Dia Internacional da Mulher – revisited

Ainda é bem cedo e a caixa de entrada de emails e a minha página no Facebook já colecionam mensagens de amigos, todas com efusivas felicitações por mais essa emocionante edição do Dia Internacional da Mulher. Também estão presentes algumas dezenas de fotos bonitinhas, mensagens simpáticas com aquela vibe de auto-ajuda, as tradicionais frases garimpadas de genéricos da Clarice Lispector e do Caio Fernando Abreu, buquês de flores virtuais, fotos homenageando a esposa/mãe/vovó/namorada por ser essa pessoa tão maravilhosa e importante que é, e até um inusitado buquê de gatinhos enviado por um amigo. E, em contrapartida, a enxurrada de postagens de amigas também, claro, algumas reclamando ‘mas que mané dia internacional da mulher o quê!’, ‘peguem essas rosas e…’, links para artigos que mostram que essa tal igualdade entre os sexos ainda está a algumas centenas de datas estelares de distância, enfim, nada muito diferente do que eu vejo em rigorosamente todos os dias internacionais da mulher.

De minha parte, posso garantir que recebo os parabéns e as flores e as mensagens com muito apreço, que não sou doida de recusar essas pequenas delicadezas em tempos de tanta gente irritadiça e mal humorada umas com as outras. Mesmo que seja só por falar, que seja só mesmo por vir de alguém sendo levado pelo entusiasmo dos demais, mentiras sinceras me interessam, já dizia o ‘grande filósofo’ Cazuza. E os votos e abraços enviados de coração aquecem a alma, e quem sou eu pra dizer não pra um abraço, não é mesmo?

Mas, para além dos buquês de margaridinhas mimosas, das mensagens no celular, dos arquivos de power point com textos edificantes e fundo musical do Kenny G, existe ainda um universo inesgotável de pendências super práticas e concretas aguardando os voluntários mais desavisados, que acham que é só agradar com um carinho e estamos conversados. Ó, tem varal precisando de uma regulada nas cordas, tem blindex de duas varandas que adorariam uma faxina vigorosa, tem uma luminária de teto que é um inferno pra desmontar e uma lâmpada queimou, precisa trocar, tem uns móveis aqui que eu tou doida pra mudar de lugar, só esperando os braços fortes para o serviço, tem também um carrinho que já viu melhores dias carecendo de um polimento caprichado, apressei outro dia num desses lava-jatos megaplus e fiquei boba com o preço, vai que tem uma alma caridosa que se dispõe a executar a tarefa no melhor espírito 0800, não é mesmo? E notem bem que nem mesmo toquei naquelas atividades mais cotidianas que sempre sobram para as homenageadas do dia – comida pra fazer, banheiros pra lavar, pilha de roupas pra passar, a lista é quilométrica. E eu nem me atrevo a levantar qualquer discussão sobre todas as outras questões que costumam dar pano pra manga e render intermináveis bate-bocas online e off, violência contra a mulher, igualdade de oportunidades (e de salários, por favor), família, filhos, liberdade sexual, estereótipos, preconceitos e outras ‘miudezas’. Não. Estou apenas no plano mais corriqueiro da vidinha de sempre, nada muito complicado. E isso é só por aqui, mas pergunta pra qualquer mulher aí do seu círculo e te garanto que ela vai te apresentar uma lista com a extensão do rio Nilo.

Então, rapazes, eu agradeço de coração os votos, fotos, mensagens e pequenos mimos pelo meu dia, faço desfeita não. Mas ainda temos muito chão pela frente até chegarmos naquele ponto da tal igualdade total. Enquanto isso, pra gente não ficar por aí à toa, aqui em casa tá cheio de serviço, é só escolher. Ah, e as flores podem fazer parte do combo…
***

17 respostas em “Dia Internacional da Mulher – revisited

  1. O fato de ainda se comemorar a data mostra que assim como os negros, índios e gays, as mulheres não têm os mesmos direitos e são vistas como minoria (o que não faz o menor sentido, já que nos censos, as mulheres são, via de regra, maioria no Brasil) e que merecem “proteção” (a do tipo paternalista e subestimadora). E não adianta virem me dizer que é lobby de comerciante, que o dia existe pelo mesmo motivo que existe dia dos pais, mães, da criança ou do médico. Ser mulher, negro, índio ou gay não é uma condição que se adquire (pai, mãe, médico) ou se perde (criança). Continuo na campanha pelo dia do ser humano: 01 de janeiro a 31 de dezembro. E neste meu/seu/nosso dia, eu quero ganhar (e prometo dar) o mesmo presente de ontem e de amanhã: respeito, no sentido mais amplo possível.

    • Ondé que eu assino?🙂
      Concordo totalmente, a gente ainda tem uma looooonga caminhada.
      Porque, por enquanto, o que tem mesmo de sobra é dia do ‘cerumano’…
      bjk

  2. A mulher merece um dia (pelo menos um) já que os homens têm uma semana, o Carnaval, com direito a desfile de mulheres nuas aos magotes na avenida… mas não se preocupe, não vou desejar pra vocês um desfile de marmanjos de meia idade, pelados, barrigudos e sem tapa-sexo. Seria o vestíbulo do escritório do capeta!!!

