A imprensa já foi mais inteligente

O Carlos Nascimento começou o jornal de quinta-feira na TV reclamando que ‘nós já fomos mais inteligentes’, referindo-se ao auê em torno da volta de Luiza do Canadá e do suposto estupro na atual edição do BBB. Minha dúvida desde então é saber quem exatamente é esse ‘nós’ a que o moço se refere – ele quis dizer assim, um ‘nós’ mais geral, eu você e o sêo Zé das Couves ou o ‘nós’ = a imprensa da brasilândia? Porque, pelo menos na minha cabeça, isso faz uma diferença e tanto.

Eu, você e o sêo Zé das Couves nunca fomos em nada diferentes do que foram milhões de outros antes de nós. Duvido até que isso tenha qualquer coisa a ver com inteligência, essa coisinha mais difícil de definir. O que é diferente hoje é que a bobagem que faz sucesso lá em João Pessoa não fica mais restrita à Paraíba, basta um clique e num minuto já estamos sabendo e compartilhando mundão afora. Sinceramente, eu não vejo problema nenhum nisso. Mas o instinto de aproveitar a chance de espalhar uma tolice, ah! essa vem de muito tempo. Imagina só se em 1959 existisse a internet, quando o rinoceronte Cacareco recebeu 100 mil votos para vereador em São Paulo! E quem não se lembra do Macaco Tião, o chimpanzé que levou mais de 400 mil votos para prefeito do Rio? Foi o terceiro mais votado, e sem Twitter ou página no Facebook. Quando meu irmão estava no colégio, um grupo resolveu concorrer ao grêmio estudantil com a chapa Tradição, que pregava a volta de uniformes (jaqueta e gravata para eles, saia e meia três-quartos para elas), hasteamento diário da bandeira e castigo para os indisciplinados. No dia da eleição, tiveram que fazer a maior boca-de-urna pro pessoal não votar neles, porque a galera tinha aderido à brincadeira e o grupo estava em vias de ser eleito.

Preciso da ‘Luíza que está no Canadá’, porque bobagem também faz parte, e não dá pra ser intensa o tempo todo. Como preciso do Bruce Willis dando porrada no vilão, porque não posso embolachar a cara do chefe ou dar um sopapo no motorista idiota que abriu a janela de sua BMW último tipo para atirar lixo na rua – e aquele filme iraniano super bacana não vai resolver meu problema. Preciso da revista Caras, porque Fernando Pessoa não combina com espera no salão de beleza (e olha que eu adoro o Fernando, grande pessoa!). Preciso sentar no botequim com meus amigos e falar abobrinhas e rir e contar piada, porque nem sempre estou disposta a grandes discussões profundas e filosóficas.

Quanto ao estupro (se realmente houve ou não, acho secundário no momento), eu, você e sêo Zé das Couves temos mais é que falar sobre isso sim. Pro meu gosto, um programa como o Big Brother nem existiria – pra sorte dos apreciadores do gênero, minha opinião é absolutamente irrelevante nessa hora – mas discutir o assunto é extremamente relevante num país onde esse tipo de crime é muito mais comum do que se imagina. Pelo menos pra isso esse reality show serviria. De fútil e idiota esse assunto não tem nada.

Agora, se o Nascimento queria dizer que ‘nós’ são jornalistas, como ele, aí eu até sou obrigada a concordar. A imprensa realmente já foi mais inteligente. Já foi também mais investigativa, mais analítica, já fez mais perguntas. Hoje em dia ela só corre pra publicar primeiro a história que alguém postou no Twitter há dez minutos. No processo, acaba se esquecendo de checar os fatos (a moça dizia estar grávida de quadrigêmeas e ninguém se lembrou de ir lá perguntar pro médico dela como era isso) ou publica como verdadeiras as notícias escritas em sites de humor. Também exibe na primeira página notinhas de altíssima relevância (not!) e dá a maior corda para a sub-celebridade da vez. Mas conteúdo mesmo, que é bom, necas. O caso é que antigamente a TV ditava os bordões, mas o ‘Cala a boca, Magda!’ do programa da Globo é o ‘Cala a boca, Galvão!’ que virou trending topic no Twitter e foi parar até no New York Times. Luíza estava no Canadá e a piadinha já rolava há uns dois dias no Twitter – teria sido mais um dos milhares de sucessos instantâneos e passageiros da rede social, se a imprensa não tivesse decidido que aquilo ali era notícia. Os publicitários, mestres em criar os seus próprios bordões (‘Não é uma Brastemp…’), saíram correndo pra capitalizar em cima do sucesso do ‘menos Luiza, que está no Canadá’.

