Torcedor, esse cerumano sem-noção

Eu ia fazer um texto novo, mas provavelmente falaria tudo isso aí embaixo mais uma vez. Então cês me dão licença de ‘dar um RT em mim mesma’ e republicar este post? Continuo achando o torcedor, basicamente, um ser completamente sem-noção. Mas isso sou eu, né, uma alienígena que responde quando perguntada pra qual time torce: ‘San Francisco 49ers‘, só pra encerrar a conversa. Não creio que as pessoas tenham aprendido alguma coisa de maio para cá, então, por via das dúvidas, vou ficar bem quietinha no meu canto na hora do jogo entre Cruzeiro e Atlético. Mas já sei que vai ser uma looooonga semana.

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Eu não me recordo de tudo, mas os tempos eram outros, claro. O América-MG tinha um time que, diziam, era tudo de bom – eu me lembro do goleiro Neneca, um negão de mãos enormes que fechava o gol e fazia a alegria da galera alviverde. A gente ia pro Mineirão e tinha torcida com muitas bandeiras, tinha charanga, tinha famílias inteiras indo se divertir no estádio. Os jogos de Cruzeiro e Atlético estavam fora de cogitação, meus pais achavam potencialmente perigoso estar por perto na hora do vamos-ver. Rá. Estávamos nos anos 70 e a definição de violência no futebol era beeeem diferente, acho que hoje em dia até partida de futebol de botão oferece mais riscos.

Lá em casa ninguém dava muita confiança pra futebol não. Meu pai era americano, e isso já diz muita coisa sobre o nosso limitado entusiasmo com relação ao ‘nobre esporte bretão’. Em algum momento da minha tenra infância eu simpatizei com o Cruzeiro, mas desconfio que isso teve mais a ver com o fato do Raul, então goleiro do time e um moço danado de simpático e bem educado, ser nosso vizinho, e também porque meus tios, todos atleticanos, ficavam me sacudindo e gritando no meu ouvido ‘Você tem que torcer pro Gaaallooo’. Vai por mim, nada irrita tanto uma leonina do que alguém dizer que ela TEM que fazer alguma coisa – ainda mais aos berros. Converse, convença, leve no bico, mas jamais, JAMAIS apele para os rugidos. Essa praia é exclusividade nossa.

Era legal ir ao Mineirão, mas por via das dúvidas eu levava um livro ou palavras-cruzadas para aqueles momentos (muitos, diga-se de passagem) em que absolutamente nada acontecia em campo. Mas eu gostava de ver o estádio feericamente iluminado, a batida da charanga, e tinha a pipoca, né gente, pipoca leva criança a muitos lugares nessa vida. Depois a gente cresceu, o time do América foi lá pra baixo, os jogos ficaram mais violentos, os torcedores também, e aí passamos a ver o futebol como aquele evento esportivo dominical capaz de perturbar a nossa tranquilidade, pobres moradores das imediações.
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E as coisas mudaram mesmo. Pensei nisso na semana passada, ao ver na televisão a Arena do Jacaré lotada para o primeiro jogo da final entre Atlético e Cruzeiro. “Uai, cadê a torcida de azul?”, perguntei pro primo. “Hoje só tem a galera do Atlético. Domingo que vem só entra cruzeirense no estádio. Questão de segurança, não dá para ter essas duas torcidas juntas no mesmo lugar.” O que me espantou não foi o fato de terem pensado numa solução dessas, tem hora que é preciso radicalizar mesmo. O que me impressionou foi a naturalidade com que meu primo me deu a notícia, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Não, não é. Caramba, é só uma bobagem de um jogo de futebol, numa porcaria de final de uma droga de campeonato regional. E os torcedores são tão sem-noção que não podem dividir o mesmo espaço durante 90 minutos? Têm que trafegar por avenidas diferentes, como acontece nos jogos aqui em BH, porque senão um mata o outro? Não conseguem manter um mínimo de civilidade sem sair por aí soltando comentários ofensivos no twitter, xingando gente que nem tem nada a ver com o time que acaba de tirar o outro de sei lá qual etapa de um campeonato idiota? Eles precisam depredar ônibus, esfaquear gente, ir parar na cadeia?

O engraçado é que tudo isso é por nada. Os jogadores não sofrem nem um cadinho; amanhã serão vendidos para um time no exterior, para o time adversário ou da segunda divisão e vão jurar amor eterno àquela nova camisa. Dirigente também tá pouco ligando, o negócio é a renda nos estádios, os patrocinadores, o ‘poder’ de ser um cartola. A mídia também não tá nem aí, a preocupação é com as cotas de patrocínio, os direitos de transmissão dos jogos, as fofocas e os barracos que vendem jornais e revistas. Vão todos muito bem, obrigado. Bobos mesmo são alguns (muitos) torcedores, dispostos a matar e morrer por conta de uma besteirinha dessas. Como diria lá na Escócia o rei Macbeth, ‘é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada’.
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25 respostas em “Torcedor, esse cerumano sem-noção

