá de que tipo for.

    • Camargo,
      vamos acabar com os estacionamentos. E os restaurantes. E as maletas. E dar fim aos dentistas… 😛
      Você não vê a luz no fim do túnel porque ela foi desligada por falta de pagamento…
      Por isso é que eu ando sempre com a minha necessaire de beleza dentro da bolsa. Vai que eu tou na rua de bobeira e vem a tal Revolução, né? Não quero ir parecendo riponga das Ciências Humanas da universidade (essas coisas a gente faz só uma vez em cada ‘encadernação)

  4. pra complementar… e se cada carona, que não pode mais andar na carona, também comprar uma moto?

    é claro que o caos no trânsito vai acelerar… mas daí é fácil. Criam uma lei que ambulância só pode sair na rua nos finais de semana. Durante a semana todo mundo é que tenha mais consciência e que se cuide. Caramba gente!!! Como é que ninguém pensou nisso ainda?

    • E, por consequência, fica proibido ter infarto ou morrer nos horários de pico. Ou então vamos instituir rodízio segundo o último algarismo da sua carteira de identidade ou CPF. Acho que vou me candidatar nas próximas eleições! 😛

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