É isso então, a galera da internet agora virou criadora de conteúdo. Os jornalistas, colunistas, comentaristas e outros ‘istas’ bem que podiam aproveitar a deixa pra tentar explicar pra gente como uma menina de 17 anos de repente vira o assunto do momento sem fazer absolutamente nada – na verdade, ela nem estava no comercial que a levou ao estrelato momentâneo. Eles poderiam também aproveitar o ensejo e entrevistar juristas, médicos, psicólogos e quem mais fosse relevante para discutir abuso sexual, principalmente numa época em que a combinação balada-álcool-sexo é o novo ‘escurinho-do-cinema’. Mas não. O que a imprensa faz é só dar destaque ao fato, porque notícia atualmente não tem nada a ver com qualidade da informação, é só uma questão de ‘eu publiquei primeiro’. Realmente, muito inteligente isso. Como disse o pessoal do KibeLoco, o Carlos Nascimento abriu o telejornal com a crítica e deve ter terminado a edição dizendo ‘Fiquem agora com o Programa do Ratinho’. Olha, me desculpe aí o mau jeito, Carlos, mas eu ainda sou muito mais as bobagens da internet.
***

15 respostas em “A imprensa já foi mais inteligente

  1. Parabéns, Mônica, por mais um artigo brilhante! O melhor parágrafo, na minha opinião é o “Preciso da Luíza que está no Canadá…”. Realmente, precisamos dessas coisas sim. Quem foi mesmo que falou que a arte é necessária? Foi Hegel? Panis et circenses, diziam os romanos aqueles doidos, segundo Asterix… idéias diferentes, contrastantes e contraditórias, de como as mediocridades são necessárias ou manipuladoras (“-Mediocridades do mundo, eu as absolvo” – Salieri, em Amadeus). Eu fico com o Salieri. Creio que o importante, é mantermos o filtro ligado e sabermos identificar os excessos e evitá-los.

    P.S. Tuitei, tá?

    • Obrigada pelo tuíte, Marcus! É isso mesmo que você falou, temos que manter o filtro ligado pra saber até mesmo quando falar sério e quando brincar. Mas a bobagem e o riso frouxo são partes integrantes da nossa vida. Quando vemos que gente como Aristóteles e Santo Tomás de Aquino falavam da importância do riso e da brincadeira, dá pra ver que bobagem é coisa muito séria. Todo mundo riu e se divertiu, menos o Carlos Nascimento. E ele nem estava no Canadá… 🙂

  2. Pois é.
    Tem a história do nosso avô paterno que foi ao cinema -matinê- no domingo à tarde com nossa avó. Isso lá pelos anos 30 ou 40… Ao sair do cinema encontrou com um amigo que disse: “Mas Pedro! Você uma pessoa tão inteligente… vindo ver um filme “água-com-açúcar”! Estou desapontado!” Ao que nosso avô respondeu: ” ‘Fulano’ (não sabemos o nome do amigo)… de amarga já basta a vida!”
    Tolices são coisas sérias também!… Né não?

    • Não sei de onde esse povo tira que uma pessoa ‘inteligente’ só pode ver, ler ou conversar sobre ‘coisas sérias’. Alguns dos melhores papos que eu já tive começaram como brincadeira – e terminaram também, mas no meio teve sustança. Tolice é da maior importância!

  3. Gente, eu quero a Monica pra presidentA.😉
    Adorei o texto e as informações que eu nem sabia, como essa do rinoceronte.
    E, ops, como diz uma menina que eu conheço: melhor rir do que chorar.😉
    Bjs!

