Que nem gente

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Acho que seria um bocado mais fácil acreditar naquela história de Adão, Eva e tal e coisa se eu nunca tivesse ficado frente a frente com o Idi Amin. Não o ditador de Uganda, claro, mas o gorila do zoo de Belo Horizonte que morreu no começo do mês. Porque, olha, se aquele ali não é evidência indiscutível de que o senhor Darwin estava coberto de razão, não sei então o que pode ser. Eu já tinha visto o Idi diversas vezes em seu recinto, ele era o xodó de todo mundo que visitava o jardim zoológico, mas ficar a poucos passos dele e poder observar de perto os gestos, seu olhar, sua atitude, foi das coisas mais incrivelmente surreais que eu já vivi.

Eu estava curiosíssima para vê-lo mas ele, obviamente, não estava nem um pouquinho aí para a minha presença ali naquela tarde. Meu amigo biólogo tinha ido levar uma mistura de vitaminas e medicamentos para ele, que se recuperava no ‘hospital’ do zoológico após uma cirurgia, e foi assim que eu o encontrei deitado no chão da jaula, um braço cobrindo os olhos para proteger do sol como se estivesse fazendo a sesta. Ignorou por completo nossa chegada e só descobriu os olhos quando meu amigo, depois de chamá-lo pelo nome várias vezes, bateu a garrafinha plástica na grade. Aí a conversa foi outra. O bicho se pôs de pé rapidinho e veio andando na nossa direção, e foi então que eu pude ver como era enorme, mesmo caminhando nas quatro patas. Eu estava a uma distância segura da jaula mas imaginei que se ele resolvesse dar uma de Tarzan, ficar totalmente ereto e bater aquelas mãozonas no peito e soltar um grito, eu sairia correndo dali em velocidade recorde.

Mas o mais incrível não era seu tamanho ou a altura. Era como ele se parecia comigo. E com meu amigo. E com você e todo mundo. Eu sempre tive bicho em casa, estava acostumada com aquela história de ‘nossa, ele parece gente, entende tudo que eu falo’, mas de repente o Idi Amin levava essa frase a um outro nível. O jeito de olhar pra gente, os gestos, as expressões, os movimentos do corpo, tudo parecia estranhamente familiar, só faltou ele dizer ‘boa tarde, qual é o menu do lanche?’ Pois é, o lanche. Meu amigo tinha me avisado para não ficar muito perto da grade quando o gorila pegasse a garrafinha, porque aquela rodada era surpresa, tinha a vitamina que ele adorava E os medicamentos. Ele nunca sabia quando os medicamentos eram incluídos na receita, porque ele odiava. E, odiando, não tomava. O ritual era o mesmo: tomava alguns goles e, ao perceber o gosto do remédio, atirava a garrafinha longe. Geralmente ela caía no chão dentro da jaula, mas podia passar entre as grades ou espirrar pra todo lado, tudo era possível. Melhor não ficar muito perto. Idi pegou a garrafinha com as mãos (do tamanho de uma luva de goleiro), bebeu um tanto, percebeu o gosto e pá!, atirou a tal garrafinha com a maior força contra a parede do fundo da jaula. Olhou pra gente. Estava puto!

Veio andando na nossa direção, eu pensei ‘pronto, agora o bicho vai ter um ataque, King Kong feelings’. Parou do outro lado da grade, os olhos fuzilando, a testa franzida, a cara de poucos amigos. De repente, deu as costas pra gente, ficou contra a parede, cruzou os braços sobre o peito, baixou a cabeça. Gente, o Idi Amin emburrou! Que nem criança quando é contrariada. Não queria papo, nem olhava pro nosso lado. Meu amigo tentou argumentar, explicando que aquele remédio era pro bem dele (rá, coisa mais engraçada a gente conversar com um bicho daqueles como se fosse gente mas, né, é gente mesmo), o gorila nem aí pra nós, cabeça baixa, de vez em quando dava aquela olhada de rabo-de-olho e virava a cara pro outro lado. Ali estava e ali ficou, não arredou pé, não quis mais conversa. Me deu a maior dó ver aquela expressão de raiva e desaponto, mas deu também muita vontade de rir.

