Teló, Oz e as mulheres ricas

Se há algumas semanas alguém tivesse me perguntado quem era Michel Teló, eu teria arriscado assim, na base do palpitão, que ele provavelmente devia ser um novo jogador contratado pelo Barcelona (“… e Michel Teló está no aquecimento para entrar no lugar de Piqué…”) ou, quem sabe, um desses novos artistas de vanguarda que expoem nas galerias descoladas pelo mundo (“… e aqui do seu lado esquerdo, uma instalação neosurrealista do artista neogóticorromântico Michel Teló…”). Minhas chances de acertar, portanto, teriam sido menores do que as de cravar os números da Mega Sena. Imaginar que uma musiquinha chinfrim como Ai se eu te Pego viraria mania mundial e teria quase 100 milhões de acessos no YouTube realmente estaria totalmente fora de cogitação.

Nos últimos dias, com a reportagem de capa na Época e a notícia de que a música estava sendo mais tocada nas rádios do que Adele e Coldplay (ai, adoro essas estatísticas fora de contexto!), eu li, vi e ouvi um bocado de gente indignada por aí: mas como é que um som medíocre como esse faz sucesso internacional? Que horror, meoldeols, então é assim que queremos ver nossa ‘cultura’ representada lá fora? Onde essa juventude vai parar, sem ouvir Tom Jobim, sem ler os clássicos, sem assistir a filmes do Glauber Rocha com legendas em croata?

Gente, menos né?, bem menos. O moço gravou uma música. Fraquinha de doer, é verdade, em letra, melodia e arranjo. Porque raios isso virou mania nacional e extrapolou fronteiras é um mistério mas, convenhamos, não é inédito – estão aí a lambada, a Macarena, Aserehe e aquela musiquinha e coreografia irritantes do passarinho que quer dançar porque acaba de nascer pra provar isso. E sobrevivemos a todas elas, não foi? E, olha, nem vou mencionar a disco music, que produziu 99% de lixo para 1% de música boa. O problema não é ouvir Teló, o problema é SÓ ouvir Teló e afins. Aposto um picolé de limão como boa parte dos reclamões não sabe cantar nenhuma música do Tom do início ao fim, dos clássicos só sabem citar alguns títulos e vão aos festivais de cinema alternativo só mesmo pra comer pipoca e fazer cara de conteúdo.

Claro, quase tudo hoje em dia é descartável, é pros próximos 15 segundos ou os primeiros 140 caracteres, depois babáu. Claro, eu queria ver mais artistas brasileiros de alto nível, que ralam pra caramba tentando sobreviver da arte, estourando no mercado internacional. Adoraria ver gente lá fora assobiando Villa Lobos como assobiam Mozart, lendo Machado de Assis como leem Shakespeare, dando aquele Oscar de melhor atriz pra Fernanda Montenegro e não pra Gwyneth Paltrow, pelamordedeus. Só que o mercado do pop descartável não funciona bem assim. Galera consome mesmo é o facinho, mas vamos cruzar os dedinhos para que aproveitem pra consumir alguma coisa legal no caminho.

E não adianta dizer que a gente é levado a consumir lixo. Na segunda à noite alguém postou no twitter: ‘o programa Roda Viva (na TV e na internet) está começando e o entrevistado de hoje é o escritor e pacifista israelense Amos Oz’ (link pra entrevista aqui, vale a pena). Mas quem bombou nas timelines do twitter e comentários de colunistas de TV no dia seguinte? Mulheres Ricas, o novo reality show da Band, onde cinco endinheiradas trilhardárias ficam tagarelando sobre como é bom vestir Chanel, beber champagne Cristal e comprar avião novo. E quem é que deve monopolizar as mídias sociais a partir da semana que vem? Big Brother Brasil, em sua 12a (caramba…) edição, lógico, por mais que escalem bons filmes e programas para o mesmo horário em outras emissoras. Quer dizer, Teló é o menor dos nossos problemas quando o assunto é cultura. Pensando bem,  podia ter sido pior: imaginem se a Dança do Créu é que tivesse caído no gosto mundial? Nossa, assim você me mata.
***

