Tudo pelo poder

Às vezes, um título é capaz de dizer uma enormidade sobre um filme. Só que depois o tradutor tem que fazer os ajustes necessários pra adaptar para o português e aí babau, lá se foram as referências. Tudo pelo Poder pode até resumir bastante bem a ideia do filme dirigido pelo George Clooney, mas o título original – The Ides of March – é infinitamente mais sugestivo. Essa expressão foi imortalizada por William Shakespeare na peça Julius Caesar, quando o general romano é aconselhado por um vidente a tomar cuidado com o meio de março (‘Beware the ides of March!’). Bom, não prestou atenção suficiente e acabou sendo assassinado com mais de 20 punhaladas em um 15 de março, no Senado. Mas antes disso tudo, 15 de março já era um dia importante na Roma antiga, consagrado a Marte, deus da guerra. César só deu um toque pessoal de glamour e celebridade.

No filme, a ‘guerra’ é outra. Ainda há intrigas, jogos mentais e fogueiras de vaidades, ainda existe a disputa a qualquer preço pelo poder, mas o cenário da vez é a briga pela escolha do candidato do partido democrata americano às eleições presidenciais. O candidato e governador da Pensilvânia Mike Morris (George Clooney) parece ter tudo: é articulado, progressista, íntegro, carismático, mas a disputa com o senador Pullman (Michael Mantell), do Arkansas, ainda está acirradíssima. Ambos precisam do apoio oficial do senador Johnson (Jeffrey Wright), que pode levar consigo os votos de 356 delegados, dando por encerrada a corrida. Johnson, claro, quer saber quanto é que ele vai levar nisso (um ministeriozinho, talvez, ou quem sabe virar Secretário de Estado?) antes de se decidir. Os dois coordenadores das campanhas (Paul Giamatti no time Pullman, Philip Seymour Hoffman no Morris) têm que agir rápido, e para isso vale tudo e qualquer coisa. É que estamos mais ou menos no meio de março, quando vários estados importantes realizam suas primárias para escolherem seus candidatos e o negócio é ganhar ou ganhar.

Mas o filme, na verdade, não é sobre nenhum desses senhores. É sobre Stephen Meyers (Ryan Gosling), o número dois na campanha de Morris, e sobre como as certezas e as crenças das pessoas costumam estar por um fiozinho de cabelo quando o assunto é política de gente grande. Meyers não é um ingênuo idealista, mas acredita que o governador é O cara e parece ser isso que o leva a trabalhar freneticamente no comitê. Daí ele comete um erro primário para um coordenador razoavelmente tarimbado (ah, sempre a combinação potencialmente explosiva de vaidade com curiosidade!…), leva sua ferrada e, com a descoberta de uns tantos segredos, Meyers está mais do que pronto para entrar de sola no jogo sujo da sobrevivência nessa praia. O meio de março assinala o ponto da virada para a disputa democrata e a campanha de Morris mas, principalmente, marca o momento da ‘perda da inocência’ de Meyers, que no final das contas aprende da maneira mais difícil que palavras como integridade e ética, na boca dos políticos, têm o valor de uma nota de três dólares. As punhaladas dos tempos do senado romano hoje são bem diferentes, mas costumam fazer belos estragos do mesmo jeito.
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8 respostas em “Tudo pelo poder

  1. Adorei sua resenha, Monica! Estou meio afastado do assunto “Cinema”, meio desencantado até, mas sua coluna me despertou. Obrigado e um grande abraço!

    • Que bom, Jeremy. Não chega a ser um desses filmaços, mas o elenco é de primeira e a história é bem interessante (ainda mais em tempo de primárias, só que do Partido Republicano). Vale a pena conferir. Abraço procê.

  2. Sobre os títulos: Eu li a trilogia Millennium do sueco Stieg Larsson… Quem me indicou havia lido em inglês e como o meu inglês ainda não ta para esse tipo de leitura, procurei e comprei em português… O título original do primeiro livro: The girl with the dragon tattoo (muito mais convidativo, passa um ar de mistério!) O título no Brasil: Os homens que não amavam as mulheres (me sugere mais homens que não preferem a mulheres… sei lá rsrs).

    Tudo pelo poder ainda não vi, mas esse sueco eu já posso recomendar! Uma ótima adaptação! Agora vamos ver a versão de Hollywood que está para sair!

    • Alguns títulos são impossíveis de traduzir, mas as pessoas deviam ter mais carinho com os que podem, né? Não li o livro do Larsson mas já vi o trailer do filme e fiquei bem curiosa – só o cover de ‘Immigrant Song’, do Led Zeppelin, que serve como trilha de fundo, já me deu arrepios… 🙂

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