Baixando o sarrafo

Até o ano passado, pra mim, MMA poderia ser traduzido como Ministério do Meio Ambiente e UFC como Universidade Federal do Ceará. Claro, já tinha ouvido falar da família Gracie e das lutas de vale-tudo (só não vale dançar homem com homem nem mulher com mulher, diria o síndico Tim Maia), mas era tudo assim bem en passant mesmo, algo tão relevante e próximo da minha existência cotidiana quanto debêntures conversíveis ou a escalação do Atlético no Brasileirão. E eu sempre tive aquela dificuldade enorme de perceber lutas como esporte, porque na minha cabeça esporte é saúde e bem estar, e olho roxo, costelas quebradas e supercílios abertos nunca se encaixaram muito bem nessa equação.

Mas eis que tudo isso mudou um pouco com a chegada de um aluno personal killer trainer que leva essas lutas super a sério. Rapidinho eu fui apresentada às diferentes categorias, quem tem que pesar quanto, os tipos de golpes, quem é quem no mercado mundial da porrada, aprendi sobre dietas, shakes, vitaminas e suplementos. Ele ia me passando as informações em português, eu corria atrás dos nomes em inglês. Se não fosse por esse aluno, eu provavelmente teria chegado em casa no sábado de madrugada e ido direto pra minha caminha, mas ao invés disso resolvi ligar a tv para dar uma espiada na(s) luta(s) que estava(m) acontecendo no Rio, pra colocar em prática meus recentes conhecimentos.

Pois ainda não entendi qual a graça que o pessoal vê nesse quebra-pau, mas imagino que deve ter, né, a julgar pelo entusiasmo incontido do público. Eu acho que seria mais emocionante transformar a arena num verdadeiro Coliseu e soltar logo uma meia dúzia de leões esfomeados no octógono pra ver o que acontece. Cheguei a tempo de assistir ao card principal, mas acabei sendo nocauteada pelo sono logo após o confronto entre Belfort e sei-lá-como-chama-o-outro-moço. Como não me lembrava mais dos nomes, fiz o que todo torcedor engajado faz e torci pelo Brasil-sil-sil, principalmente por um baixinho de Dores do Indaiá que desceu a mão e os pés num grandalhão internacional. Gente, sair do interiorzão de Minas pra dar uma chave de perna caprichada no adversário eu achei tudo de bom.

Mas é tudo muito rápido, né, aquela coisa meio catártica que faz o sujeito continuar socando o outro caboclo enquanto espreme seu pescoço e quase quebra a perna dele em três lugares. Menos de cinco minutos de sangue, suor e lágrimas e estamos conversados, cada um pro seu canto. E os ingressos pra ver tudo isso in loco (mais pelo telão do que a olho nu), me disseram, custam uma pequena fortuna. Sei lá, uma dessas não me pega uma segunda vez não.

(falando nisso – quer dizer, mais ou menos nisso – o grande Muhammad Ali, aquele que ‘flutua como uma borboleta mas pica como uma abelha’, sopra hoje 70 velinhas. Sempre achei boxe o fim da dinastia, mas um cara que disse, entre outras coisas, “Não tenho nada contra nenhum Vietcongue. Nenhum vietnamita jamais me chamou de “crioulo”” e bateu o pé e não foi pra guerra merece a minha mais profunda e sincera admiração)
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14 respostas em “Baixando o sarrafo

  1. Eu concordo do jeitinho com tudo que você disse Mônica. Que coisa mais tosca, né.Mas, alguma coisa me preocupa. A dois anos atrás eu liguei para os meus filhos aí em Belô no Sábado de madrugada e pensei: esses jovens devem estar em boates com as namoradas…Nada disso: do outro lado da linha meu filho Guilherme disse: ” Pai, estamos com toda a galera aqui em casa para ver a luta do Anderson no MMA. Anderson ( ? ). Nunca tinha visto falar no nome desse “fala fino” que agora é o carro chefe da publicidade nacional.Virou celebridade!
    Agora , depois de ler o seu texto eu conferi. A Globo teve 55% de de share no Ibope, (número de televisores ligados por número de sintonizados no canal) as 3 horas da madrugada e as lutas do último sábado do MMA foram vistas por 1 bilhão de pessoas no mundo. Lí agora um cronista especializado dizendo ” O MMA pode ultrapassar o futebol como modalidade preferida dos brasileiros em poucos anos ” . Claro que isso é um exagero, mas só de pensar que a garotada fica em altas horas da madrugada de sábado vendo dois marmanjos dando joelhadas um no outo me preocupa.