26 respostas em “Teló, Oz e as mulheres ricas

  1. Meu Deus se fosse o creu!!! rsrs Imagina o creu em tudo quanto é lugar… formatura, bodas de prata, de ouro, casamento!! Assim me mataria!! Se não fosse a sua perspectiva tão positiva, eu jamais teria pensando assim!! rsrs

    • ‘Na minha época’ (nossa, isso soa jurássico!) teve a moda da Macarena, era só começarem os primeiros acordes e ia todo mundo pra pista fazer a coreografia. Era ridícula (dança e música) mas ninguém tava nem aí! Não tenho Teló no meu iPod, não escuto a música (a não ser de maneira ‘terceirizada’) e nem sei o que mais ele fez em matéria de música, mas isso é pra se ouvir na balada e se acabar na pista. Vai ter a hora de ouvir Chico, Bach e Led Zeppelin. O problema é sair criando hierarquias de ‘isso é ridículo, isso não é’ – tudo tem potencial pra ser ridículo, depende do ponto de vista… Minha sobrinha adolescente outro dia comentou ‘quem é que aguenta um samba feito numa nota só, que tédio!’. Ainda vai levar tempo até ela entender o genial disso, aos 12 anos essa não é necessariamente a hora. Agora é hora dela curtir Justin Bieber e Katy Perry. É só ela continuar tendo contato com os outros tipos de arte – e torcer para que o resultado seja satisfatório!!! 🙂

  2. Acredito que Teló e Mulheres Ricas não são feitos para durar. Enquanto Tom, Machado e tantos outros que você citou, serão perenes e eternizados.
    Enfim, contemporâneo é Lady Gaga, Katy Perry e outros que não significam muito na história. Basta lembrar do show da Katy no Rock in Rio.

    Adorei o post!

    Beijos,

    • É exatamente isso que eu acho, Luciana. É coisa de um verão só, e olhe lá. Com sorte, se o moço realmente tiver aí um talento a ser revelado por trás do auê todo, a carreira dele pode prosseguir por sua conta. Eu me lembro que ninguém dava muito pelo Tom Hanks no começo, era só um comediante engraçadinho, e eis que o cara é bom pra valer. Os Beatles eram os Beatles, claro, mas existe uma distância enorme entre um divertidinho ‘She loves you, yeah yeah yeah’ e as coisas fantásticas que fizeram. Madonna tinha aquela voz esganiçada e aquele dress code bizarro, e olha ela aí até hoje, mandando ver – e eu nem gosto muito de Madonna… Os exemplos são vários. De resto, os clássicos são mesmo atemporais – grazadeus. E por isso mesmo é sempre tempo de ter contato com eles.
      Obrigada!
      bjk

  3. Mônica,
    O Brasil é vanguardista de letra esdrúxula desde Genival Lacerda e sua “Só capim canela”. Tem motivo pra reclamar não! Quanto mais humor, melhor pra aguentar. Até porque, né?… “Ai, se eu te pego” já tem até versão funkeira! Hahaha!
    Ótimo texto! Como sempre…
    Beijão!

    • Pois num é? O pessoal preocupado com Teló e já tem grupo adaptando a música pro funk, ó que perigo! 😀
      Genival Lacerda é um cRássico, né? Quem não conhece Severina Xique-Xique, que comprou uma butique para a vida melhorar?
      ‘brigada, querida, bom te ver por aqui!
      bjk

  4. Monica,
    O mais engracado eh saber q o tal do Telo veio de uma banda mto divertida chamada Tradicao.
    Nessa banda as musicas eram ate melodicas e despretenciosas, mas ne, quem eh q faz sucesso com esse tipo de coisa…
    Adorei o texto, suas palavras sao sempre musica pros meus ouvidos…Nossa, nossa…hahahaha