  1. Mulher, que belo texto! Você sempre escreve muuuuuiiito bem, mas, às vezes, se supera! Adorei! Além de bem oportuno e necessário nesses nossos tempos de barbárie! Bjo

    • Ei Ana, obrigada, querida! Falou tudo, são tempos de barbárie mesmo. Uma pena, né? Porque, mesmo não sendo muito fã, um jogo de futebol bem jogado, com estádio cheio e todo mundo se divertindo é algo muito bonito de se ver.
      bjk

  2. É… atleticano de carteirinha, papai tinha duas cadeiras cativas no Mineirão. Lá no alto, lugarzinho bom pra desfraldar um bandeirão que eu tinha. E só eu que ia no campo com ele nos domingos…

    • Pois é, Mercedes, lembra como a arquibancada era lotada de bandeiras? Hoje em dia elas são consideradas armas de guerra, o pessoal só pode levar aqueles pedaços de pano… Ainda é um espetáculo bonito, mas agora eu só curto mesmo a Copa do Mundo, e muito mais pela farra com a turma.
      bjk

    • hahaha, você também é do time que ruge? Aí em Portugal a coisa é mais civilizada, né, ou não? A tendência de sem-noção parece ser global, infelizmente…
      bjk

  3. Moniquinha,
    parece que fui eu que escrevi 3/4 deste texto. Fui lendo e parece que eu ditava e você escrevia.

    Sempre fui um apaixonado pelo futebol, papai chegou a ser um bom centroavante na minha cidade natal e, por influência dele, torço até hoje para dois times: um no Rio e outro na minha terra.

    Há mais de vinte anos não vou ao Mineirão ou a qualquer estádio, desde que presenciei uma cena de quase tumulto entre torcidas do Atlético e do Corinthians, no Mineirão. Há mais de 20 anos, certo? Eu me assustei!
    Continuo a torcer hoje, coração de torcedor tem razões, etc, etc.

    Só que ando tão enfastiado de tudo que, nas CNTP, assisto aos jogos da TV sem som, porque o que “loucutores” e comentaristas falam de asneira é uma farra. Parece que eles assistem a um jogo a 500 km do jogo que as imagens me mostram.

    Vem aí 2014 e aquilo, ao que parece, vai ser a Copa do Mundo mais esculhambada, desmoralizada e zoneada do futebol mundial.

    Que Deus se apiede de nossos cadáveres…

    Um beijo

    • Uai, quem sabe foi transmimento de pensação??? 🙂
      Acho que meu último jogo foi há alguns anos, um sábado à tarde, levamos as meninas no Mineirão num jogo de pouca importância, umas 10 mil pessoas e olhe lá, foi bem divertido. Incrível que a diversão esteja diretamente ligada ao número de torcedores no estádio, quanto menos gente, melhor…
      Só fui a um Cruzeiro x Atlético na vida, levando uma americana que morava lá em casa. Foi legal, ela adorou, mas no fundo eu estava morrendo de medo. E nem final de campeonato era!
      Vamos ver o que vai ser em 2014. Isso se o mundo não acabar em 2012 ou, como quer um grupo lá nos EUA, no dia 21 de maio…
      bjk

  4. Mônica, apoiado.
    Nunca vi sentido naquele bando de marmanjo vestindo roupa de criança, correndo atrás de uma bola de um lado pro outro. E ganhando milhões, sem sentar num banco de escola. Mas mesmo para os que gostam de futebol, não tem paixão que resista à falta de noção, à falta de educação. E nem é preciso ir ao estádio, a barbárie pode chegar até você no recesso do seu lar. Enfim, os romanos é que sabiam fazer um circo, se fossem por eles tinha uns 10 leões famintos soltos por ali. Ai sim os jogadores iam ter motivos para correr, certo? Sorry, leonino não ia causar o mesmo efeito, por maiores que sejam os superpodres.
    Bj.

    • Na falta de leões no pedaço, podiam pelo menos distribuir umas enxadas, uns sacos de sementes e botar esse pessoal pra capinar aquela terra improdutiva, né?
      Eu, como ex-moradora dos arredores (e nem tão arredores assim) do Mineirão, sei bem o que é ter o sossego perturbado pela galera ensandecida. Coisa de doido, começava logo cedo e ia madrugada adentro, no dia seguinte. Até que o barulho é o de menos, mas tenho uma aluna que mora pertinho do estádio que conta horrores do comportamento da torcida bem na porta da casa dela. É dose.
      bjk

  5. Pertinente, sua crónica, desgraçadamente pertinente. Sou torcedor apaixonado do Benfica, daqueles incondicionais, que defende essa paixão incondicional, nos bons, claro, mas sobretudo nos maus momentos. Mas daí até partir para a violência ou mesmo o insulto (para além de inocentes referências à mãe do árbitro ou à orientação sexual do jogador adversário…), não dá para entender mesmo. Fanatismo não combina com paixão. Felizmente, até à data, nunca assisti a problemas de maior, seja no Brasil, seja por aqui.
    Nas minhas férias em BH não falta nunca um tropeiro no Mineirão, assistindo a um jogo do Galo. Mas se não der pode ser do Cruzeiro também, que o importante é mesmo o tropeirão…
    E, por falar em derby, a primeira (e única) vez que assisti a um Cruzeiro-Atlético foi no Independência. As torcidas estavam separadas por uma frágil rede e, pasme-se, dividiam o mesmo banheiro… Terminou 1-1, sem dramas e sem problemas, e como bónus vi jogar Valdo, provavelmente o melhor 10 que vi com a camisola do Benfica (espero que Rui Costa me perdoe…)
    Problemas, felizmente, nunca vi, e espero continuar assim…