    • Pois é, Gilson… Mas vamos pensar positivo: pelo menos o pessoal tá em casa às 3 da manhã, ao invés de estar tomando todas na rua. Conheço um monte de gente que assiste e torce, e eu sou mais ou menos como você; quando me falaram no tal Minotauro, pensei cá com meus botões: o dia que aparecer um Teseu, esse moço tá frito… 🙂
      Não sei se tem alguma chance de virar paixão nacional que nem o futebol (que, cá pra nós, também já está na base da porrada faz tempo), mas é incrível ver como tem brasileiro interessado. Acho que é porque muitos lutadores são daqui, talvez? Quando a gente tinha Senna e Piquet na Fórmula 1, todo mundo acompanhava, agora ninguém nem tchuns…

  2. Feliz ano novo, minha amiga blogueira!!!!! Estou de volta depois de alguns dias vendo o mato crescer e a chuva cair.
    Sobre a porradaria da moda, concordo contigo, e porque não reabilitar o Coliseu para sua função original de uma vez, que vai ser muito mais interessante. Podíamos aproveitar e transformar os estádios que serão construídos para a Copa em verdadeiras arenas (que é como agora se chamam os estádios, não sei como começou essa moda também)
    Só uma dúvida, o que é debênture conversível, é um daqueles carrinhos esporte dos anos 60?

    • Ôpa, mato crescendo é tudo de bom, sossego, vida mansa e overdose de oxigênio! Bem vindo de volta à doidolândia…
      A ideia de transformar estádios em verdadeiras arenas é boa, hein… Enquanto o Mineirão está em obras, os jogos estão acontecendo em Sete Lagoas, na Arena do Jacaré – ali eles poderiam trocar os leões pelos próprios! Acho que seria um sucesso de público e crítica.
      Não faço a menor ideia do que sejam debêntures conversíveis, mesmo depois de dar um Google pra descobrir. Ouvi numa entrevista na TV outro dia e achei o nome super chique. Mas pra ser um carrinho não custa, já pensou você passeando pela cidade no seu debênture conversível com o som no talo? 🙂

  3. O que acontece, é que hoje ficou “bonito” gostar de UFC. Eu sou uma pessoa que desde pequena adorava aquelas lutas do Mike Tyson, eu acordava de madrugada pra assistir escondido do meu pai, porque né, eu era pequena. Adoro lutas, e adorava mais ainda, quando não tinha tantas regras, hoje já nao tem muita graça, elas duram minutos e algumas nem chegam a isso. O problema é que o UFC “cresceu” e todo mundo diz que “adora ver lutas”, eu acredito em quem fala que gosta só se já gostava bem antes, assim como eu. Mas enfim… gosto é gosto, kkkkkk, e eu “adóóóóuro” ficar esperando madrugada adentro pra ver a luta favorita, kkkkkkkkk. Ano passado teve MMA aqui em Porto Alegre (com lutadores nem tão conhecidos) e lá estava eu, junto com marido, as 3h da manhã pra ver a luta principal, que nem foi tão boa assim…. mas só pelo fato de gostar do “esporte”, já tava valendo, kkkk. Bjo bjo!

    • Tá vendo como são as coisas? Quando eu era pequena o ‘must’ eram aquelas lutas fajutas de telecatch com o Ted Boy Marino, tudo super teatral e fake, mas pelo menos divertia. Eu sempre morri de aflição das porradas do Mike Tyson… Do Ali eu gostava, mas acho que era mais mesmo da atitude dele do que como lutador. Enfim, cada um com seu cada qual, né? Eu era bem menina e adorava ver corrida de Fórmula 1, era a época do Emerson Fittipaldi, Jackie Stewart e José Carlos Pace, e continuou até bem depois da morte do Senna. Aí ficou tudo meio chato até um ou dois anos atrás, mas já era tarde demais, eu já tinha desencantado… 🙂
      bjk!!!

  4. bão,
    eu ainda acho esse negócio de ficar vendo dois caras musculosos seminus se pegando, fazendo carinha de mau um para o outro, tudo isso cercado por adjetivos como “catártico” e “vale tudo” é uma coisa muito viada…
    Mas não tô aqui para criticar a opção sequiçual de ninguém, deusquemelivre…

    • Olha, no chão, com outra trilha sonora, até pode ser, mas quando os moços levantam e saem distribuindo sopapos, a coisa fica feia. Eu via uns moços fortes daquele jeito e só pensava no armário pesadíssimo que eu tenho aqui na sala de TV e que tou precisando mudar de lugar… e cadê que a gente encontra uns braços fortes pro serviço???

  5. mas vc não ouviu falar que a história se repete em ciclos? gladiadores modernos, imperialismo dos novos romanos dos EUA… a queda da Grécia… é o vaivém habitual das desculturas…

  6. Querida Monica, está cada vez mais difícil para esse que te fala escrever algo no seu post.
    Basicamente porque concordo com absolutamente tudo o que você escreveu, a luta, o Coliseu, o preço do ingresso, o boxe, o Muhammad Ali. Não sobrou espaço para discutir nada.
    Anos atrás, quando me diziam que o mundo estava ficando cada vez mais “tosco”, e eu dizia: “Impossível, só tende a melhorar”, eu não fazia idéia do quanto eu estava errado. Sempre há espaço para mais tosquice e ignorância. Detalhe: sou um otimista de carteirinha!

    • éééé… como dizem por aí, fundo de poço tem porão! 🙂
      Pra falar a verdade, eu até que ‘se’ divirto com essas diferenças. Eu sempre adorei Fórmula 1 e tem gente que acha aquilo a maior falta do que fazer, né? Gente é como sorvete, tem de diversas qualidade, diria o meu avô…
      Mas pode continuar comentando, viu, tem sempre uma coisinha pra acrescentar, um caso, um porém, um quem sabe…
      abraço

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