Quase uma novela das oito

Henrique VIII casa-se com Catarina de Aragão, viúva de seu irmão mais velho Arthur. Têm uma filha, Mary que, quando vira rainha, apronta uma confusão dos diabos com os protestantes. Henrique manda Catarina pra escanteio, casa-se com a amante Ana Bolena e aí vem Elizabeth I. Que apronta uma outra confusão danada, dessa vez com os espanhóis e os católicos de modo geral, manda executar a prima Mary da Escócia, mas morre sem deixar descendentes. O filho dessa Mary, James VI da Escócia, é o parente mais próximo pra ocupar a vaga; vira James I da Inglaterra e sobrevive a famosa tentativa de Guy Fawkes de mandar o Parlamento pelos ares. Seu filho, Charles I, entra pelo cano numa Guerra Civil e acaba enforcado. Daí o filho Charles II, depois de um intervalo para os nossos comerciais na monarquia para Oliver Cromwell botar banca na ‘república’, continua a confusão do pai com o parlamento e morre sem herdeiros. Sai seu irmão James II (e VII lá na Escócia) do banco de reservas – ele, como Charles II, acha super legal aquela história francesa de reis com poderes divinos e tals, e acaba se dando mal, exilado na França, enquanto seu genro William de Orange (King Billy), holandês, tem mando de campo. James II morre, Mary II (sua filha e esposa de William) assume o trono com o marido, ela morre, ele reina mas, como não deixam filhos, Anne, irmã dela, herda a coroa quando William III morre. Apesar de engravidar um recorde de 17 vezes, Anne morre sem deixar filhos, o que põe fim à dinastia dos Tudor. Começa então a segunda parte da história, com um primo distante, George I (primeiro protestante na lista, já que todos os parentes católicos estão proibidos por lei de ascenderem ao trono nas ilhas) assumindo o posto e inaugurando a casa de Hanover. Ele morre durante uma viagem e seu filho, George II, sobe ao trono. O rei tem uma montanha de problemas com o filho Frederick, que cresceu na Alemanha longe dos pais. Frederick morre ainda Príncipe de Gales e é seu filho, George III, conhecido como ‘o rei louco’, quem herda a coroa e um punhado de problemas, inclusive a guerra de independência nos EUA. Seu filho, George IV, assume depois da morte do rei e fica conhecido pelo estilo de vida extravagante e irresponsável (vide o Pavilhão Real em Brighton). Uma breve pausa nos Georges e entra William IV (ou Guilherme), filho lá do George III e irmão do George IV. William tem um monte de filhos, mas nenhum legítimo, e com sua morte é a vez da sua sobrinha Victoria (‘We’re not amused!’) reinar por quase 64 anos – um recorde que ninguém por ali conseguiu quebrar até o momento. Depois de conquistar a África, Oceania, Índia e mais 24 territórios à sua escolha, Victoria sai de cena deixando o filho Edward VII (um belo exemplo pro príncipe Charles de como ser um quase eterno Príncipe de Gales) em seu lugar. Com a morte de Edward, seu filho George V entra na história, encara a Primeira Guerra Mundial e por pouco não pega a segunda também, mas morre em 1936. Escalado para entrar na vaga do rei, o filho Edward VIII resolve abdicar para se casar com a (escândalo!) plebeia divorciada americana Wallis Simpson. E chegamos em George VI (o rei gago de ‘O Discurso do Rei’), irmão de Edward VIII e pai de Elizabeth II, que está aí desde 1952, firmona, celebrando seu jubileu de 60 anos de reinado. Enredo da próxima novela das oito? Nada disso, essa é a confusão de nomes repetidos, números, datas e eventos que ela, aos 13 anos, tem que guardar na cabeça pra próxima prova de História.
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7 respostas em “Quase uma novela das oito

  1. acho que foi daí que Gabriel Garcia Marques se inspirou pra escrever 100 anos de solidão, com aquela quantidade de Aurelianos e Arcádios. Deve ser difícil passar na prova de história por lá, nós só temos dois Pedros e já fazemos confusão, porque o mais velho é filho do mais novo, né não?

    • Pois é! Foi nessa de primeiro e segundo que a conversa conversou – ela me perguntando se a Elizabeth II tinha alguma coisa a ver com a Elizabeth I, os Stuart e tudo o mais… E, como disse uma amiga lá no Facebook, se fosse a família real portuguesa a história seria ainda mais complicada, porque só dava Pedro, João e Manuel por lá.

  2. mas essa história é melhor que, por exemplo, a da França, né não? Eu se divirto com esse povo… Mas gosto de voltar lá atrás, com Guilherme, o Conquistador…

    • Ah, Guilherme, aquele conquistador! Dizem que as moças eram caidinhas por aquele normando! 🙂
      Eu também me divirto horrores. E conto todas as fofocas pros meus alunos. Outro dia um falou que, se tivesse aprendido História com esses parênteses todos, teria adorado a matéria. Os professores precisam ler mais Caras e Quem… 😛

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