Album de família

Duas certezas incontestáveis na minha família. A primeira é que em algum momento, uma bela hora, quando menos se esperar (ou quando mais se esperar), vai haver uma festa. Família grande com muitos tios, muitos primos – alguns já com netos e tudo – e amigos já incorporados à bagunça, modosque tem sempre um aniversário, um batizado, uma formatura, noivado ou um casamento marcado na agenda. Na entressafra das comemorações oficiais, alguém sempre providencia um churrasco, um cafezinho no fim da tarde, uma reunião qualquer na casa de alguém.

A segunda certeza é a de que vai haver registro. Muita gente vai levar câmera, alguns vão empunhando suas moderníssimas filmadoras, os mais práticos vão sacar seus celulares do bolso para cliques eventuais. Tem sido assim desde sempre, desde que eu me entendo por gente, e só lá em casa são caixas e mais caixas de fotografias a cores e em preto-e-branco, slides, gravações em fita de rolo, fitas de videocassete, gigabytes de sons e imagens. Na falta de um evento de maior vulto, fotografa-se a frente da casa com as crianças no jardim, a mesa de almoço no domingo, o passeio ao zoológico, o primeiro dia de aula, os amigos que vieram visitar, o cachorro deitado na varanda, o campeonato de ping-pong, isso sem falar nas fotos das viagens.

Meus avós se foram, meus pais também, assim como quase todos os tios, e as fotos de família começaram a se espalhar. O acervo era enorme, mas a gente já não tinha muita certeza de onde tinham ido parar as fotos do Natal de 1976, daquele passeio à fazenda, quem tinha ficado com as fotos das bodas de diamante do vovô e vovó. Isso até agora. Há umas poucas semanas um primo teve a ideia de montar um grupo fechado no Facebook, e ali estão sendo postadas e curtidas e comentadas fotos e vídeos que a gente nem imaginava. Fotos dos anos 20, a família ainda no interior, dos anos 30 e 40,  com uma Belo Horizonte muito diferente da capital que é hoje, os primos ainda bem pequenos nos anos 50, as festas nos anos 60 e 70 (modelitos e fartas cabeleiras que dão o que falar!), a nova geração que começou a chegar em meados dos anos 80, a novíssima acabando de adentrar o gramado.

E, mais bacana ainda do que poder baixar fotos antigas, fotos que não tínhamos mas que todo mundo queria uma cópia, tem sido a experiência única e divertida de recriar toda a história da família, relembrar eventos, pessoas, lugares, casos e notícias, brincar sobre a magreza de um, os óculos de gatinho da outra, o Maverick cor de abóbora do tio, a calça boca-de-sino listrada e justésima que o primo usava, o rádio enorme de válvula do escritório do vovô. E assim os mais novinhos vão conhecendo um pouco de uma época que não chegaram a viver, mas que agora podemos compartilhar. Foi uma ideia tão simples e tão facinha de executar, mas ninguém imaginava que o sucesso seria tamanho. Agora, além das comemorações tradicionais, a família também se encontra regularmente na virtualidade, reconstruindo e mantendo viva sua própria história. E as fotos não param de chegar…
***

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8 respostas em “Album de família

  1. Tudo isso é muito bom!
    A parte das comilanças então… Hmmm… Nem se fala.
    Na minha família também tem disso e, além de ser gostoso, é importante.
    Comer e rir a maior parte do tempo são grandes prazeres da vida…hehe.
    Pena que o tempo passa… Já estou na fase em que serei tio, isso provavelmente pelos meados deste ano…hehehe.

    Bjo

    • Ah, comilança (e bebelança) não pode faltar, né? A gente se diverte horrores.
      Ontem estava no aniversário do filho de um primo e comentávamos exatamente sobre a passagem do tempo. Há alguns anos éramos nós no ‘centro’ da festa, com os pais e tios em volta, hoje somos nós na plateia e a meninada mandando ver no sambão e dominando as conversas. É divertido ver como as coisas trocam de posição, eu acho a passagem do tempo bem legal. Já pensou a gente entalado eternamente na adolescência, que horror? 🙂
      bjk

  2. Álbum de família.
    Tenho idade para dizer que sei exatamente o que é isto.
    Agradeço pela lindíssima crônica, Moniquinha.
    Voltei lá pra minha terra, meiados dos anos 50, quando comecei a me entender por gente.
    Prazer junto com saudade, uma boa dupla para minha manhã de domingo.
    Beijão.

    • De nada, baby!
      É um exercício divertido – e importante – esse de lembrar-se das pessoas e do que já se viveu, né? O bacana é que a geração dos filhos dos primos também está participando no entusiasmo, e cada nova foto postada é uma farra…
      bjk

  3. Muito tudo, né Mônica. Essa ideia do marcolita foi genial! Um bom momento para interagir (detesto essa palavra), com os primos! Legal por demais!!

    • Preocupa não – o fashion de hoje é o brega de amanhã e o ‘vintage’ de depois de amanhã. A gente se diverte exatamente com essas coisas. E a meninada morre de rir agora, mas quero só ver daqui a uns 15 anos, o que eles vão achar da moda que eles acham o suprassumo da quintessência atualmente! 🙂

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