A Dama de Ferro

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Quando parte do público e da crítica detonou seu ‘A Paixão do Cristo’, Mel Gibson respondeu mais ou menos assim: ‘esse é o meu filme, é o meu ponto de vista, e ninguém é obrigado a concordar com ele. Você pode, por exemplo, pegar 40 milhões de dólares e fazer sua própria versão.’ Não sou particularmente fã do filme ou do Mel, mas no fundo é mais ou menos por aí. Um filme – mesmo um documentário, que a gente costuma achar que é assim, mais ‘neutro’ – é o ponto de vista do diretor. Dá pra concordar ou discordar das escolhas que ele faz, achar que ficou faltando isso, sobrando aquilo, mas é isso, e mesmo quando o ponto de vista do diretor não está lá, explícito, essa também é uma escolha consciente dele. Pelo menos deveria ser.

Então, tudo que peço (tá, eu peço mais, mas no mínimo isso) é que exista um ponto de vista do diretor pra que eu possa dizer ‘é isso mesmo’ ou ‘não é nada disso’. E foi o que procurei, procurei, mas não encontrei em A Dama de Ferro, da diretora Phyllida Lloyd. Meu problema foi que saí da sala com a sensação de saber o que o filme não é. Não é exatamente um filme ruim, como algumas críticas que li me fizeram acreditar, mas também não é um filme bom. Não é bem um filme sobre a vida política da Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica por onze anos (e três mandatos). Não é um filme sobre a vida da mulher, mãe e esposa. Não é um filme sobre o que aconteceu com ela após deixar o poder, e nem sobre seus anos recentes, com o avanço do mal de Alzheimer. Na verdade, o filme tenta ser um pouco de tudo isso. No caminho, acaba não sendo sobre nada e só dá umas pinceladas um tanto superficiais em todos esses temas.

O caso é que é difícil ser superficial e meio-termo quando se fala de Margaret Thatcher. Difícil porque ela era uma mulher de personalidade extremamente forte, com ideias conservadoras, uma senhora arrogante, decidida e boa de briga, que saiu na queda de braço com sindicatos, com os trabalhistas, com os soviéticos (que a apelidaram de Dama de Ferro), com o governo argentino e sua guerra das Malvinas (ou Falklands, dependendo de qual lado do Atlântico você está). Ao contrário da diretora do filme, perdida em seu ponto de vista, a ex-primeira ministra não ficava em cima do muro: tinha sua turminha de seguidores que a apoiavam e uma multidão ainda maior de críticos que a odiavam. Ela bem que merecia um filme com mais personalidade e ponto de vista.

Lloyd quis nos mostrar uma Thatcher mais humanizada pela doença e pela solidão que costuma acompanhar os poderosos quando desaparecem dos holofotes do poder. Ela tem alucinações e conversa com o marido falecido (Jim Broadbent), sente falta dos filhos, faz tarefas cotidianas como sair para comprar leite ou lavar a xícara de chá, e finalmente está se desvencilhando das roupas e pertences do marido, que guardou por anos. Parece ser, para a diretora, a mulher que fez sacrifícios pessoais para cumprir um dever patriótico (posso estar ‘viajando’ aqui, mas não pode ter sido coincidência a inclusão, em duas passagens, da ária ‘Casta Diva’, de Norma, uma ópera que fala exatamente sobre isso). Me convenceu até certo ponto -não é difícil enxergar a fragilidade atual dessa senhorinha de 86 anos – mas todo o pano de fundo político e econômico da Grã Bretanha dos anos 8o ficou bem lá no fundo mesmo (se viesse mais pra frente, acho que seria bem mais complicada essa empatia).

O que sobra no filme, e é realmente assombosa, é a performance de Meryl Streep. Não apenas na incrível semelhança física (palmas para a equipe de maquiagem e guarda-roupa!) e o tom de voz impecavelmente Thatcher-like (compare a original com a personagem), mas nos detalhes que só uma atriz do calibre de uma Meryl Streep, de 62 anos, consegue criar: os movimentos e o andar de uma senhora 24 anos mais velha, o olhar às vezes perdido e distante de uma mulher cada vez mais frágil mentalmente, o ‘envelhecimento’ da voz, algo que bem poucos atores são capazes de fazer com competência e credibilidade. O filme é Meryl Streep e é totalmente dela o mérito de nos fazer ter um pouco dessa empatia que a diretora nos pede. Se não fosse pela atriz, esse seria um daqueles filmes totalmente esquecíveis: não é um filme biográfico, não faz qualquer análise, não discute o cenário político e econômico da época (os atos terroristas do IRA, a guerra das Malvinas, a greve dos mineiros no norte do país, a manutenção do país fora da zona do euro), é quase uma porção dessas coisas, mas não é nada. O que realmente salva A Dama de Ferro de ser um filme ruinzinho é Meryl. Meryl mereceu sua 17a indicação ao Oscar. Merece ganhar. E Margaret Thatcher, seja qual for nossa opinião sobre ela, merecia um filme com mais sustança.

PS- sou bem crua na parte técnica e tals, mas ainda estou tentando entender a confusão de enquadramentos e movimentos de câmera incrivelmente estapafúrdios desse filme. Se era pra ter um propósito, ficou aí mais uma incógnita pra gente decifrar.
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2 respostas em “A Dama de Ferro

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