Segunda-feira

Nem sete horas da manhã de uma segunda-feira chuvosa e feia, eu sentada na sala de espera do laboratório tentando desesperadamente me manter acordada apesar das ínfimas quatro horas de sono na noite anterior (um dia alguém lá nos Istêitis ainda vai quebrar meu galho e mudar essas cerimônias de Grammy e Oscar para o sábado, gente mais sem coração…). Enquanto aguardo meu número ser chamado, um moço de idade indefinida – sou péssima pra adivinhar essas coisas – puxa conversa e pergunta se pode ter uma palavrinha comigo. Quem quer ter uma palavrinha com qualquer cidadão com cara de ontem numa segunda-feira dessas não está querendo saber as horas ou esclarecer dúvidas sobre os métodos avançados de coleta de sangue, mas com meus dois neurônios Adamastor e Hermengarda ainda em estado de hibernação, eu apenas sorri meio sonolenta e isso deve ter dado um certo alento ao cavalheiro. Que então passou a me explicar que se achava na obrigação de dar um testemunho de sua cura por Jesus e que, apesar de todos os diagnósticos médicos indicando que sua esquizofrenia o acompanharia pelo resto de sua vida, ali estava ele, totalmente curado, para mostrar que tudo é possível quando pedimos a Deus com fé. Para ser sincera, e embora não seja profissional da área, o moço não me pareceu assim tão bem, mas às seis e meia da manhã de uma segunda-feira com chuva pouca gente deve parecer normal e sã, e isso me fez apenas dar um sorriso econômico e comentar ‘que bom’. E aí ele me disse o que eu deveria fazer para também ter todos os meus problemas resolvidos, fossem de trabalho, saúde ou relacionamento, e eu escutei educadamente e agradeci, comentando que hoje em dia eu estou mais na vibe de agradecer a Deus do que de pedir, mas que, de qualquer maneira, apreciava a dica. E ele sorriu, perguntou meu nome e agradeceu minha atenção em escutá-lo, não sem antes me comunicar que se lembraria do meu nome nas suas orações mais tarde, para que eu fosse sempre feliz e tivesse muita saúde. No final das contas é bom a gente já começar uma semana nublada assim, com alguém inesperadamente torcendo pela nossa felicidade e saúde, né?
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18 respostas em “Segunda-feira

  1. Bem legal e humana o seu jeito de lidar com o môço lá. Em uma era tão conturbada e violenta, ainda tem gente que aparece do nada para nos desejar o bem. Mesmo que não compartilhemos da religião deles, uma atitude calma e grata é o mínimo de humanidade que podemos demonstrar em retribuição. Parabéns!

    • É o que eu acho, Marcus. Não dispenso boas vibrações de jeito nenhum, vindo na embalagem que vier. É muito bom a gente poder dar e receber o bem, né? E geralmente não custa nadinha – fiquei lá só ouvindo e sorrindo pro moço, não dei corda, mas também não cortei o barato dele. E ainda saí com agradecimentos, acho que fiquei no lucro!

  2. Muito bacana sua atitude em saber ouvir o moço Monica! Porque eu já vi simples casos assim virarem uma cansativa discussão. Muitas das vezes escuto esses depoimentos de conhecidos e amigos e ao mesmo tempo em que sinto a pessoa querer me guiar pelo seu infalível solução dos meus problemas, também sinto que ao menos é bom que ele torça pelo melhor, mesmo quando desconhece o histórico de quem ele está conversando. Acho que muitas vezes o segredo é ouvir a opinião alheia com paciência e humildade, ainda que seja sobre fé religiosa.

    • Ah, Priscila, eu não discuto religião de jeito nenhum. Com ninguém, até mesmo com quem compartilha das minhas crenças. E respeito todo mundo nessa hora, inclusive quem não tem crença nenhuma. Acho muito chato essa história de querer impor o seu ponto de vista num assusnto que é simplesmente uma questão individual. Quando me perguntam o que eu acho, tento dar minha opinião sem ofender a crença do outro. Até porque a gente não tem a mínima ideia do que vai acontecer lá na frente, então o melhor é aproveitar aqui, ser legal e pronto, depois descobre o que acontece, se é que acontece…

    • Uai, mas então tá bom demais da conta, vai ser uma super semana com certeza! Eu sempre me lembro de agradecer as pessoas bacanas que cruzam (e as que ficam) o meu camiinho, sou meio relapsa na arte de pedir, mas acho que o Chefe tá ciente de que quero tudo de bom e lindo para as pessoas que me são caras… E é muito bom saber que também estou na listinha dos amigos, obrigada! (e agradeça ao seu ‘eu’ também…)

  3. Afff… é, teu lugarzinho no céu tá garantido.

    Eu já tive essa paciência, mas um dia resolvi fazer uma experiência.