Meus amigos no zoológico diziam que o Idi Amin era assim, surpreendente, interessante, de personalidade. Se eu já fiquei triste, imagino como todo mundo ficou com a morte dele, e não só porque era a atração do lugar, o único exemplar em cativeiro na América Latina e tal, O Idi era um figuraça. Como diria meu pai, ‘um ser humano da melhor qualidade’.
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14 respostas em “Que nem gente

  1. Puxa vida! Que pena mesmo! Eu não sabia que ele tinha morrido. Vai deixar mesmo um oco no zoológico! Sabe que quando ia lá, chegava a me incomodar com a tal semelhança? Acho que agora, eles deviam colocar no lugar dele apenas um grande espelho….

    • Impressionante como esses bichos são, né Rosana? Meu primo trabalhava numa RPPN onde existiam vários tipos de primatas, e contava cada história incrível. É pra colocar espelho mesmo… 🙂

  2. Estas lembranças, por mais tempo que tenham ocorrido, são inesquecíveis, fabulosas e surpeendentes… sempre, principalmente quando nos deparamos com comportamentos ou atitudes tão próximos de nós. O que fazer??? respeitar e aprender muito com estes animais…

    • Pois é, Humberto, tou aqui tentando me lembrar de quando foi isso, parece que foi outro dia mas eu sei que já se vão vários anos. Me lembro também daquele jabuti com o casco partido e a siriema da perna torta, e uns leõezinhos que tinham nascido e estavam em quarentena… Os bichos são realmente incríveis, só quem gosta é que sabe. É isso mesmo, temos muito o que aprender com todos eles.

  3. Adorei seu texto Mônica! era assim mesmo. Uma vez o vi olhando o relógio de um tratador…tipo “que horas säo agora” ?!?! hehehe, e outra vez, eu cheguei perto de quem estava dando uma vitamina de vegetais e frutas numa garrafa PET….ele näo gostou nada e saiu um som tipo “rrrggggggg”….nada em volume alto, mas que estremeceu tudo que era sólido, hehehehe. Idi, Idi… danadinho!

    • Imagino o tanto de histórias que você tem dele pra contar, né Cris? Foi dessa vitamina mesmo que o Humberto tava levando naquele dia, uma mistura verde que parecia horrível, mas devia ser uma delícia pro Idi. Tanto que não quis dividir com você, né… 😛

    • Ô Max, que coisa mais linda! Inda bem que eu fui esperta e deixei pra assistir aqui no recesso do meu lar, sem ninguém por perto, porque dar aula de nariz vermelho e olho inchado não ia dar muito ibope… Me senti assistindo Dumbo. E que coisa mais gracinha é esse Solomon, minino, lindinho demais ele dizer que não sabia quem tinha colocado as correntes nela pela primeira vez, mas que estava feliz por ser o último a tirá-las… Essas delicadezas são de arrepiar, chorei baldes. E, pelo visto, não fui a única, né Jota? 😉

  4. Uma vez eu apertei a mão de um chimpanzé. Não me lembro quando foi, nem onde, nem porquê… suponho que tenha sido no circo, quando eu era criança. O engraçado é que eu não lembro da cena visualmente, mas lembro que a mão dele era mais quente que a minha e que ele achou graça da minha reação de espanto ao perceber isso – uma graça muito humana, típica de quem sabe que está lidando com uma criança. Nunca ninguém jamais me convenceu que animais são “irracionais”.

    • Não é interessante como essas imagens ficam fortes na memória da gente, Arthur? Esquece quando, esquece onde, mas o fato em si fica lá, guardadinho em detalhes, as sensações, tudo. Bicho é tudo de bom, o ‘cerumano’ é que carece de dar uma aprumada!

    • Obrigada, Renato! Foi mesmo uma oportunidade única, é dessas coisas que a gente não esquece de jeito nenhum. Como disse uma prma que às vezes ‘trabalhava’ com ele, parecia que era o gorila que observava o comportamento das pessoas, e não o contrário…

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