Número seis

Acordamos hoje nesta gloriosa segunda-feira de ressaca pós-peru-farofa-e-espumante com as primeiras páginas dos jornais estampando a grande notícia: a brasilândia foi alçada à sexta posição no ranking das principais economias do mundo. Desbancamos a Inglaterra, se bem que eu imagino que Sua Majestade talvez esteja um cadiquinho mais incomodada com a quarta posição dos franceses (sim, a Europa está toda na maior pindaíba, mas não se acaba com uma rivalidade de séculos assim, por qualquer coisinha). A China tá lá na pole position e, olha, vai ser difícil tirá-la de onde está, porque é gente pra dedéu praqueles lados – um bilhão e pouco, e esse ‘pouco’ deve ser a população dos Istêitis pra mais.

Como diria Gilberto Gil em Lunik 9, ‘muito bem! confesso que estou contente também’. Passei toda a minha existência vendo o país mal das pernas, devendo até as calças, a gente indo na loja um dia e o preço era um, voltava no dia seguinte e o preço já era outro, o FMI olhando torto pro nosso lado. Agora estamos aí, dando tchau e deixando os súditos da rainha Elizabeth dizendo ‘we’re not amused’, estamos ‘over the dried meat’ – por cima da carne seca – e o governo e a imprensa querem mais é comemorar e nos encher de boas manchetes nas festas de fim de ano. Muito justo, nem que um pouco dessa nossa glória seja porque a gente até pode ter subido, mas a galera é que realmente despencou.

Mas permitam-me ser um pouquinho chata nessa hora de ôba-ôba e nóis-é-nóis, que eu acho que entusiasmo é bom, mas tudo com temperança, né? Economia bombando é muito legal. Dinheiro circulando, produção, mais emprego, consumo, essas coisinhas todas, quem sou eu pra reclamar. Só que é mais ou menos como aquele vizinho novo-rico que de repente encheu os bolsos e engordou a conta bancária, mas o máximo que conseguiu fazer foi deixar de comprar na C&A pra detonar o cartão de crédito nos outlets de Nova York e trocar o fusquinha pela Pajero.

Nós não estamos longe de completar a segunda década com o pescoço pra fora d’água, e no entanto nossos índices de educação, saúde, segurança, habitação, infraestrutura, qualidade de vida e o que mais você pensar ainda estão bem lá atrás, na turma dos retardatários. Eu sei, eu sei, vão dizer que essas coisas demoram, o governo anterior não fez nada, o de agora não faz nada, essa corrupção toda de agora, de antes, yadda yadda yadda, mas eu acho que seria de bom tom o pessoal baixar a bola um nadinha, porque periga a gente estar construindo um arranha-céu sem alicerce e com areia de praia. Ainda estamos longe, muito longe de termos um padrão condizente com o de sexta economia do planeta, então vamos fazer o favor de dar os tapinhas nas costas de praxe e voltar logo pro serviço, que ainda tem muita coisa pra fazer.
***

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17 respostas em “Número seis

  1. Ah, você já disse tudo, como sempre, com uma lucidez de dar gosto. Um ótimo 2012 para ti e família, e agregados, e alunos e… crônicas! Um abração!

  2. Mônica,
    Desculpe por não ter vindo antes do natal!Como foi o seu?
    Desejo um excelente 2012 pra vc e agradeço as suas visitas!
    O tempo tem sido curto pra tudo que quero fazer!
    Mas cá estou pra te deixar esse abraço.
    Muito lúcido teu texto,acho que não temos tanto pra comemorar assim,
    temos muito caminho pra andar!!!
    Beijo!

    • Meu Natal foi bom demais, família, amigos, muitos encontros, ótimo! Recarrega as minhas energias que é uma beleza… Eu sei bem como o tempo é corrido, pensa que a gente só tem mais 4 dias de 2011!! Não se preocupe, passe quando puder, eu também tenho visitado os blogs queridos com menos frequência do que gostaria, snif…
      Um ótimo 2012 pra você e a sua família, muita saúde e que seus projetos se realizem nesse novo ano!
      bjk

  3. Sou do mesmo time do Max.

    Colega minha passou uns dias no Brasil, alemoa, e voltou dizendo que SP estava muito cara pra ela. Veja bem, moça ganha em euros e foi gastar na Brazilândia. Turista reclamando de preço? Imagina povão tendo que consumir todo dia? Dívidas e mais dívidas para bancar tudo, o que precisa pra viver e o que precisa pra manter o padrão de sexta economia, né?