    Bateram na minha porta e perguntaram: “você tem um minutinho para Jesus?”.

    Eu respondi: “só se vocês tiverem um minutinho para Buda”.

    Eles não tinham.

    Aí eu disse “então, tchau!” e fechei a porta. 🙂

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    Hoje em dia nem o risco de ouvir um “sim” estratégico eu corro mais. Digo “muito obrigado, mas eu já tenho minhas próprias convicções e não estou disposto nem a discuti-las, nem a mudá-las”. Se aceitam meu “não”, eu digo que a Paz esteja com eles e que vão com Deus. Se insistem, eu digo “já falei que não estou interessado, passar bem” e fecho a porta.

    Agora… na fila do hospital? Sem poder fechar a porta? Acho que eu daria o primeiro corte educadamente e se não funcionasse eu diria “tchê, não me enche o saco!”.

    Eu vejo a coisa da seguinte maneira: quer me vender uma religião? Primeiro viva de maneira tão abençoada, iluminada e santificada, irradiando felicidade, contentamento e paz, que me chame a atenção e me faça querer isso para mim também. Então, quando eu perguntar como obteve tamanha Graça, explique e me oriente. Assim pode.

    • Ah, mas ele não estava me vendendo religião, nem tentando me convencer de nada. Simplesmente quis dar testemunho de algo que foi importante pra ele, algo como contar um caso interessante que aconteceu. Não rendeu assunto, não me perguntou sobre as minhas convicções, não quis comparar, nada. Só tive que ouvi-lo, e isso não me custou nadinha. Se fosse ladainha, provavelmente eu arrumaria um jeito de sair fora, ou torceria pro enfermeiro me chamar logo. Mas o moço só queria falar um pouquinho, e ainda saí de lá com uma promessa de oração por mim, olha que legal. E boas vibrações eu não dispenso de jeito nenhum… 😉

  4. Monica
    Eh! o que ‘é transcendental’ não está à vendaem lugar algum, a exemplo:
    em brechó! lugar de coisa antigas, ou fora de moda).
    ‘Não se trata de algo externo…’
    mas uma necessidade do recôndito de cada um conforme suas ‘vivências’, pois elas ‘são acervos inalienáveis’ segundo uma psicóloga transpessoal brasileira.

    E como algo de necessidade de nossa mente e espírito, está correlacionado com o ontológico, é algo profundo e muito peculiar.

    As pessoas precisam a conviver com a ‘A Era do Vazio’,
    (estudo sobre a individualidade contemporânea!) Gilles Lipovetsky, já citei aqui.
    Quando estamos em nossa privacidade, isto deve ser respeitado!

    De fato, no caso não houve insistência sobre a sua escolha,
    apenas uma demonstração de alegria compartilhada e a promessa de oração,
    foi uma forma de agradecimento por sua atenção, algumas pessoas
    estão sedentas disto!
    Miseráveis (não apenas os de Victor Hugo), têm aos montes!!!
    Eles mendigam quem os ouçam, apenas ouçam!

    Há pessoas que já vêem com discurso decorado e psicologia de marketing,
    querendo convencer que estamos no caminho errado, e eles? quem são
    para julgar seus semelhantes?

    Concordo, não suporto insistência pois tenho minha opinião formada
    e não a imponho a outros, (sou o que sou e demonstro pelas minhas atitudes
    perante a sociedade na qual vivo,se isto servir de modelo…),
    cada um faça suas buscas e suas escolhas, caso sinta dificuldade,
    procure profissionais especializados para tirar suas dúvidas.

    Imparcialidade, parcimônia, diplomacia, nunca fizeram mal a ninguém,
    são qualidades para em especial Líderes, mas observamos que isto para eles
    são atitudes obsoletas…façamos a nossa parte ética e assim haverão
    menos discussões e perda de tempo, com algo que já está consolidado
    para cada um!!! Enorme abraço.

    • Pois é… Ouvir, quando só isso nos é pedido, não custa nada, né? 🙂
      E a gente ainda sai cedinho na segundona com uma promessa de oração – quer coisa melhor do que alguém desejando o bem pra nós?
      abraço

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