    • Pedro, o tropeiro do Mineirão é sem igual, né? Justifica qualquer 90 minutos!
      É muito bonito ver estádio lotado, as torcidas com suas bandeiras, a galera uniformizada, a energia toda, uma boa partida, dessas bonitas, com gols, belas jogadas e tudo o mais é tudo de bom. Fico triste de constatar que essas cenas estão virando, cada vez mais, exceção. Realmente, saíram do nível da paixão pra cair no fanatismo, o que é uma péssima ideia. Devia ser uma festa, não um campo de guerra.
      E me incomoda ver a torcida comemorando mais a derrota do rival em um outro jogo (caso dos atleticanos quando o Cruzeiro saiu da Libertadores) do que a vitória do seu próprio time contra esse mesmo rival (Atlético vencendo o Cruzeiro no domingo passado, pasme, deu menos ibope de foguete e buzinaço). Isso nem Freud explica…
      bjk

  6. MÔnica,
    muito bem falado! Hoje nós é que somos anormais! A anormalidade virou o normal: pessoas que deveriam estar se divertindo e apreciando a partida estão mais preocupadas em agredir, mostrar que são os “fodões”. Não é atoa que eu só fui uma vez assitir jogo do Atlético e do Cruzeiro! E olha que eu sou Cruzeirence, seguindo a tradição do meu avô e tios italianos.
    Como disse o Jota, por que não dão uma bola pra cada um e acaba logo com essa briga!!!

    • Pois é, quando eu falo que o povo tá perdendo a noção, tem sempre um pra justificar dizendo que futebol é assim mesmo, que é paixão nacional, yadda yadda yadda. Não caio nessa, eu já acho que é fanatismo, e eu não ‘se dou’ muito bem com fanatismo não, sân…

  7. É isso mesmo…De antigo palmeirense que ia aos jogos apenas para poder comemorar numa bela cantina depois…afinal o Palmeiras ainda jogava bola…passei a torcer para que se acabe o futebol. Ele virou competição de porradas e anestésico de povo …já bem anestesiado por si só!..

    bjss

    • É Gabrio, aqui o tropeiro, aí as cantinas maravilhosas! Uma pena as pessoas poderem fazer cada vez com menos frequência um programinha legal desses. Pelo menos pudemos fazer isso em algum momento da vida, porque a galera de hoje ‘aproveita’ o futebol de outro jeito…
      bjk

  8. Mônica, é sempre bom passar por aqui.
    Essa de ler livro e fazer palavras cruzadas em estádio foi ótima (otimamente absurda, eu acho…rsrs).
    Agora, o negócio de gente se matando por causa de time de futebol é triste mesmo, mas acho que nesse caso o time e o futebol entram como mera desculpa. A bestialidade dessa gente é tanta que, se não tivesse a desculpa do time, iriam arrumar outro motivo pra fazer o que fazem.
    Abração!

    • Ih, Daniel, livro é o de menos, meu pai de vez em quando levava um relatório ou a tese de algum aluno pra dar uma olhada, pelo menos na hora do intervalo, imagina! 😀
      É mesmo, futebol acaba sendo desculpa pra falta de noção. Que, obviamente, é bem democrática e desconhece critérios socioculturais…
      Bom te ver por aqui também!
      abraço e ótimo domingo!

  9. Belo texto, assunto perturbador…pq quando eu vejo homem grande, pai de família, barba na cara chorando pq o time perdeu o campeonato…eu penso tái a humanidade não evoluiu mesmo! E é só juntar um bando de gente sem noção que vira uma mistura explosiva. Anteontem tivemos aqui um arrastão no bairro da Pituba. Sairam de um show patrocinado por uma emissora tal de tv, de um certo apresentador (pq jornal não diz o nome? parece que vai ser falta de ética dar nomes aos bois) e resolveram sair assaltando e depredando tudo no caminho. A violência tem até patrocinador…portanto, interessa e dá lucro pra alguém…
    Beijos Monica, um bom domingo pra vocêzinha 🙂

    • Não é uma loucura? Aqui perto de casa tem um vizinho em algum prédio que, quando o Atlético marca, vai pra janela e solta um repertório de palavrões de fazer corar a Dercy Gonçalves. E, pela voz, não é nenhum menino não. Belíssimo exemplo, imagino se um ser desses tem filhos… E fim de jogo é aquele horror, eu já vim pra casa antes do jogo começar, e daqui não arredo mais o pé. É muita falta de noção pro meu gosto.
      bjk e ótimo domingo pra você também!

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