    E o salário? 622 reais para fechar qualquer microempresa que queira ser honesta e pagar impostos certinho.

    É bom? É. Muito. Mas, está longe ainda de proporcionar uma economia “social”. Vamos combinar.

    Bjs!

    • Isso mesmo, Eve. São Paulo está impraticável nos preços. Se você não for do Legislativo (que pode aumentar o próprio salário), o bicho tá pegando. Imagina como vai estar isso aqui na época da Copa, com todo mundo querendo fazer o seu pé-de-meia às custas do turista – e a gente, que não é turista e tá pouco se lixando pra competição, vai é tomar uma ferrada monumental.
      bjk

  4. bravo!! a comparação com o vizinho novo rico é perfeita… carrão, tv gigante, churrascaria cara e quase nenhum livro na biblioteca… (biblio o quê mesmo????)… sem educação jamais teremos educação…

    • Pois é, nada contra ter TV de LCD com 42 polegadas, iPhone de não-sei-das-quantas ou pegar pacote da CVC pra Miami, mas só isso não basta pra fazer um país virar País, né? E o governo (e a imprensa) adora bater na tecla do consumo pra mostrar que a economia vai bem, obrigado. Enquanto isso, todo o resto tá na maior pitimba…

  5. Mônica ainda bem q existem pessoas sensatas com vc, eu fico com medo desse crescimento todo assim tão rápido, a imagem qe vem a cabeça é a do Japão da década de 80, a temida bolha economia, pois vejo também o prédio subir sem alicerce e usando areia da praia, isso ñ é ser pessimista, vendo essas economias q tinham base até solidas ruírem assim, fico com o pé atras, já to fora tem 8 anos e ficar falando muito é até feio, ñ vivo mais no brasil, mas minha família ainda mora aí, e pelo q dizem a situação ñ ta lá essas coisas, se ñ fosse pela ajuda q todo mês mando pra minha mãe, só com o salário dela ñ cobriria todas as contas. Fui passear tem 1 ano e meio e ñ comprei nada, eu olhava os preços e ria, sem brincadeira, só ganhando muito bem mesmo, até as coisas de mercado eram mais caras q aqui, foi um choque. Sumirei novamente, agora só ano q vem, me atrapalhei novamente e anda faltando hora no dia, e um excelente ano de 2012, pra todos nós, ja q ñ tive tempo de te desejar feliz Natal, pode ser atrasado né, até mais, grande abraço.

    • Pois é, Fernando, quando eu coloco uns ‘poréns’ no entusiasmo do pessoal, sou taxada de pessimista, desmancha-prazeres e tudo o mais. Eu sei que demora muito mais tempo construir uma base social sólida, é coisa de geração, e que já melhoramos bastante em algumas frentes. Mas tem hora que eu acho mais fácil a turma da pindaíba se reerguer do que a gente se manter no topo… As coisas por aqui estão com preços irreais e o povo tá que compra, troca, consome – existe uma taxação absurda e também muito pouco bom senso por parte do consumidor, então é encrenca na certa. Enfim, let’s hope for the best.

      Um ótimo 2012 pra você também, espero que consiga se reorganizar (eu também tenho desse problema com alarmante frequência!) pra passar aqui mais amiúde e dar notícias. Muita saúde, paz e harmonia pra você e a sua família – votos atrasados, no dia certo, adiantados, tá tudo valendo! Abração.

  6. A chegada ao sexto lugar( em PIB apenas , perdemos em PIB per capto, IDH, Índice Gini, e mais trocentos índices) faz apenas a nós brasileiros refletir. Pra onde vai esse dinheiro ?

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