Sem-educação ou sem educação?

Eu nem ia meter a minha mão nessa cumbuca, mas é que uma coisinha de nada chamou a minha atenção. Quando vi o line-up para o Lollapalooza pro ano que vem (tá vendo, Roberto Medina, é assim que a gente dá nome a festival de música pro pessoal não encrencar com ser ou não ser roquenrôu), me senti uma anciã. Da lista enorme de bandas, só conhecia – e assim mesmo, mal e porcamente – o Foo Fighters e o Arctic Monkeys. Os outros podiam ser nome de videogame, grife de roupa ou seita religiosa, pra mim dava no mesmo. Tá legal, alguns nomes brasileiros também não me eram estranhos, mas sinceramente não conheço nenhuma música. Ne-nhu-ma. Não fiquei chateada, primeiro porque sempre dá tempo de dar uma olhadinha ali no Iutúbi e xeretar os vídeos pra saber quem é quem; segundo porque, assumidamente, minha cultura de roqueira assídua ficou estacionada no album Achtung Baby, do U2. Isso foi em 1991, então lá se vão duas décadas. De lá pra cá, venho acompanhando uns e outros, mas nada muito sistemático, até porque rock e pop viraram uma bela de uma mistureba. Mas acho muito bom descobrir gente nova, talento grazadeus não falta por aí.

Aí veio o senhor Lobão esbravejando seu boicote ao festival (gostaria de ser solidária com a causa, mas com o Lobão encabeçando o protesto fica mesmo muuuito difícil), o Perry Farrell, organizador do festival, tentou se explicar e a emenda saiu pior do que o soneto. Dizer que o brasileiro não tem educação musical foi o que bastou pra galera pegar em armas e sair dando uma de ofendida, quem é o moço pra vir nos criticar? Então somos umas bestas mal educadas em matéria de música, justo o brasileiro, com toda essa ginga, malemolência e lalaiá?

Foi aí que o assunto começou a me interessar. É que, em inglês, education pode dar uma ideia um pouco diferente do que vemos em português. O termo está mais ligado ao aprendizado formal, escola, livros, ensinamentos da família, etc., do que a palavra educação, que a gente muitas vezes associa a boas maneiras, polidez, conhecimento informal. Não vi a entrevista em inglês, mas se Farrell disse musical education, olha, não adianta os esquentadinhos baterem o pé, porque ele está certíssimo. Educação musical formal não existe na brasilândia, a não ser para aqueles pouquíssimos que podem pagar professores e cursos, e mesmo assim tem muita gente que não passa do quem-quer-pão. Só agora o ensino de música passou a ser obrigatório nas escolas públicas, assim mesmo enfiado na disciplina de Artes (você se lembra das aulas de Artes na escola, né? Pois então). Tem um bocado de gente que é até contra educação musical formal, diz que ‘acaba com a criatividade da pessoa e embota’. Existem projetos sensacionais sendo desenvolvidos no país para tentar mudar isso, mas ainda estamos a léguas de ter música como parte do cotidiano da nossa formação de um modo geral. Se essa confusão foi um erro de tradução ou interpretação, desejo de criar polêmica ou sabe-se lá, a verdade é que ter musical education não tem nada a ver com gostar de música, conhecer bandas ou saber se comportar durante um espetáculo (algo que, incidentalmente, o pessoal daqui ainda tem que praticar e é muito).

Naturalmenete, há sempre a possibilidade de Farrell ter querido mesmo sacanear a gente e nos chamar de ignorantões. Meu pitaco é absolutamente linguístico, porque já vi muita tradução tropeçando nesses detalhes das línguas. Acho que as pessoas estão cada dia mais precisando dar uma diminuída no mimimi e prestar um pouquinho mais de atenção ao que o outro diz. Vai ver estão entendendo ‘Pires de Oliveira’ onde o outro apenas disse ‘pratinho de azeitona’.
***

Anúncios

4 respostas em “Sem-educação ou sem educação?

  1. Bom texto. Concordo em partes, mas concordo em discordar no geral: sim a educação musical formal no brasil ainda é deficiente.

    Mas não acredito que o infeliz comentário tivesse uma análise tão profunda. Além do que envolve questões culturais. Os Brasileiros criam gênero de músicas próprios (Samba, Bossa Nova, MPB), estudados e apreciados a fundo por estrangeiros educados formalmente e eruditos.

    Além do fato de que muitas das bandas e artistas estrangeiros também não possuem educação musical formal. E nem por isso não deixam de ter talento ou de criar música de qualidade.

    Acredito, no entanto que existe sim a necessidade de estimular o ensino de música e o desenvolvimento de artistas nacionais, e substituir um pouco as importações culturais que o Brasil tem feito em demasia nas últimas décadas.

    Guilherme.

    • Concordo totalmente, Guilherme. É que, ao que parece, o que o moço disse foi colocado meio fora do contexto, e a palavra ‘education’ acabou soando como algo diferente. Com certeza bem poucas bandas (sobretudo hoje) lá fora também têm essa educação formal que o Farrell sugere. Pelo que vi em outros trechos da entrevista, ele falava exatamente disso – como aqui no país as pessoas não têm essa educação formal, era uma ideia dele fazer com que o festival criasse mecanismos para ajudar (não sei como, fundos, talvez?) e contribuir nessa parte. Do jeito que foi publicado, pareceu que ele estava criticando a nossa ‘falta de educação’. Era falta de educação sim, mas a formal, não no sentido que geralmente usamos em português.

      Temos músicos talentosíssimos sem qualquer educação musical formal (ou até sem qq educação formal) e isso nunca impediu que fizessem trabalhos de altíssimo nível. A minha curiosidade nessa história foi no uso inapropriado da palavra ‘education’, que em inglês dá ênfase num aspecto, e em português, que é em outro. E a confusão que isso gerou por uma questão linguística… 🙂

      Farrell com certeza não estava fazendo uma análise profunda (ele mesmo disse desconhecer muito do que se faz aqui em termos de música). Acho que o ponto que ele queria tocar era justamente esse, o da criação de mecanismos para que as pessoas pudessem conhecer – e estudar e aprender – o que os outros estão fazendo. Não sei se é só discurso ou se a intenção é real, mas né…
      Abraço!

  2. Oi, Monica! Aquele abraço!

    Quem é o senhor Percy Farrell para criticar os brasileiros, seja em termos de educação formal e educação para a música, ou, por outro lado, por não ter gosto musical? Acho simplesmente que os ofendidos nem deveriam se ofender… eu hein…

    • Pois é, né? O povo se estrila por muito pouco mesmo. E eu nem sei se o moço estava mesmo criticando… Se estava, era só ignorar, já que ele não é exatamente um VIlla Lobos do pop. Se não estava, o auê foi mesmo ‘much ado about nothing’. Galera adora uma polêmica, né?
      Abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s