O ritual de fim de ano

Todo ano o ritual era basicamente o mesmo. No primeiro domingo do Advento, minha mãe ia à missa logo cedo (bom, isso acontecia toda semana) e eu ficava esperando ela voltar pra gente começar ‘a função’. Que, na verdade, começava mesmo na véspera, descendo todas as caixas do alto do armário, separando a guirlanda e os enfeites, abrindo espaço na sala de visitas para a árvore de Natal e no buffet da sala de jantar para o presépio. Depois de muitos anos com um presépio super simples e criativo feito de papelão e pintado pelo meu pai, só com José, Maria e o Menino Jesus, minha mãe finalmente encomendou um novo muito lindo a uma prima artista plástica, e o que espalhávamos pelo móvel era uma verdadeira superprodução natalina -mais ou menos como naquele vídeo do mr. Bean, só ficavam faltando o robô e o tiranossauro.

Depois do presépio montado era a vez da árvore e seu mix de bolas muito antigas – inclusive algumas ainda dos anos 60, que nem sei como sobreviveram e que, quando caíam no chão, se espatifavam em trilhões de pedacinhos e cortavam meu dedo – e novas – que quando caíam no chão, saíam quicando pela sala afora e a gente tinha que correr pra pegar antes que o cachorro achasse que era um brinquedo. A montagem dava trabalho e era executada com a seriedade que a ocasião exigia; passávamos um bom tempo amarrando bolinhas e enfeites com linha de costura, desamarrávamos e trocávamos algumas de lugar por razões puramente estéticas, de tempos em tempos uma de nós ia pro fundo da sala pra ver como estava ficando, onde tinha enfeite de menos, se não tinha excesso de luzinhas de um lado e carência de outro.

O toque final na decoração da casa era dado pelas velas grandes e pequenas, anjinhos, papais noeis e bonecos de neve, finalmente o arranjo de centro da mesa enorme da sala de jantar e a guirlanda na entrada da casa. Levava o domingo praticamente todo, mas eu adorava. Nos dias que se seguiam, íamos pouco a pouco comprando os presentes, embrulhando tudo com papéis e fitas e cartões fofos e colocando as caixinhas e sacolas debaixo da árvore. O toque final era dado na própria noite do dia 24, quando estendíamos na mesa a toalha bordada por minha avó.

Mesmo agora, tantos anos mais tarde, já sem minha mãe e não mais na casa grande onde morei grande parte da minha vida, continuo seguindo fielmente a tradição, a começar pela missa no primeiro domingo do Advento. Nunca fui muito chegada em missas mas acho essa época particularmente bonita, com mais calma e recolhimento e menos ‘uhhuuu!’ do que tenho visto nas celebrações ultimamente. Gosto do ritual da preparação para o Natal – tanto a espiritual, que me relembra o real significado da data, quanto a festiva, de arrumação da casa, compra de lembrancinhas, ida aos Correios pra pegar cartinha com pedido das crianças para o Papai Noel, encontros com a família e os amigos, telefonemas e cartões (sim, ainda envio cartões de Natal escritos à mão pelo correio e acho tudo de bom). Não reclamo das lojas cheias, não acho uma chatice ficar procurando presentes, nem um porre rodar por horas debaixo de chuva, tentando achar estacionamento pra ir encontrar pessoas queridas num botequim. Não fico resmungando que Natal hoje é uma data triste e deprimente, quando as pessoas só querem mesmo saber de comprar e se empanturrar e blablablá, porque para mim essa é uma época de festa e de muita alegria. E de algumas das minhas melhores lembranças.

(foto: Cristiane Speziali)
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6 respostas em “O ritual de fim de ano

  1. Ah Mônica, adorei o texto…täo delicado! E nada nos impede que possamos dar um significado espiritual ao nosso NAtal, mesmo com a pressäo comercial de hoje. Por aqui quase näo se tem um significado espiritual (pouco vejo isso), mas fiz questäo de comprar meu presépio e minha velinha do lado para rezar por todos nós. Também adoro gastar horas montando os enfeites…ter fé e acreditar em algo é täo importante, e acho que a época NAtalina é uma boa hora pra isso! Bjs!

    • Disse tudo, Cris, o Natal é a gente quem faz, né? O meu tem festa, presente e delícias gastronômicas, mas não só isso… 😉
      bjk

      (sorry pelo atraso, seu comentário foi parar no spam, sei lá como…)

  2. Meu ritual Caramulano de natal incluía uma ida com o Manuel ao pinhal, com um machado, para procurar um pinheirinho redondo e frondoso para aquele ano. Mais tarde uma ida ao PoisoSanto com meu pai e irmã para buscar o musgo bem verde para servir de base ao presépio. Só depois vinham as velhas e delicadas bolas e as complexas luzes que todo o anose tornavam um imenso emaranhado virtualmente impossível de desfazer… Mas sempre conseguíamos, e era essa a primeira magia do Natal…

    • Não são lembranças deliciosas, Pedro? É uma época do ano que eu realmente adoro. Os tempos mudam, as comemorações também, gente vai, gente vem, e eu continuo achando tudo mágico…

  3. Natal na minha família não começava com a montagem da árvore de natal, que era artificial, tinha os galhos com aquela franja metalizada e bolas coloridas, discreta como convinha a qualquer objeto dos anos 70, tudo muito básico. Igual a uma espaçonave.

    Começava ainda no final de novembro com minha mãe iniciando o preparo das compotas de frutas para o natal. Fazia figo e cidra todos os anos e frequentemente laranja e goiaba, em quantitade suficiente para abastecer um batalhão. Porque mãe que é mãe não sossega enquanto os filhos não estiverem felizes com a barriga cheia. Mesmo morando perto do centro de BH a casa ficava cheia de abelhas, loucas com o cheiro da calda sendo preparada. Para mim natal tem cheiro de calda, de chuva e de pêssegos, que só encontrávamos nesta época.

    Hoje a nossa árvore é enorme, temos enfeites acumulados ao longo dos anos, parece um samba do crioulo doido, mas é que lembram um pedacinho de outros natais. Nos reunimos para montar no fim de semana próximo do dia 6 de dezembro, dia de São Nicolau, associado à imagem do Papai Noel. Tem até procedimento operacional com a descrição da montagem, e antes que a Mônica comente qualquer coisa, eu não tenho nada a ver com isto, ok? No dia 6 de janeiro desmontamos tudo, mesmo esquema. No final é tudo pretexto para reunir a família e fazer um lanchinho, com sorte um daqueles almoços com comidinha caseira na casa da Judite. E fazer 1 natal virar 3. Ou mais.

    • Eu nem ia falar nada, mas já que você tocou no assunto, eu tou achando que ‘procedimento operacional’ é só a ponta do iceberg… Deve ter arquiteto lendo manual de montagem da árvore e separando os enfeites de acordo com tamanho, cores e número de série (quando for o caso), tem não? 🙂

      A farra da montagem e desmontagem é ótima mesmo, uma desculpa e tanto pra juntar a galera. Quando tem criança por perto, então, fica ainda mais divertido! E dia 6 de janeiro tem a tradição dos reis magos com as sementes de romã…

      Só uma coisinha: abelhas na cozinha de dona Gilka? Thanks but no, thanks… 🙂

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