Cinco filmes, um só post

Acho que vou ter que dar muitas aulas extras em março para cobrir o rombo orçamentário causado pelo excesso de estreias de filmes nessa época de Oscars. As distribuidoras bem que podiam quebrar o nosso galho e ir soltando os lançamentos aos pouquinhos, né, mas que nada, vem tudo de uma vezada só e quem gosta de cinema que se vire pra colocar a programação em dia. E olha que tem filme que só vai começar a ser exibido ‘em um cinema mais perto de você’ depois da festa da Academia, então a situação poderia estar até bem mais complicada pro meu lado. E se dar conta de assistir a tanta coisa já foi uma peleja, falar sobre todos esses filmes assim, de uma maneira mais completa, olha, vou ficar devendo pra vocês. Mas deixa eu dar pelo menos uma pincelada em algumas coisinhas:
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A Invenção de Hugo Cabret:
Belíssima homenagem de Martin Scorsese aos pioneiros do cinema e, em especial, ao diretor francês Georges Méliès, o bisavô dos efeitos especiais. A história do menino Hugo (Asa Butterfield), um órfão que mora escondido entre os relógios de uma estação de trem em Paris, é entremeada por cenas clássicas do cinema do começo do século XX – algumas originais, como as de filmes do próprio Méliès (vivido no filme por Ben Kingsley), e outras ‘repaginadas’, como A Chegada do Trem à Estação, dos irmãos Lumière e a famosa cena do relógio em Safety Last, do Harold Lloyd. Scorsese disse que divertiu-se muito e aprendeu mais ainda testando os recursos da tecnologia 3D, e se sentiu mais ou menos como um Méliès brincando e experimentando com a câmera (e ele ainda deu uma de Hitchcock, fazendo uma aparição relâmpago como um fotógrafo na frente do estúdio). É um filme delicioso, capaz de agradar cinéfilos e a galera em geral. Se puder, prefira a versão legendada e em 3D – primeira vez que eu vejo essa tecnologia sendo usada como recurso cinematográfico para contar uma história e não apenas como um fim em sim mesmo. Não sei se vai ganhar as 11 estatuetas, mas sem dúvida merece tudo que levar.
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Os Descendentes:
Sei que teve um bocado de gente que não gostou e achou bobinho e tudo o mais, mas não foi o meu caso (confesso, George Clooney e Havaí no mesmo projeto aumentam consideravelmente a minha simpatia pela causa). Tudo bem que não dou o Oscar de melhor filme (nem mesmo o prêmio de melhor ator, Gary Oldman como Smiley me impressionou muito mais), mas é um filme bonito, delicado, com um roteiro bem amarrado e ótimos diálogos. Como acontece nos filmes dirigidos pelo Alexander Payne (vide Sideways e As Confissões de Schmidt), os dramas das pessoas comuns são tratados com sensibilidade e até mesmo com um toque sutil de humor, se você prestar bastante atenção no que os personagens estão dizendo. Às vezes é animador poder ‘pedir altas’ dos efeitos especiais mirabolantes em projeções 3D ou dos grandes filmes com temas confusos e realização mais ainda, e ver uma boa história simplesmente sendo bem contada.
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Histórias Cruzadas:
É um desses feel-good movies que tratam de um tema polêmico – o racismo – de uma maneira leve e intimista (os críticos disseram superficial, o que não deixa de ser verdade). É entretenimento, e quem quiser entender melhor a questão racial no sul dos Estados Unidos no início dos anos 60, sugiro que assista a um dos muitos documentários que existem por aí sobre o assunto, porque nisso Histórias Cruzadas mal dá pro começo. Foi um período tão interessante e tão relevante na história moderna americana, que achei meio desperdício o roteiro não tratar do assunto com um pouco mais de assertividade (afinal, 1963 foi o ano da marcha pelos direitos civis em Washington, com Martin Luther King). Mas vale muito pelas atrizes, sobretudo Viola Davis (como a contida Aibileen) e Octavia Spencer (a espevitada Minny), mesmo que um pouco caricata demais. E pouca gente liga pra isso, mas eu adoro ouvir o sotaque cantado e arrastado dos sulistas, então eu me esbaldei!
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O Homem Que Mudou o Jogo:
Os homens reclamam que é impossível compreender as mulheres mas olha, pra mim, muito mais difícil é entender beisebol. Já pelejei, foram horas na frente da TV acompanhando o World Series (amo a megalomania americana, que chama campeonato nacional de WORLD), vi tutoriais, pedi ajuda aos universitários. E nada. O Homem Que Mudou o Jogo é sobre beisebol, mas a gente assiste e se diverte mesmo sem ter a menor noção de como o jogo funciona. A história real de como o Oakland Athletics chegou ao incrível recorde de 20 vitórias consecutivas com um grupo de ‘rejeitados’ pelos grandes times traz alguns daqueles temas tão caros ao pessoal nos Istêitis (os losers que viram heróis, ou quase, é preciso acreditar apesar de tudo, é preciso pensar ‘fora da caixa mas é preciso pensar como um vencedor) e, apesar de não fazer a mínima ideia de como esse filme foi parar entre os nove indicados pra estatueta-mór, eu recomendo como puro entretenimento. E Brad, você continua lindo como sempre e até convence como Billy Beane, mas se houver justiça nesse mundo de modêus, o prêmio de melhor ator não vai pra você de jeito nenhum.
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O Artista
É um filme francês. Mudo. Em preto-e-branco. E apesar disso – ou até por isso também – recebeu merecidíssimas dez indicações para o Oscar 2012. Pelo menos uma tem que sair para ele, sem qualquer sombra de dúvida: a trilha sonora composta por Ludovic Bource é absolutamente brilhante e dita com perfeição o ritmo e o tom do filme. A história aparentemente bobinha sobre a decadência de um artista do cinema mudo (Jean Dujardin) que se recusa a acompanhar os tempos e aderir ao cinema falado, e da aspirante a atriz (Bérénice Bejo) que se torna uma estrela nessa mesma época, recebeu um roteiro simples, mas bem amarrado, e a direção ‘redondinha’ de Michel Hazanavicius. Um bom diretor e um bom roteiro fazem maravilhas e durante pouco mais de hora e meia a gente se esquece de que existe toda a parafernália high-tech do cinemão atual. Esquece até que a vida real tem som e cor. Um filme muito lindo, divertido e ao mesmo tempo poético. E eu, ‘team Gary Oldman’ de carteirinha, de repente me vejo mui discretamente torcendo por Dujardin e seu brilhante George Valentin, com bigodinho à Douglas Fairbanks e tudo. (e ninguém vai arrumar um jeito de dar um Oscar especial para Uggie, o cachorrinho mega fofo???)
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