    • Eve, eu ando correndo até de ser síndica do prédio… 🙂
      Essa do rinoceronte quem ‘cantou a peça’ foi um amigo outro dia, eu só conhecia a do macaco Tião, que foi bem mais recente. Mas é isso mesmo, melhor rir do que chorar, e bom humor é sempre altamente recomendável, né?
      bjk

  4. Mônica, parabéns!!! Tantas críticas incoerentes e vem você defendendo o “não politicamente correto” com tanta coerência de informação!! Ameei!! Posso compartilhar primeiro??? Brincadeirinha…;-)

    • Pode compartilhar à vontade, uai, problema nenhum!🙂
      Eu acho que tem gente que acha que as coisas são excludentes, né, que se você gosta de Fernando Pessoa, não pode ler Caras, se ouve Beethoven um forrozinho está fora de cogitação. Tudo pode, ‘com temperança’, como dizia a minha avó. E dizer que a gente não pode curtir a Luiza que estava no Canadá porque existem muitos problemas sérios no Brasil, olha, pois eu acho é que é justamente por termos tantos problemas é que de vez em quando tem que vir um refresco!

  5. Isso aí… Monica

    Ai de nós e do mundo se não fosse o ecletismo,
    de cada gênero nas coisas existentes,
    sempre há algo que mesmo um elitista, um nerd possa se apegar,
    (até como referencial em pesquisas).
    Caso contrário, a convivência seria um horror,
    “questão só de peso e medida” Billy Blanco, já mencionei aqui,
    — admirar o que é cult, ‘inclui’ o popular — o que é bem diferente do vulgar!

    Já dizia Mário Quintana:

    Da mediocridade

    Nossa alma incapaz e pequenina
    Mais complacência que irrisão merece.
    Se ninguém é tão bom quanto imagina
    Também não é tão mau como parece.
    in: Espelho Mágico

    • Geeeente, Quintana não é o máximo?🙂
      É isso aí, popular e vulgar são duas coisas distintas…
      Além disso, embora o BBB seja, na minha modestíssima opinião, um programinha danado de ruim, acho que o que aconteceu (ou não) dentro daquela casa tem repercussão sim, e um possível caso de abuxo sexual é tudo, menos futilidade. O Carlos Nascimento errou feio nessa…

  6. Uma ‘opinião particular’,
    ‘a questão BBB’, não se inclui nas bobagens sadias
    e às vezes até irônicas por passatempo!
    a isso denominamos de pausa necessária,
    aquela… para um simples e inocente cafezinho!!!
    um comentário bobo que se propaga, e às vezes, torna-se até aquilo
    que precisávamos para desopilar de um dia complicado e enfadonho!
    “Tenho candor por bobagens.
    Quando eu crescer, eu vou ficar criança.”
    (Manoel de Barros – O livro de Bernardo)
    (Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo)

    O que eu imagino sobre ele (o programa), nem posso escrever aqui,
    vou dizer em palavras respeitosas ao seu blog:
    É uma ‘experiência’ com seres humanos, um confinamento.
    Psicólogos, psiquiatras, antropólogos que se pronunciem.

    Considero insano, mas se a população aplaude… merece!
    Uma seleção de pessoas estas, SIM, com fins contraproducentes
    para um meio de formação de opinião, incluindo nisto, comportamento.
    Não se trata de moralismo barato ou puritanismo,
    mas a mídia brasileira deve se impor respeito!!!
    Os motéis (alguns) e clubes de massagens, etc… estão em todo o país,
    com os mesmos fins do programa! Disse!!!

    • É, do programa também não gosto nem um pouco, mas acho que a imprensa perdeu uma boa oportunidade de discutir alguns pontos importantes nesse episódio do casal, que culminou com a expulsão do rapaz. Gastaram uma energia enorme falando do episódio em si, quando poderiam ter explorado o problema de uma maneira geral…

  7. Concordo, Monica

    “… quando poderiam ter explorado o problema de uma maneira geral…”

    – Nosso jornalismo atualmente está precário e desvirtuado!
    Grande abraço!

  8. É isso aí Mônica, muito bem dito e escrito. E boa memória essa sua, não me lembrava dessa história do grêmio estudantil há muito tempo. Na verdade, o nome da chapa era “Moralização”, que soa ainda mais pesado e ridículo, e ainda mais difícil de se levar a sério, (principalmente prá quem conhecia o estilo daquele colégio naqueles tempos). Mas foi verdade mesmo, acho que é o mesmo processo que leva a se elegerem os Tiriricas da vida.

    • Nossa, Moralização é ainda melhor!🙂
      Fico imaginando o que teria acontecido se eles tivessem sido eleitos, que aperto iriam passar… O risco é esse, né, a brincadeira ficar séria e a piada desandar!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s