  3. Monica, esse onqitão aí em cima, tem gente lendo inté em Madagascar, véi? Putz, conheço esse país do War, aquele que não coloca pedra.
    ´`ah, parabéns pelo seu dia! Mas ó, to fora de arrastá móvis..rs bjo

    • Madagascar é que nem Vladivostok, se não tivesse no WAR, muita gente nem ia saber da existência! 😀
      Arrastar móvel nada, que eu não quero que estrague o meu piso de tábua corrida chiquérrimo, né? É pra levantar e colocar no lugar certo, deixa de ser mole!!! 😉
      bjk (e thanks!)

  4. Ihhh sei não Monica…todas essas coisas eu faço sem carecer de ajuda. Lavo no capricho minha bike, conserto tomada, cadeira, e o que mais quebrar, e no pós Pilates até abro vidro de azeitona sózinha e empurro os móveis. Faço minhas unhas, corto meu cabelo, faço luzes…vão lá pensar que sou alguma Pereirão, né? Sou não. Os homens na minha vida só me deram trabalho, namorados, irmão, sobrinhos…Tem homem que não troca uma lampada na casa! Então tá na hora de inventar o Dia do Homem pq eles tão meios perdidos sem saber de que lado vem o bonde da história. A meu ver, tá? Pq juro que se tem coisa que sinto falta é ao entrar no elevador um homem gentilmente segurar a porta…hoje vc vai abrir a porta e neguinho te atropela e passa.

    • Hahaha, mas eu também, que a dona minha mãe também era assim e não ficava esperando os outros resolverem a vida dela…🙂 Cortar meu próprio cabelo eu não dou conta não, certeza que seria um desastre! Mas uai, então eu dou é muita sorte, porque eu ainda esbarro em cavalheiros perdidos em pleno século 21, grazadeus. Prezo muito a companhia deles, bons modos e finesse nunca saem de moda!😉
      bjk

  5. li um monte de post essa semana, de varios blogs… também reclamando sobre o dia da mulher, mas tu continua sendo a “mônica”, ou seja… com argumentos fortes e conclusivos… sem aquela revolta que nao explica nada com nada! beso!

    • reclamar do preconceito e lembrar que ele existe e bom (sorry pela falta do acento, meu teclado acordou desconfigurado!) e necessario, mas eu, pessoalmente, nao me importo em receber votos de felicidades… 🙂

  6. Monica
    A mulher tem tanto, tanto de bom para se falar
    ‘nas línguas dos homens e dos anjos’, (coríntios 13),
    não seria suficiente… outros: poetas, historiadores, etc.
    Desta vez não vou me pronunciar – a biblioteca é imensurável!!!

    Como não consigo me comunicar por e-mail, gostaria que aceitasse, como a todos aqui,
    um endereço sobre o ‘Dia internacional do Homem’, que ano passado aqui no Brasil,
    foi comemorado dia 15 de julho, mas ainda timidamente.

    A diretora da Secretaria de Mulheres e Cultura de Paz da UNESCO, Ingeborg Breines,
    disse que “a criação da data é uma excelente idéia para equilibrar os gêneros”
    as justificativas constam nos links abaixo..
    .
    Monica… fica então um tema para suas crônicas, deve ter muito a ser pesquisado
    e propagado!… afinal, nossos parceiros de jornada, bem merecem ter sua data.

    Se bem que, outro dia comentei aqui, sobre o que É ESPECIAL, não ter dia nem hora,
    e sim na base daquele título de um livro e filme que lhe falei
    “Va’ dove ti porta il cuore”, isto sim, é curtir! na frase, não no filme.
    Mas, como vc bem falou, quem não gosta de um agrado, um regalo, que venham! pois!
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_Internacional_do_Homem
    http://notapajos.globo.com/lernoticias.asp?id=42654

    E um comercial, não sei se conhecem, deixo-lhes aqui endereços
    (se um não funcionar, disponham de outro):

    Divirtam-se!
    Monica, bjs e o desejo de carrinho daqueles dos Jetsons para vc,
    aliás o Brasil inteiro está precisando urgente de carros ‘maneiros’
    e de preço acessível, para voarmos!
    mas aí, vem a questão ‘controle de tráfego aéreo’, aguardemos!

    • Uai, o dia do homem é 15 de julho? Alguém falou lá no FB que é ‘Primeiro de Abril’… 🙂
      Mas eu acho essa enxurrada de datas comemorativas meio over demais. Deviam só comemorar Dia De Gente, ou qq coisa parecida, dava menos trabalho e aí sim, era igualdade de gêneros, né?
      Essa propaganda é show!
      bjk

  7. Adorei seu texto, principalmente, porque ele acaba provando que por muito que fazemos e tentamos ser autônomas, independentes e iguais, nunca seremos iguais. E na verdade, em casa de homem só, falta um toque feminino, falta uma leveza, um pequeno detalhe. E em casa de mulher só, é como vc descreveu. Ficam acumulados os pequenos consertos que demandam uma força de músculos masculinos. Então, não aprecio o dia da Mulher porque isto nos coloca abaixo do homem quando estamos carecendo é de parceria. Mas, também estou no time “mentiras sinceras me interessam”. Claro que aceito as flores, o carinho, e as homenagens…… mesmo que disparadas por uma convenção!

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