    • Sério, Mariana? Nunca ouvi falar dessa banda – mas também eu sou muito pouco antenada nesse tipo de música. Se colocarem as duplas sertanejas misturadas na minha frente, só consigo separar o Chitãozinho e Xororó do resto…
      ‘brigada, baby, espero que á música não desafine! 🙂
      bjk

    • Cleozinha, você tem toda razão, ele só canta. Vou trocar pra ‘gravou’, né? Quando escrevi o post, não tinha lido ainda uma entrevista com a Sharon Acioly que, aliás, gostei bastante. Ela deu uma direta nos críticos, dizendo que cresceu ouvindo Jobim, Caetano, Chico, Djavan, todo mundo, mas que é perfeitamente capaz de distinguir entre uma música para se ouvir e apreciar calmamente e uma pra tocar na balada.
      A Acioly é a compositora da ‘Dança do Quadrado’ – que também fez um sucesso danado, lembra? Hoje é hit nas festinhas infantis, quem diria! 🙂
      bjk e obrigada pela correção!

  5. Sei lá… Já pensou se um Caetano ou uma Ana Carolina “arresolverem” gravar isso? Bom, espero que esse Michel Telógo aproveite a fama enquanto pode.

    • haha, pouco provável mas, né, aposto que aí vai ter gente achando o máximo. Pensando bem, o Caetano já gravou aquela ‘Meia Lua Inteira’, que não é lá coisa nenhuma… daí pra um ‘Ai se eu te pego’ o pulo não é nem tão grande! 😛
      Mas é isso mesmo, tem que aproveitar enquanto tá todo mundo achando legal. Daqui a pouco acaba o verão (aqui nas montanhas ele nem chegou a dar as caras, humpf) e o pessoal vai esquecer da história e da música.

  6. Não podia concordar mais com tudo que foi dito. E até pouco tempo também não sabia quem era Michel Teló – pensava que era algum desses cantores internacionais novos que tocam umas baladinhas românticas.
    Infelizmente nossa cultura valoriza mais coisas como BBB e menos coisas como Bossa Nova e Machado de Assis.

    • É isso mesmo, Amanda, e não é só a cultura daqui da brasilândia não… Pelo sucesso que o moço tá fazendo lá fora, pelo sucesso que programas como Big Brother fazem lá fora, a tendência é mundial. Eu procuro me inteirar do que tá rolando – já pra adotar esses gostos… não, obrigada! 🙂

  7. A vingança,Monica é a seguinte: Todas essas músicas marca mer—– , passarão – Tom jobim,Dorival,Mercedes, e tantos outros estarão na posteridade e viva a música com qualidade.

    • Ah, é a nossa sorte, né? Bach taí, firmão desde o princípio do século 18, Cole Porter taí, desde os anos 40, Jobim taí desde os 50, e cadê a turma do sucesso de uma música só, né? Por isso é que eu acho que a gente não precisa se preocupar – o tempo se encarrega de separar essas coisas. Depois a gente só ouve de novo nas festas, no maior clima retrô, e morre de rir. Outro dia quase tive um troço vendo um DVD com os ‘grandes’ hits da disco music dos anos 70/80. Na época aquilo era o suprassumo da quintessência. Hoje em dia mata a gente de vergonha e riso!

  8. boooooooaaaa!!!

    passei o fim de ano lembrando a família do quanto eles rebolaram a Macarena… o problema cultural converge na base: falta de educação de qualidade o mais generalizada possível. A mídia vive daquilo que predomina na maior quantidade de pessoas… e nada mais.

    • Pois então, eu sei a coreografia da Macarena até hoje, é só tocar nas festas e eu tou lá na pista! 🙂
      Mas é isso mesmo, a gente não pode é só ficar dependendo do que a mídia manda pra nós, né? Músicas esquecíveis como essa têm seu lugarzinho, mas a gente tem que saber ocupar a cabeça com outras coisas que realmente importam. É como eu sempre digo, o problema é que as pessoas acham que é uma coisa OU outra. Pra mim, é uma E outra, tem hora e lugar pra tudo.

