O espião que sabia demais

A vida dos arqueólogos tem menos que um nadinha assim em comum com a do Indiana Jones. O cotidiano dos peritos da polícia é muito diferente do dia a dia do pessoal do seriado CSI. Eu já perguntei para várias amigas médicas (nem adianta perguntar essas coisas pros rapazes) e todas me garantiram que não há nenhuma sala de emergência com um pediatra remotamente parecido com o dr. Doug ‘George Clooney’ Ross quando a gente mais precisa. Ficção é uma coisa, meus amiguinhos, realidade é coisinha bem outra.

David John Moore Cornwell sabe disso melhor que ninguém. Por muitos anos ele foi agente secreto do MI6 a serviço de Sua Majestade, isso até ele e alguns colegas serem denunciados por um agente duplo que fazia hora extra pra KGB. Terminava ali a carreira de espião mas nascia, para nossa sorte, a do escritor John Le Carré. Nada de perseguições em Aston Martins pelas estradinhas da Costa Amalfitana ou explosões cinematográficas. Sai o smoking Armani, entra a capa de chuva da liquidação na C&A, adeus equipamentos tecnológicos mirabolantes de última geração, entram em cena horas e horas pesquisando documentos e transcrevendo conversas telefônicas no porão do quartel-general. Loosho e glamour é coisa para Bond, James Bond, a vida de um agente secreto genérico está mais para George Smiley e seus enormes óculos de grau, cabelo raleando e trenchcoat marrom.

Teve gente achando ruim mas, pra mim, foi justamente esse clima anti-glamour que fez de O Espião que Sabia Demais (‘Tinker, Tailor, Soldier, Spy’) um filme interessante. Dirigido pelo sueco Tomas Alfredson (que eu cismo de chamar de Alfred Tomasson), o filme é um tanto quanto lento, sillencioso e econômico nos diálogos, traz uma fotografia em tons esverdeados e cheia de sombras, mostrando aquelas ruazinhas laterais estreitas e pouco turísticas da City londrina. em vez dos pontos turísticos de praxe. George Smiley (Gary Oldman) é um agente que se aposentou junto com seu chefe Control (John Hurt) depois que uma operação confidencial na Europa Oriental deu muito errado. Smiley é requisitado de volta a pedido do novo chefe, e com uma missão nada fácil: descobrir qual daqueles agentes especiais está trabalhando para o ‘outro lado’ (e o outro lado, no começo da década de 70 era, naturalmente, a União Soviética). Control deixa algumas dicas antes de morrer, mas cabe a Smiley/Oldman a tarefa de montar o quebra-cabeças: seria Bill Haydon (Colin Firth)? Percy Alleline (Toby Jones)? Quem sabe Toby Esterhase (David Dencik)? Talvez Roy Bland (Ciáran Hinds, que eu só consigo achar que é vilão, sempre sempre sempre)?

O problema, gente, é o roteiro. Ou pelo menos alguma coisa no roteiro, por isso fiquei tão surpresa quando vi o danado entre os candidatos ao Oscar. Eu gosto de filmes que me fazem prestar muita atenção, não poder piscar porque vai que perde a informação crucial, desses que a gente nem compra pipoca, que é pra não distrair nem um minutinho. E eu prestei a maior atenção, viu, mas ao acender das luzes eu estava com um monte de dúvidas na cabeça. Eram muitos nomes, vários flashbacks surgindo do nada no meio da história, e de repente eu estava mais por fora do que portão de garagem. E pelo tanto de gente que eu ouvi fazendo a mesma reclamação, acredito que, pelo menos desta vez, o problema não estava na minha dupla de intrépidos neurônios, Adamastor e Hermengarda. O roteiro é confuso mesmo.

Mas o filme é bacana, Gary Oldman está ótimo, Colin Firth é sempre de encher nossos olhos, a trilha anos-70 é tudo de bom e, se você for um dos felizardos que já leram o livro do John Le Carré, provavelmente vai tirar a salada do roteiro de letra. O meu meio de campo é que ficou bem embolado dessa vez. O espião sabia demais, mas eu saí do cinema sabendo de menos.
***

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5 respostas em “O espião que sabia demais

    • A gente precisa conhecer os próprios neurônios, né Miriam? A começar pelos nomes… Já que eu tenho só dois, acho conveniente estabelecer uma relação mais estreita com eles! 🙂

  1. Comentando quatro anos depois mas acho que está valendo hahah!

    Adorei sua resenha, esse filme é daquele tipo que pedia um briefing no meio, uma breve explicação das implicações política antes de retornar para o fim, o filme é muito bom mas você só entende bem quando assiste a segunda vez.

    Comprei o livro e estou esperando chegar, espero que complemente minha experiância

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