Fazendo sucesso

A pequena sai da escola no fim de um dia de intensa atividade e o pai é quem vai carregando a parafernália toda – mochilinha, merendeira, estojo do violino, sacola da natação – corredor do shopping afora. Uma bela hora pede uma mãozinha:
– Ô, mas é muita coisa pra eu carregar sozinho, hein? Me ajuda aqui.
Ela então, toda solícita:
– Pode deixar que eu levo o estojo do violino.
E antes que o pai dissesse qualquer coisa, emenda:
– É que quando eu passo as pessoas me olham e comentam “Ai, olha só que linda, ela estuda violino!”
Ganhar uma massagenzinha no ego de vez em quando e fazer sucesso com a galera – quem não gosta? A diferença é que criança é honesta e admite.
***

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21 respostas em “Fazendo sucesso

    • E não é que é? Mas todo mundo gosta, é bom quando a gente posta uma foto e as pessoas dizem que ficou linda, um quadro e os amigos elogiam, conta alguma coisa legal e os outros dão os parabéns… A vida tá fácil não, uma massagenzinha no ego, na hora e proporção adequadas, fazem bem pra alma! 😉

    • Eles não são demais, Luciana? A delícia é que eles dizem isso com a maior naturalidade do mundo, sem a menor afetação, porque são lindos mesmo! Depois a gente cresce e fica boba, cheia de medos, ou então metida a besta. Neles tudo é espontâneo. Tiro o chapéu pra essa meninada…
      bjk

  1. Uma crônica pequena mas um conteúdo que é a cena típica da família moderna.
    acrescentada das características bonitas de uma criança,
    que é a espontaneidade e a veracidade, a própria inocência!

    Isto imagino que não mude nas gerações, futuras, é importante em nossas vidas,
    ter bem caracterizada as brincadeiras, vestimentas e conversas, leituras de criança,
    e ‘viver cada fase plenamente’: assim a pré-adolescência, adolescência…
    Cada uma destas etapas vão se somando e formando bases e valores que formarão (supõe-se), adultos saudáveis e com objetivos bem esclarecidos e estabelecidos!
    É um tremendo risco pular estas etapas!!!

    Não há coisa mais incongruente e perniciosa do que estimular crianças à hábitos de adultos, se vestirem como tais, e não saberem porta-se com educação em ambientes públicos: “costume de casa vai a praça”! Isto lógico sem tolher a sua alegria!
    A vaidade, até onde seja para sua auto-estima fortalecida, – sem exibicionismos –
    porque aí já se tornará chata, inconveniente.

    Você falou “depois que a gente cresce e fica boba, cheia de medos…” gostei!

    Sobre isto existe um texto original de Clarice Lispector, chamado
    “Das vantagens de ser bobo”, é um bom texto por suas referências valerem
    para crianças e adultos. Lindo!!! que alcance a Clarice teve sobre a inocência,
    exatamente associada a objetividade infantil, sem culpas… muito importante.
    Para que não precise procurar, Monica, não dá tempo de lhe perguntar,
    mas não faria algo que não fosse, um reforço para sua frase acima…
    Colocarei a seguir: Abraços.

    • Ser bobo é cheio de vantagens, né? 😉
      Mas criança é mesmo tudo de bom, eu nem dou conta de me lembrar de todas as coisas que elas dizem ou que as outras pessoas me contam sobre elas. Tem um monte de historinhas dessas aqui no blog, adoro. É mesmo uma tristeza ‘roubar’ essa fase das crianças, depois elas crescem e viram adultos ridículos…
      abraço procê!

  2. — Veja que ela faz uma linda homenagem a “Minas Gerais”…
    pareceu-me à sua visão: o Pedaço de Paraíso no Brasil! com pessoas de boa alma!


    na voz de Aracy Balabanian

    “Das Vantagens de Ser Bobo”

    O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo.
    O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas.
    Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo.
    Estou pensando.”
    Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram
    de sair por meio da esperteza,
    e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

    O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem.
    Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem
    diante dos bobos,
    E estes os vêem como simples pessoas humanas.
    O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.
    O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

    Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra
    de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão:
    ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara
    para a Gávea onde é fresco.
    Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona.
    Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado
    que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.
    Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo.
    Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.
    O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

    Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem:
    pode receber uma punhalada de quem menos espera.
    É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo
    a célebre frase: “Até tu, Brutus?”
    “Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!”

    Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu.
    Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. (?)
    O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
    Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil.
    Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.
    Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida.
    Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie.
    Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

    Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas
    (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil).
    Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo.
    Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

    Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.
    É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca.
    É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
    (Clarice Lispector)

    Obs.:
    (1)Marc Chagall, fazia bodes, peixes, casais, etc. Todos elementos vivos para ele,
    eram de muita leveza, movimento e luz — chegava a ser onírico — mas na verdade,
    parecia que o vôo era um ‘desprendimento’, talvez uma ‘liberdade involuntária’;
    Há muito em sua obra, de motivos bíblicos, e as pessoas também flutuavam.
    Sua terra natal, a Rússia era de muitos ventos, talvez daí as lembranças
    e o desejo de retorno, sabe-se lá?! Mas… era a tônica em toda a sua expressão artística.
    No período de guerras, foi obrigado a fugir, tal qual a família de Clarice Lispector, também russa.
    (2) Clarice Lispector, nunca foi poeta, só escritora cronista e romancista.
    Há alguns textos da autora dispostos na forma de poema,
    numa espécie de homenagem de um leitor, admirador, mas isto não faz parte
    de sua obra literária,
    evidente que ela apreciava poesia, mas se considerava muito simples para tal,
    no entanto, dentro de sua ‘timidez’, foi das escritoras mais ontológicas e portanto, estudada em profundidade pelos literatos e psicanalistas em vários países.
    Uma pessoa inteligente, aturdida e veloz em sua aparente passividade!
    (?) Aos cristãos — na verdade ela se refere à inocente, como dispostos
    aos maiores sacrifícios. Imagino que seu trecho final explica tudo:
    — “É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca.
    É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.”
    “Foi por isto que se permitiu crucificar, pelo ‘excesso de amor’ ”

    Por favor, não me expulse — Você falou sobre algo, que é valioso para
    educação infantil, e claro contribuirá para formação do adulto,
    e a inocência que não é valorizada, no verdadeiro sentido da palavra,
    Clarice a desdobra de forma simples e ao mesmo tempo psicanalítica!

    “Os links não são muito confiáveis, visto que as pessoas alteram o conteúdo.
    por este motivo fiz a maluquice de colocar na íntegra”.
    Desculpe-me. não mais farei semelhante coisa! Bjs.

    • hahaha, preocupa não, o comentário ficou longo, mas assim o pessoal pode ler o texto aqui mesmo, né? Tem suas vantagens…

      Esse negócio de link quebrado é uma chatice mesmo. O que eu faço geralmente é copiar o primeiro parágrafo, por exemplo, e depois dar o link. Assim, se ele não funcionar, a pessoa curiosa pode colar o parágrafo na busca do Google e encontrar outros sites onde o mesmo texto tenha sido postado. Funciona bem.
      bjk

  3. Rs, rs, rs. é a Clarice Lispector, está lá, antes das observações!

    Só as observações foram minhas.
    Apreciei por demais sua forma ‘bonita e concisa’ de um ‘retrato contemporâneo familiar’,
    daí, para entrarmos no universo infantil, se explora e muito…
    — foi quando lembrei da crônica de Clarice, com sua percepção válida para crianças
    e adultos… vai fundo,
    — ela percebe que não somos só circunstâncias, a nossa essência é preponderante em tudo!
    — Sei, ‘que é seu o espaço’, por isto pedi-lhe desculpas, mas você com um breve relato,
    nos estimula muito! Acredito que este “estupim”, seja um sinal de ‘você’ tocou em algo que precisa ser observado com mais carinho pelas pessoas em geral, especialmente pais,
    lidar com crianças é instigante, surpreendente! A intenção foi ser ilustrativa
    Enorme abraço, Mônica!

  4. Luciano Marques, a crônica “Fazendo sucesso”, é como falei:

    “Apreciei por demais sua forma ‘bonita e concisa’ de um ‘retrato contemporâneo familiar’,
    daí, para entrarmos no universo infantil, se explora e muito…”

    é a ***Monica*** autora deste blog!
    Saudações, felicidades!

  5. Oi Luciano,
    estou respondendo aqui embaixo porque não tem espaço logo depois do seu comentário…
    O texto original da postagem é meu mesmo, fico feliz que tenha gostado! Quando eu publico qualquer coisa de outra pessoa – artigo, poema, frase – eu sempre incluo o nome do autor, ou aviso de início que desconheço a fonte (é que algumas coisas bacanas, que eu gostaria de compartilhar, chegam pra mim via email, e o pessoal não costuma incluir essa informação importante…). Quando você ler alguma coisa aqui no blog sem autoria, é porque é texto meu! 🙂
    Um abraço!

    • Que legal, você trabalhou com crianças? Eu não sei se dou conta delas ‘no atacado’, mas acho essas criaturinhas simplesmente sensacionais. Não apenas a sinceridade e espontaneidade, mas a maneira como veem tudo com um frescor que a gente vai perdendo ao longo dos anos… Elas nos ensinam muito! bjk

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