Um conto chinês

A gente nunca sabe quando o inesperado vai fazer uma surpresa. Quando eu era pequena, por exemplo, vi numa revista a história de uma mulher que morava com o marido no meio do nada, no interior dos Estados Unidos. Um dia resolveu descansar depois do almoço, deitou na cama e um meteorito entrou pelo telhado de madeira e caiu bem do lado dela. Ainda me lembro das fotos até hoje, a mulher toda enfaixada no hospital e aquele rombo enorme no teto do quarto. Uma história meio bizarra, né, mas às vezes essas coisas acontecem, você está bem na sua, fazendo um piquenique num lugar legal, de repente do céu cai uma vaca na sua cabeça.

Roberto de Cesare, dono de uma pequena loja de ferragens em Buenos Aires, não quer dar qualquer chance ao acaso. A guerra das Malvinas já lhe deu uma cota mais do que suficiente, então ele agora cuida para que nada saia do seu controle: sua rotina é absolutamente idêntica todos os dias, apaga a luz para dormir pontualmente às 11 da noite, toma o mesmo café com pão todas as manhãs, faz questão de contar os 350 parafusos que a caixa diz conter (mas sempre faltam alguns, e ele sempre liga para o fabricante para reclamar), sempre compra enfeitinhos de vidro no aniversário de sua mãe e os guarda na cristaleira, porque sua mãe morreu quando ele nasceu. Mari, cunhada de seu amigo, deixa bem claro que gosta dele, mas é que ele já se deixou levar uma vez, repetir a dose nem pensar. Até as histórias bizarras recortadas de jornais e revistas são colecionadas e numeradas cuidadosamente em cadernos. E tudo que Roberto quer é que sua vida continue exatamente assim.

Mas não adianta fugir do acaso. Vai que você está como o Roberto, comendo o seu sanduíche tranquilamente na rua, de repente alguém abre a porta de um táxi e joga um chinês quase nos seus pés? Um chinês que acabou de ser assaltado, não fala uma palavra da sua língua e só tem o endereço de um tio tatuado no braço. Tio que, obviamente, já não mora nesse tal endereço e ninguém sabe onde encontrar.

É assim ‘Um Conto Chinês’, segundo filme do diretor Sebastian Borensztein, com o sempre fantástico Ricardo Darín no papel principal (Darín tá virando o Gérard Depardieu do cinema argentino, onde aparecer alguém gritando ‘Ação’, lá está ele). Sim, o filme está na categoria de comédia e sim, a gente ri um tanto, mas a delicadeza dessa história vai muito além. Roberto é mal humorado e sistemático, e a última coisa que quer é ter na sua cola um chinês perdido, que não fala uma palavra de espanhol. Mas isso não o impede de abrigar o moço em sua casa e tentar ajudá-lo a encontrar o tal tio, seja indo à embaixada ou rodando as lojinhas do bairro chinês da cidade. Os problemas de comunicação são enormes, claro, mas com muito improviso e alguma ajuda, eles vão dando um jeito.

O peso maior recai sobre Darín, mas Huang Sheng Huang também é ótimo como o chinês Jun, principalmente quando a gente pensa que toda a sua atuação está nos gestos e expressões faciais (suas falas em chinês não são traduzidas, a não ser via ‘intérprete’). Ótima também é Muriel Santa Ana, como a simpática e sorridente Mari – impossível não torcer por ela.

É daqueles filmes despretensiosos, sem grandes cenários, sem efeitos, sustentado por um roteiro enxuto e bem costurado e atuações honestas. Não precisa mais nada. Talvez só um meteorito ou uma vaca caindo do céu, pra chacoalhar um pouco a rotina.
***

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10 respostas em “Um conto chinês

  1. Vi o trailer e gostei! Agora é só esperar o filme chegar aqui em Goiânia.
    Uma curiosidade sobre os argentinos: eles adoram o cinema nacional, valorizam muito e os velhinhos vão em peso ao cinema. Em 2007 fui a uma sessão em Buenos Aires de um filme rodado na própria cidade. O cinema estava lotaaaado de senhoras e senhores bem vestidos. Eu era praticamente a única “jovem” do recinto, o que me causou muito estranheza já que no Brasil é o contrário. E no final do filme, aplausos da platéia de cabeça prateada! Achei um barato! Esse filme deve ter “argentinices” interessantes rs.

    • Só fui ao cinema em Buenos Aires uma vez, fugindo de uma ventania louca em um julho gelado. A sala não estava cheia, mas era um desses filmes de Hollywood de sempre, acho que não era muito a praia dos senhorinhos e senhorinhas portenhos. O cinema argentino tem dado olé em muitos por aí, e o Ricardo Darín merece os elogios e aplausos que recebe, o moço é bom diconforça…
      Quando passar aí em Goiânia, não perca!

  2. Como eu gostaria de ter a mesma presença de espírito do chinês, que deixou um significativo presente de agradecimento na parede daquele quintalzinho zoneado!

  3. O filme realmente é ótimo. Veja também, caso não tenha visto ainda, Medianeras, também argentino, estilo bem diferente (surpresa, o Darin não trabalha), mas muito divertido também.

  4. Está na minha listinha de filmes que quero muuuito ver. Espero que esteja em cartaz semana que vem, porque somente depois do dia 14 é que realmente volto “ao normal”….rsss. Também tem uma listona de livros que quero ler, visitas que preciso fazer, ou seja, tenho muita coisa me esperando….rsssss

  5. Mônica, foi bom ser informado dessa trupe. Vou baixar. Gosto de valorizar os latinos que passam pelas mesmas agruras nossas e sem nunca perder a piada. Só de ver o Trailer dá pra ver que é muito parecido com os “tipinhos” que temos aqui no interiorzão.Abçs- Gilson-

    • É um ótimo filme, GIlson, engraçado mas com toques extremamente sensíveis. A gente ri das situações em si, mas ao mesmo tempo é muito fácil nos identificarmos com traços de todos os personagens. O cinema argentino tem produzido ótimos filmes e mostra que é possível falar de coisa séria de uma maneira leve, mas não superficial, e sem ficar levantando bandeiras e bradando palavras de ordem. E, claro, ter um Ricardo Darín à mão ajuda pra caramba. Depois me conte o que achou.
      abraço

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