  9. Olá, Monica!

    Gostei muito do artigo! Tanto, que resolvi dar o meu pitaco:

    Hoje em dia, a música é classificada, como qualquer outro produto. Você vai na gôndola e escolhe: música para balada, música para churrasco, para relaxar, para filosofar, para apreciar, para louvar, para protestar…rsrsrsrs. Tudo tem hora e lugar. Ficar na mesmice é que é o problema, concordo.

    Nunca antes – esta expressão te lembra alguém? – tivemos tantas opções! Basta selecionar o que se quer ouvir no seu gadget da vez e voilà! Essa história de que essas coisas são enfiadas goela abaixo, para mim, nos tempos atuais, não cola mais. Só se você não tiver como ou não quiser acessar coisa diferente. Na era da internet, do youtube, do google – sem S.O.P.A., ainda – temos acesso a praticamente tudo, de A a Z, em termos de música e cultura em geral. A inclusão digital já é uma realidade. O “filtro” fica a gosto do freguês e depende de inúmeros fatores, para além de qualquer teorização inútil. A educação é importante, sim! Mostrar às crianças o que há de melhor em termos culturais é um dever de pais e professores, agora, as escolhas que elas farão mais tarde já são outros quinhentos.

    Teló é o menor dos problemas e a maior das diversões!
    Carismático, humilde e competente naquilo que se propôs a fazer. Ele tem muita quilometragem de estrada, de palco, de shows e bailes tocados nas bibocas mais improváveis do Brasil. Representa uma sonoridade diferente aos ouvidos de boa parte do país, acostumada com a hegemonia musical e cultural do Sudeste. Sonoridade esta que tem elo – na sanfona – com a música folclórica da Europa e muitos outros países. A sanfona tocada de forma tão alegre e inovadora – para os europeus – certamente, contribuiu para o sucesso da música.

    E o mais interessante são os estrangeiros querendo aprender português só por causa da música! Isto é fenomenal. Representa uma quebra de barreira linguística que, tenho a impressão, é novidade em nosso país.

    Com relação a “Ai seu te pego”: eu acho genial! Na interpretação de Michel ficou sapeca, sem ser obscena! Sim, Monica, já vimos e veremos coisas bem piores neste quesito.
    E além disso a letra fácil, com palavras pequenas e corriqueiras, permite versões, em praticamente todas as línguas, sem que se tenha que fazer grandes malabarismos fonéticos para encaixar dentro da melodia. Por si só, considero isto fantástico. Aliás, a versão em francês é uma graça!

    Dificilmente, qualquer outra obra musical brasileira mais sofisticada teria este impacto tão generalizado. O que acontece são sucessos para um público estrangeiro bem restrito e reforçado, muitas vezes, por brasileiros radicados no exterior. Sucesso, em nichos bem definidos como a bossa nova, o jazz, a mpb.

    Acho que Teló já tem seu público fiel conquistado, aqui no Brasil, e, provavelmente, como já acontece com tantos artistas, o que hoje é estranho/brega/pobre pode virar CULT um dia. Quem viver verá.

    • Oi Andréia, adorei seu comentário!
      Engraçado como a gente não sabe o que vai ou não vai fazer sucesso, né, aposto um picolé de limão que ninguém previu esse estouro da música. Você tem razão, a letra cabe mutias variações em muitas línguas, o ritmo é gostoso e o apelo imediato. Mas acho que o real motivo desse auê todo vai continuar sendo um mistério. A única coisa chata é que esse é um tipo de música ‘de verão’, dessas que provavelmente vão ser esquecidas no ano que vem, e a música brasileira é bem mais rica do que esses exemplos passageiros podem indicar. Temos cantores talentosíssimos que, por não fazerem música de apelo óbvio, não conseguem deslanchar. Esse é um problema no mundo inteiro, não só aqui. Mas coisas ‘tolinhas’ como ‘Ai Se Eu Te Pego’ podem ser uma boa porta (nem que seja uma frestazinha de nada) de entrada pro pessoal lá fora ficar curioso e querer conhecer mais e melhor a nossa cultura. Pelo menos, é a minha torcida! Abraço

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s